sexta-feira, 2 de Novembro de 2012 05:43h Gazeta do Oeste

Criação de cachorros em apartamento no Sion vira caso de Justiça

Na parede do apartamento 102, em cores quentes, o quadro traduz texto do poeta francês Arthur Rimbaud (1854–1891): "Um toque de teu dedo no tambor desencadeia todos os sons e dá início a uma nova harmonia”. Retrato de casa letrada, onde vivem a economista Ana Luiza Jardim Loureiro, de 60 anos, os schnauzers Frederico, de 6, Penélope, de 9, e Lili, de 9, além da cocker spaniel Amora, de 8. Os quatro cães, “as crianças” de Ana Luiza, motivam desde maio uma ação judicial movida por um condomínio na Rua República Argentina, no Bairro Sion. O imbróglio provocado pela presença do quarteto no prédio de luxo já rendeu R$ 5.562,26 em multas para a economista, que depositou o valor em juízo. Ana Luiza já nomeou representante legal e está disposta a “levar a causa ao Supremo, se preciso”.

São 16 apartamentos no prédio de bom gosto e acabamento de primeira, com piscina, espaço gourmet, salão de festas e ginástica, próximo à Praça JK. Os moradores, incomodados em parte, querem apenas que se faça cumprir o regimento interno e a convenção de condomínio, que autoriza um único animal doméstico para cada unidade residencial. Ana Luiza se diz indignada e decepcionada com a desavença: “Esperava encontrar no arranha-céu de alto padrão pessoas com uma visão mais holística da vida, mais próximas da natureza”. A economista apresenta as contas de gastos de R$ 16 mil em isolamento acústico para conter os sons e não incomodar a vizinhança.

Ana Luiza vai além e apresenta a enfermeira Maria Aparecida dos Santos, de 37, contratada por três salários mínimos especialmente para cuidar do quarteto peludo. “Faço de tudo pela melhor limpeza. Vocês estão sentindo algum cheiro dos cães? Sentiram algum cheiro ruim no hall de entrada? Fico muito chateada com essa história. Não esperava ter que enfrentar esse aborrecimento”, lamenta. Poliglota, com especialização em economia na Europa, Ana Luiza diz saber do direito do outro. No entanto, não admite que “suas crianças” sejam tamanho problema para o condomínio.

“Não estou com quatro cachorros por vontade própria, para desafiar ninguém. Tinha dois, o Frederico e a Amora. Meu pai faleceu em maio e tive que ficar com as duas schnauzers dele. Eu ia abandoná-las na rua? Não seria capaz de fazer algo assim”, defende-se. Na suíte que Ana Luiza divide com os cães, as fotos do filho único, Bruno Loureiro, morto aos 32 anos, fazem contraste à alegria entre os cães. “Suicidou-se. Muito difícil. Nos primeiros seis meses você tem vontade de morrer. Depois, a gente busca força para continuar”, suspira e segue a brincar com Amora, de colar protetor para não prejudicar a cicatrização numa das patas.

Pela boa convivência Júnia Ulhoa, subsíndica do condomínio no Sion, lamenta que a situação tenha chegado à justiça. Segundo a decoradora e fisioterapeuta, Ana Luiza, convocada, “infelizmente” não compareceu às reuniões para tratar das reclamações que envolviam o comportamento dos cães Amora, Frederico, Penélope e Lili. “A notificação foi o último recurso. Apenas nas duas últimas reuniões ela enviou um advogado para representá-la”, diz. 

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