quinta-feira, 10 de Setembro de 2015 13:42h

Crise hídrica reabre debate sobre gestão das águas

Especialistas analisam que a escassez não é causada apenas pela falta de chuvas, mas sobretudo de planejamento

A seca, historicamente, foi considerada o maior flagelo do semiárido brasileiro. Inspirou escritores como Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha, entre tantos outros que eternizaram o sofrimento dos sertanejos em romances como Vidas Secas, Morte e Vida Severina e Os Sertões. Os autores, certamente, jamais imaginariam que a principal causa do sofrimento desse povo poderia bater à porta do lado rico da nação.

Nos últimos dois anos, a redução drástica da incidência de chuvas levou o Sudeste brasileiro a conviver com secas consideradas as mais severas dos últimos 100 anos, conforme relatório de conjuntura da Agência Nacional de Águas (ANA). Desde outubro de 2013, os índices pluviométricos reduziram a níveis baixíssimos, chegando a registrar, em alguns períodos, até 1% da quantidade esperada.

Minas Gerais, o Estado que ainda se orgulha do título de caixa d´água do Brasil, só conhecia a escassez na parte mineira do polígono da seca, mas agora se surpreende com a crise hídrica também na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Para avaliar a situação do País e do Estado, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) promove o Seminário Legislativo Águas de Minas III - Os Desafios da Crise Hídrica e a Construção da Sustentabilidade, cuja etapa final será realizada de 29 de setembro a 2 de outubro. “Nosso objetivo é criar um marco regulatório para que haja um planejamento mais elaborado da gestão das águas”, afirma o presidente da Comissão Extraordinária das Águas, deputado Iran Barbosa (PMDB).

Recurso escasso exige atenção

O fato é que o fenômeno natural da redução de chuvas não pode ser considerado o único responsável pela atual crise hídrica. O assunto é controverso e reabre chagas negligenciadas por gestores e governos sucessivos, alimentando o debate sobre as múltiplas causas e as consequências do problema. Especialistas explicam que a água disponível no planeta é a mesma desde sua formação, mas com o aumento da população, diminui cada vez mais a porção que pode ser dividida para cada habitante. A poluição dos mananciais dificulta ainda mais a disponibilidade de água potável.

A diretora-geral do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Maria de Fátima Chagas Dias Coelho, explica que, em Minas Gerais, a diversidade também cria situações diferentes de clima e de acesso à água. O semiárido mineiro – regiões Norte e Vale do Jequitinhonha – sempre conviveu com secas prolongadas e concentração de chuvas em poucos meses. O terreno arenoso também não contribui para a retenção do líquido no subsolo. No entanto, pela primeira vez a RMBH está passando por uma séria escassez de água.

Na avaliação da superintendente da Associação Mineira de Meio Ambiente (Amda), Maria Dalce Ricas, a origem da crise hídrica está na desproteção de nascentes e zonas de recarga (área ao redor da nascente por onde entra a água da chuva para abastecer o lençol freático, no subsolo). “O governo e a sociedade têm que entender que o desmatamento precisa parar. As nascentes e as margens dos rios precisam ser protegidas ou teremos muitos problemas para garantir água até para o consumo”, prenuncia a ambientalista.

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