segunda-feira, 5 de Novembro de 2012 02:37h Gazeta do Oeste

Depois de passar por um assalto ou sequestro, é possível dar a volta por cima

Vão-se os anéis, os brincos, carro, celular, dinheiro… mas ficam os dedos. Na memória, a arma que falhou, os gritos, socos, coronhadas, o susto… Passar pela experiência de um assalto ou um sequestro deixa marcas. Por um lado, a felicidade de ter sobrevivido. Por outro, as lembranças e o medo da própria sombra. Nos últimos meses, muitos belo-horizontinos têm sentido esse gosto amargo da vulnerabilidade que tomou conta da cidade. Os casos, que antes pareciam tão distantes, estão cada vez mais próximos, restando a quem sobreviveu seguir em frente. Fácil não é. Mas especialistas defendem a teoria do filósofo alemão Nietzsche, de que “tudo aquilo que não me destrói me fortalece”.

Quem já esteve sob a mira de um assaltante e teve a sorte de hoje poder contar sua história, conseguiu encontrar caminhos para viver sem neuras, ainda que confesse que os hábitos não são mais os mesmos. Há quem precise de tratamentos, outros acharam no amor a cura das más lembranças, há quem busque nas boas amizades o melhor remédio ou quem simplesmente deixou o tempo correr. O tempo, aliás, esse velho amigo, foi quem permitiu a muitos entrevistados do Bem Viver a expor seus rostos, sem neuras nem medo de um dia voltarem a ser vítimas. São exemplos de quem deu a volta por cima e, mesmo vivenciando momentos de angústia, não quer se prender ao que já passou. “A experiência não é para ser esquecida. Ela tem um lado bom de nos fazer prestar mais atenção na vida, principalmente nos dias de hoje”, aconselha a psicóloga terapeuta, Ester Eliane Jeunon.

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Não foi fácil. Não se passou da noite para o dia nem está esquecido por completo. Aqueles que foram vítimas da violência urbana não deixam de sentir frio na espinha quando se lembram do episódio, mas, com o tempo, passaram a encarar a lembrança como um fato da vida . E aprenderam com isso. Redobraram a atenção para evitar cair, novamente, nas armadilhas da insegurança, mesmo sabendo que todo cuidado ainda é pouco. “Trauma tem cura”, avisa a psicóloga em psicotraumatologia e professora de experiência somática no Brasil e na Argentina Liane Pinto, mestre em saúde coletiva, com pesquisa sobre vitimização por assalto.

Ela tem razão. Há um mês, pelas ruas de Las Vegas desfilavam, aos risos e beijos, os noivos Aline Adelita Silveira, de 34 anos, e Raphael de Martino Postes Monteiro Barbosa, de 29. Foram passar férias nos Estados Unidos e lá selaram uma união que se fortaleceu ainda mais depois de um trauma. Em 2004, os dois namoravam dentro do carro, em uma avenida que funciona como uma espécie de mirante, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, quando dois jovens armados os abordaram. “Eles nos levaram para uma estrada de terra e o tempo todo nos ameaçavam. Não conseguia olhar para eles. Só me lembrava do meu filho”, recorda Aline. O casal foi colocado dentro do porta-malas do veículo e os bandidos, depois de roubar os pertences das vítimas, fugiram e os deixaram trancados. “Senti-me muito humilhado e com uma raiva muito grande. Minha preocupação era com a Aline, mas, graças a Deus, conseguimos sair ilesos. Durante muito tempo quis encontrar esses dois jovens, os rostos deles ficaram na minha mente”, lembra Raphael, que diz que o trauma foi passando com a união cada vez mais forte dele e de Aline. “Nossa relação fortaleceu, é como se um confiasse mais no outro. Com amor a gente supera o trauma mais rápido”, afirma.

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