segunda-feira, 5 de Novembro de 2012 02:31h Gazeta do Oeste

Ex-companheiros de Carlos Alberto Soares, o Beto, tentam saber o que ocorreu após prisão

A trajetória de um homem que passou os últimos quatro anos da vida tentando não deixar vestígios permaneceu guardada por quatro décadas na memória de 60 pessoas. Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, é um nome conhecido pela grande maioria dos militantes da esquerda belo-horizontina – alguns o conheceram como Breno, seu codinome para despistar as autoridades – e aparece sempre com destaque quando são relembradas as ações de resistência ao regime militar que se passaram em Minas. No entanto, o tempo e a recusa das autoridades militares em explicar o que ocorreu com o militante mineiro desde que foi preso, em fevereiro de 1971, fizeram com que sua história se perdesse em meio a tantos casos de desaparecidos políticos que ficaram de triste herança para o país.

Em Seu amigo esteve aqui – livro que será lançado na capital mineira na segunda-feira –, a jornalista Cristina Chacel conta a trajetória de Beto por meio de 60 depoimentos de ex-companheiros de militância, familiares e amigos, que conviveram com ele em períodos diferentes. Convidada por familiares e amigos para recuperar o passado do militante até seu desaparecimento, Cristina trabalhou por três anos colhendo relatos das pessoas que o conheceram. “Ele passou por vários estados, na maioria deles de forma clandestina. Naquela época, esse ambiente era de grande insegurança e muitas pessoas que o conheceram não sabiam seu verdadeiro nome. Mas como sua atuação sempre marcou de forma significativa os grupos pelo qual passou, sua história ficou registrada para muitas pessoas”, explica a autora.

Nascido em 1939 em BH, Beto começou seu ativismo político ao ingressar no curso de sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Aos 21 anos, entrou no grupo de esquerda Política Operária (Polop), que atuava em vários estados do Brasil defendendo ideias marxistas e organizando manifestações de trabalhadores por melhores condições de trabalho desde o início da década de 1960. A identificação com as causas defendidas foi instantânea e começou ali uma trajetória marcada por muita dedicação aos ideais que conquistaram parte da juventude brasileira no período. “Ele se destacava dentro da universidade por ser politizado e ter um repertório grande sobre a realidade de nosso país. Também acompanhava de perto tudo que acontecia no mundo, a revolução cubana era tema que não saía das conversas entre os estudantes”, lembra Régis Gonçalves, colega de faculdade de Beto no início dos anos 1960.

Com o passar do tempo, o jovem socialista foi se tornando uma importante liderança nos movimentos de esquerda e trabalhou na formação de estudantes que aderiam à luta contra a ditadura. Na lista de alunos que integraram o movimento estudantil na capital mineira e contaram com a ajuda de Beto para aprender as teorias defendidas pela esquerda passaram a presidente Dilma Rousseff e o ministro Fernando Pimentel, então secundaristas na capital mineira. “Foi assim que eu me iniciei no marxismo. Depois ele dava os livros do Lenin. Eu li tudo do Lenin com ele, tudo, sem exceção”, conta Dilma em depoimento à autora. A petista não se esqueceria do antigo amigo e, em seu primeiro discurso como candidata à Presidência, fez questão de homenageá-lo: “Não posso deixar de ter uma lembrança especial para aqueles que não estão mais conosco. Eles fazem parte de minha história. Beto, você ia adorar estar aqui conosco”.

Companheiro durante o período de militância, Apolo Heringer Lisboa destaca o comprometimento de Beto com os trabalhos para mobilizar outros estudantes e trabalhadores para a participação política. Segundo Apolo, a facilidade para ouvir as pessoas e dialogar com militantes mais radicais fizeram com que Beto conseguisse transitar em vários grupos de esquerda. “Conheci o Beto na penitenciária de Neves, em junho de 1964, pouco depois do golpe. De volta às ruas, nós nos encontramos novamente nas escadarias da Igreja São José e conversamos sobre os movimentos contrários à ditadura. Foi ele quem me convenceu a entrar na Polop. Beto era militante 24 horas por dia e sempre muito disciplinado e simpático, trazia uma energia boa para os grupos dos quais participava”, lembra Apolo.

Casa da morte Até hoje o paradeiro de Beto é desconhecido, mas depoimentos de uma ex-presa política e amiga apontou que ele foi preso no Rio de Janeiro e levado para uma casa clandestina em Petrópolis. O local, que ficou conhecido como Casa da Morte, foi usado pelo Centro de Informação do Exército (CIE) como local de interrogatório, tortura e execução de militantes contrários ao regime. “A história dele é muito pouco conhecida, diferentemente de nomes como Marighela e Lamarca. Mesmo em Minas, pouco se sabe sobre quem foi Beto e sua participação na luta contra a ditadura”, conta Sérgio Ferreira, primo de Beto. Aos poucos, os horrores que se passaram no local vêm à tona em audiências realizadas pela comissão da verdade. Na semana passada, em depoimento à comissão, o sargento reformado Marival Dias Chaves revelou que cerca de 100 presos políticos passaram pela Casa da Morte e que depois de interrogados sob tortura, militantes de várias regiões eram assassinados.

Mapa dos porões em Minas

Ainda é grande a lista de episódios obscuros ocorridos em Minas Gerais durante o regime militar (1964-1985). Neste mês, em dois encontros com ex-presos políticos mineiros e representantes da sociedade civil, os integrantes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) apresentaram os principais temas que estão sendo apurados pela comissão no estado e receberam novos pedidos por esclarecimentos. A existência de uma susposta escola de tortura que funcionava na capital, a existência de um centro de aprisionamento de indígenas para que algumas tribos atuassem em parceria com o Exército, e as circunstâncias da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek já fazem parte de assuntos estudados por grupos de trabalho da comissão, que retorna a Brasília com novas demandas.

Segundo levantamento feito pelo Projeto República da UFMG – material já disponibilizado para a CNV –, até hoje foram descobertos oito centros de tortura em Minas, sendo três deles centros militares: Colégio Militar (no Bairro São Francisco), 12º Regimento da Infantaria (no Barro Preto) e 12º Batalhão do Exército de Juiz de Fora. Dois são centros policiais – Dops (no Bairro Funcionários) e Delegacia de Furtos e Roubos (no Barro Preto) – e outros três centros clandestinos, que funcionavam de maneira extraoficial – uma casa no Bairro Renascença, um sítio em Ribeirão das Neves e outro em Juiz de Fora.

“Esse mapa é resultado de uma pesquisa em andamento e é importante sabermos que podem existir outros lugares, que as pessoas que conhecem podem nos apontar”, explica Heloísa Starling, coordenadora do Projeto República e assessora da Comissão da Verdade. A historiadora ressalta que no interior do estado várias denúncias apontam a existência de sítios clandestinos que serviram de espaços usados por militares na repressão e por meio de novos depoimentos e levantamentos com fontes oficiais o material reunido pela comissão vai ganhando corpo.

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