quinta-feira, 28 de Agosto de 2014 12:45h

Ex-sindicalistas relatam perseguição na ditadura

Lideranças dos movimentos camponês e operário foram vítimas de torturas e prisões arbitrárias no regime militar.

Na reunião da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizada nesta quarta-feira (27/8/14), sindicalistas relembraram a repressão do período ditatorial e falaram de perseguições, intervenções nas entidades representativas, prisões e torturas. Alguns afirmaram ainda que, sob alguns aspectos, a repressão persiste ainda hoje.

O diretor regional da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetaemg) no Vale do Mucuri, Joaquim Pereira da Silva, contou que ajudou na criação do primeiro sindicato rural do País, ainda na década de 1950, em Poté. Depois, outros sindicatos foram criados na região e o movimento estava em crescimento quando veio o golpe militar em 1964. “Achamos que avançaríamos com os trabalhadores, que conquistaríamos direitos, mas nossa alegria durou pouco”, lembrou.

De acordo com ele, pouco depois do golpe ele foi preso com dois outros representantes da diretoria do sindicato. Levados a Teófilo Otoni, foram deixados por mais de um dia sem comida e dormiram com mais de 40 pessoas em uma sala. Silva contou ter sido solto ao fim do segundo dia na prisão, depois da intervenção de um padre e um bispo que apoiavam as lutas dos camponeses.


“Felizmente não fomos torturados fisicamente, mas passamos os anos sendo torturados psicologicamente. Éramos sempre procurados e ameaçados. Queriam que denunciássemos o padre e o bispo que nos ajudava”, continuou. Outros militantes tiveram menos sorte e foram torturados fisicamente e assassinados. Silva afirmou que 47 sindicatos rurais de Minas Gerais foram fechados nessa época. “O movimento camponês perdeu seu caráter reivindicatório e hoje os sindicatos funcionam quase como posto previdenciário”, lamentou.

Também representante dos trabalhadores rurais, Maria Aparecida Rodrigues de Miranda, de Unaí (Noroeste de Minas), confirmou que certas lutas foram perdidas e, na tentativa de recuperá-las, muitas pessoas morreram, já na década de 1980. “Grandes projetos de reflorestamento e o aprofundamento do capitalismo tinham expulsado, com muita violência, os camponeses”, disse. O pai de Miranda foi um dos mortos nesse período. “Em muitos casos, nem chegaram a ser abertos os inquéritos. Em outros, jagunços e fazendeiros foram inocentados sempre com o argumento de que a propriedade da terra é sagrada”, afirmou.

O ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bocaiuva (Norte de Minas), Juarez Teixeira Santana, afirmou que não apenas os efeitos do período militar são sentidos até hoje, mas também as práticas. Apesar de acreditar que alguns avanços foram alcançados, ele salientou que ainda há interferência na vida dos trabalhadores rurais e perseguição àqueles que confrontam o modelo de desenvolvimento desejado pelos latifundiários.

No mesmo tom, o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte, Contagem e Região, Ênio Seabra, disse que os sindicatos continuam sendo perseguidos até hoje. Ele reclamou, principalmente, das restrições feitas pelas empresas para que representantes dos sindicatos trabalhem em suas dependências.

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