segunda-feira, 12 de Novembro de 2012 02:34h Gazeta do Oeste

Falta de dinheiro compromete obra em igreja

Enquanto o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) admite que do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas nunca saiu um centavo destinado à recuperação de monumentos de Minas, moradores de Cachoeira do Campo, distrito colonial de Ouro Preto, veem parar as obras de um dos mais importantes patrimônios culturais e espirituais do estado. Depois de amanhã, a Germec Construções, responsável pelos serviços na cobertura e restauração dos elementos artísticos da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, de 1701, vai parar a atividade devido à falta de pagamento do Ministério das Cidades – os valores são repassados pela Caixa Econômica Federal. No ano passado, o projeto foi divulgado pela presidente Dilma Rouseff e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o primeiro a receber recursos do PAC das Cidades Históricas. Agora, o Ministério das Cidades informa que o templo não está incluído no PAC, já que a verba provém de uma emenda parlamentar.

O projeto está orçado em R$ 1,8 milhão e, pelo cronograma, será concluído em dezembro do ano que vem. O arquiteto responsável pela obra, Paulo Hermínio Guimarães, diz que a empresa recebeu, até hoje, apenas de R$ 34.560. Ao ouvir que seria depositada, na sexta-feira, a parcela de R$ 124.740, ele disse que a liberação do valor não encerra a questão. “Estamos aqui desde maio, temos que receber, pelos nossos cálculos, R$ 600 mil. Já fizemos 80% do serviço no telhado e 35% dos elementos artísticos”, afirma Guimarães, que, amanhã, vai começar a reunir a sua equipe e retirar os equipamentos da empresa. “A legitimidade do processo foi atestada pelo pagamento da primeira medição dos serviços. A empresa está pagando os funcionário com dinheiro do seu caixa”, afirma.

Testemunha de fatos marcantes da história do Brasil, como a Guerra dos Emboabas, a igreja está fechada para celebrações religiosas desde 9 de setembro de 2011. Na tarde de sexta-feira e na manhã de ontem, portando cartazes e faixas, a comunidade de Cachoeira do Campo fez um ato pela continuidade da restauração. “A obra não pode parar, vai ser um prejuízo muito grande. Não temos recursos para tocar os serviços e houve a promessa do governo federal de que tudo seria feito por meio do PAC. E agora? O que vamos fazer? As missas foram transferidas para a Igreja das Mercês, mas ela não comporta o número de fiéis. As pessoas ficam até na chuva. Até as noivas estão na expectativa, pois querem casar aqui”, afirma, com o semblante preocupado, o titular da paróquia, padre Oldair de Paulo Mateus.

“São muitos os danos para a igreja, que tem o primeiro forro pintado em perspectiva de Minas, de autoria do artista português Antonio Rodrigues Belo, em 1751”, diz o restaurador Silvio Rocha Viana de Oliveira, destacando que as peças serão protegidas, “mas os riscos são enormes para uma igreja quando suas portas são fechadas”. Silvio disse que o templo estava completamente tomado pelos cupins e, para exterminá-los, foi feita a desinfestação. “Trocamos a maioria das peças, mas há algumas, como um dos esteios do altar, que precisam ser retiradas e substituídas”, diz Silvio, mostrando a madeira carcomida pelos insetos.

Movimento

O presidente da Associação dos Amigos de Cachoeira do Campo (Amic), Rodrigo da Conceição Gomes, lembra que o movimento para recuperar a igreja começou há mais de 10 anos. “Quando o governo federal anunciou a obra, pensamos: agora vai! Mas estamos vivendo este transtorno”, disse, olhando para a faixa, afixada na grade da igreja, que traz a frase: “Onde está o dinheiro do PAC da reforma da Igreja Matriz de Cachoeira do Campo?”. Ao lado, o coordenador de patrimônio da paróquia, Sebastião Evásio Bonifácio, mostra decepção. “Eu vi quando a presidente Dilma, ao lado de Lula, anunciou na Praça Tiradentes, no Centro de Ouro Preto, que a obra seria feita com dinheiro do PAC – a primeira do país. Não é o que vemos”, afirmou.

O coordenador de comunidades, William Luiz de Castro, falou da tristeza do povo e adiantou que amanhã, às 19h, no salão paroquial, haverá reunião para discutir o assunto. “O bispo da arquidiocese de Mariana, dom Geraldo Lyrio da Rocha, apoia a nossa manifestação”, disse William, com total aprovação da irmã salesiana Gisélia Rodrigues de Souza, diretora da obra social de Nossa Senhora Auxiliadora; da professora Rosângela Silva Guimarães; da secretária da paróquia, Delvânia Garcia, e das paroquianas Efigênia Auxiliadora Silva Pedrosa, Maria das Graças Fernandes e Maria Auxiliadora da Silva. “Estamos recebendo apoio até de pessoas de outras religiões”, conta a irmã Gisélia. Compenetrada no seu ofício, a restauradora Ludmila Ribeiro Souza, de 20, está apreensiva. “Concluir a restauração é fundamental. Mas estou preparando o casamento e quero que seja aqui”, afirma com os olhos cheios de esperança.

Liberação

O Ministério das Cidades, via assessoria de imprensa, informa que a restauração da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré não é obra do PAC das Cidades Históricas – os recursos são de emenda parlamentar, sem autoria, de 2009, no valor de R$ 1,8 milhão. Até o momento, foram executados apenas 8,85% dos serviços, conforme medição da Caixa Econômica Federal, agente financeiro encarregado de liberar o dinheiro. O contrato para a realização da obra foi assinado em 2011. Em 26 de julho deste ano, confirmam os assessores, foi liberado, para a empresa encarregada do serviço, o valor de R$ 34.560. No último dia 5, o Ministério das Cidades autorizou a liberação, também pela Caixa, de R$ 124.740. “Os recursos são liberados de acordo com o andamento da obra”, disseram os assessores.

O secretário municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto, Gabriel Gobbi, conta que 90% dos recursos são federais e 10% de contrapartida da prefeitura. Gobbi disse que a empresa já comunicou à prefeitura a intenção de paralisar as obras se o depósito do dinheiro não for feito. Ele explicou que os recursos municipais são liberados de forma vinculada aos recursos da União. O superintendente do Iphan em Minas, Leonardo Barreto de Oliveira, disse que a autarquia é apenas responsável pela fiscalização da obra da igreja tombada pelo Iphan desde 1949.

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