segunda-feira, 29 de Outubro de 2012 05:41h Gazeta do Oeste

Filarmônica de Minas Gerais recebe aplausos portenhos

Por duas vezes, o violoncelista Antonio Meneses nao se furtou a passar um lenço sobre a fronte. Gesto emblemático da entrega incondicional a uma apresentação emblemática: embora o palco do Teatro Colón, em Buenos Aires, seja um "velho conhecido" do virtuose brasileiro, era a primeira vez que Meneses se apresentava ali acompanhado de músicos de seu país. Mais especificamente, de Minas Gerais. Sim, foi com pompa, circunstância - e aplausos calorosos - que a Orquestra Filarmônica de Minas concluiu com êxito seu debute em palcos internacionais. A primeira da série de apresentações da turnê que ainda inclui performances em outras cidades da Argentina, como Rosário e Córdoba, além de uma passagem pelo Uruguai (Montevidéu), foi, sem dúvida, coroada de êxito.

Não que pairassem dúvidas de que o conjunto, sob a batuta de Fabio Mechetti, não faria menos que bonito. Apesar dos apenas cinco anos de existência, a Filarmônica vem trilhando um caminho pontuado por boas críticas, e as turnês pelo país trataram de dar "a régua e compasso". Concomitantemente, ninguém duvida que a tarefa de cooptar o público que compareceu em peso a um dos teatros mais emblemáticos do mundo, e de acústico acima de qualquer suspeita, era uma responsabilidade e tanto.

Ao final da apresentacão, que lotou o teatro (os ingressos ficaram esgotados, e as poucas frisas ou cadeiras vazias apenas indicavam que um ou outro assinante não pode comparecer), a sensação de vencer um desafio estava estampada nos sorrisos de todos os que contribuíram para que essa verdadeira operação de guerra (imaginem o que significa, em termos de logística, uma viagem desta magnitude) tivesse o primeiro desenlace concluído a contento. Ou melhor, mais que a contento.

"Os mineiros conquistaram o Colón", exultava, visivelmente emocionado, um argentino que, durante anos, manteve laços estreitos com Minas Gerais. Agora aposentado, Ramón Villagra Delgado atuou como cônsul de seu país na capital mineira tempo suficiente para abraçar a "causa" do estado no que tange a propagação de um de seus grandes orgulhos, a performance da Filarmônica. Delgado frisava o fato de o citado debute ter ocorrido no que chamou de "catedral da cultura de Buenos Aires". "É um sítio emblemático, e a Filarmônica conquistou a plateia", comemorava ele, que, mesmo fora da ativa, não se furta a fazer viagens constantes à capital que o arrebatou.

Aliás, a palavra arrebatar pode ser empregada sem receio ao público que acorreu ao Colón - predominante maduro, mas com direito a boa parcela de jovens que abalizam o poderio da música erudita de arrebanhar novos entusiastas.

A apresentação foi viabilizada através do programa Mozarteum Argentino, o que fez com que os custos pudessem ser divididos entre as partes (anfitriões e convidado). O programa contou com Carlos Gomes (Protofonia - abertura - da ópera O Guarani; Dvorák (quando entrou em cena Meneses, para o Concerto para Violoncelo e Orquestra em Si menor, op. 104 - Allegro, Adagio, ma non troppo e Finale: Allegro moderato - Andante -Allegro Vivo); e Tchaikovsky (Sinfonia nº4 em Fá menor, Op. 36 - Andante sostenuto - moderno con anima - Moderato assai, quasi Andante - Allegro vivo; Andantino; Scherzo; Finale: Allegro con fuoco). Mas, para surpreender a plateia, após os aplausos, Mechetti conduziu os músicos para exibirem destreza com Ginasterra e Villa-Lobos.

Quem já havia se levantado para ir embora, acabou ficando de pé, ao fundo, rendido à evidência de que valia a pena retardar um pouco mais a saída. O olhar de admiração manifestado pela plateia, aliás, foi destacado por Meneses, que recebeu a imprensa brasileira no camarim, após a arrebatadora performance."A orquestra tocou magnificamente bem, e era possível ver e sentir que o público estava participando com a alma. A gente via as pessoas sorrindo, enlevadas", atestou, para depois resumir, em uma palavra, sua impressão sobre a noite da qual foi um dos partícipes fundamentais: "Excecpional!".

A Mechetti, valia perguntar sobre a expectativa dos músicos. "Sim, havia, claro, uma tensão, mas positiva. Todos fizeram questão de fazer história", relatou, acrescentando que, como de praxe, esteve o tempo todo atento ao que estava sendo desenvolvido no palco, para evitar surpresas; assim como seguindo a máxima preconizada por Arturo Toscanini, de que o maestro deve ter a partitura da cabeça, e não a cabeça na partitura...Ressalvando ainda a acústica da icônica casa portenha (de fato, irretocável, assim como impressionante é seu imponente interior), Mechetti, assim como Meneses, deixaram as dependências do nobre endereço cercados de elogios e com a certeza de dever cumprido. Os músicos, cujos nomes não cabe citar até pelo fato de o trabalho conjunto ser o epicentro das atenções; certamente voltaram para o hotel localizado na Avenida Córdoba com Maipu com a sensação de que foi apenas o começo. Certamente, haverá muitos mais (calorosos aplausos por outros tantos (e talmente importantes) palcos do mundo. Que venham novas turnês.

© 2009-2017. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.