sexta-feira, 31 de Agosto de 2012 10:07h Gazeta do Oeste

Flanelinhas agem livremente no entorno do Independência

Torcedores atleticanos tiveram que ser verdadeiros craques para driblar os flanelinhas nas imediações da Arena Independência, no Bairro Horto, na noite de quarta-feira

Torcedores atleticanos tiveram que ser verdadeiros craques para driblar os flanelinhas nas imediações da Arena Independência, no Bairro Horto, na noite de quarta-feira, quando foi disputada a partida entre Atlético e Ponte Preta, pelo Campeonato Brasileiro. Quem não teve habilidade para fugir dos guardadores de carros precisou enfiar a mão no bolso com antecedência, pagando até R$ 30 por uma vaga. Em muitos casos, sobre calçadas e locais não permitidos, como nos espaços de recuo das esquinas. Para despistar a fiscalização, os ilegais contavam com a ajuda de crianças e adolescentes, o que não foi preciso, pois logo depois de atravessar a Avenida Silviano Brandão não se viam policiais.

 

 

“Paguei R$ 20 adiantado para não ter meu carro danificado. Cheguei mais tarde e não consegui vaga em um estacionamento particular na Rua Pitangui, que cobra R$ 35. Houve um guardador que disse para eu parar numa vaga irregular, próximo ao estádio. Mas um fiscal da BHTrans avisou que corria o risco de ser multado em R$ 100”, contou o veterinário Marcelo Jácome, de 33 anos. Ele preferiu parar sobre a calçada, no recuo de um centro comercial na Rua Pouso Alegre. Menos de 30 minutos depois de pagar pela vaga, o guardador já tinha ido embora.

 

A PM diz que no domingo, quando foi disputado o clássico entre Cruzeiro e Atlético, montou uma operação com policiais descaracterizados, que monitoraram a ação de suspeitos e conseguiram prender seis flanelinhas em flagrante. Com apoio de policiais motociclistas, a abordagem foi ainda mais rápida. Segundo o comandante do 16º Batalhão, tenente-coronel Robson Queiroz, responsável pelo patrulhamento na região, a partir de agora, sempre que houver jogos os policiais à paisana estarão de olho nos flanelinhas. “É quase uma extorsão. Não podemos tolerar isso”, afirmou o comandante, que prendeu um dos acusados.

 

 

crime De acordo com o oficial, a ajuda dos motoristas é fundamental. “Foi a primeira vez que fizemos abordagens nesses moldes. Eu mesmo parei 20 suspeitos. No caso de alguns, não havia como comprovar o crime. Por isso precisamos dos motoristas. Eles só têm que denunciar pelo 190 ou a um policial que encontrarem. É só dar as descrições físicas do flanelinha, as roupas que ele vestia e a rua onde passou pelo constrangimento. Nem precisa esperar nada e pode seguir para o estádio”, explicou o tenente-coronel. “Pegamos seis em flagrante, depois de abordar o cidadão e receber o dinheiro. Levamos para a delegacia e eles vão responder por exercício ilegal da profissão. A maioria tinha passagens por roubo, briga e uso de drogas”, contou.

 


Medo de ter veículo danificado

 

 

O comerciante Flávio Oliveira Cançado, de 50 anos, teve mais sorte e economizou ao estacionar na Rua Gustavo Pena, onde um flanelinha atua diariamente, próximo a um hospital. “Consegui reduzir de R$ 10 para R$ 7 o valor da vaga. Cheguei tarde e não tive alternativa. Não tenho esperanças de que as autoridades consigam banir os guardadores ilegais no entorno do estádio ou de qualquer lugar que tenha um evento de massa. Então, melhor negociar, pagar menos e não ter o carro danificado”, sugeriu Flávio, que também conseguiu reduzir a R$ 30 o ágio que o cambista cobrou pelos três ingressos, dele e de dois filhos adolescentes.

 

O também comerciante José Luiz Ferreira, de 49, depois de pagar R$ 140 de ágio em sete ingressos, não concordou em pagar R$ 30 a um flanelinha. Ele deixou seu carro a mais de 500 metros do estádio, na Rua Salinas, no Bairro Santa Tereza, e comemorou: “Dei sorte de conseguir uma vaga”. Ferreira criticou a falta de fiscalização. “É rídicula essa situação em Belo Horizonte. É uma exploração de quem, depois de muito trabalhar, sai com a família e amigos para se divertir. Fiquei rodando quase uma hora em busca de uma vaga e fugindo do assédio dos flanelinhas e não vi nenhum policial impedindo esse abuso”, reclamou.

 

 

A pedagoga Jacqueline Tavares, de 45, nem gosta de futebol, mas teve que driblar um guardador ilegal. “Vim visitar uma amiga no hospital e quando cheguei o flanelinha não me viu. Estou esperando ele se afastar, pois, se me abordar, vou ter que pagar”. O analista de sistemas Hugo Queiroz, de 34, que levou seu bebê para uma consulta no hospital, disse que o guardador não cobrou pela vaga, mas ficou com dó e lhe deu R$ 2. “Ele ficou por perto e não deixou de olhar o carro. Deixei um café, mas se tivesse estipulado um valor para pagar adiantado, não daria nada”.

 

Arrecadação

 

 

Na esquina das ruas Pouso Alegre e Galba Veloso era possível ouvir a torcida comemorando a entrada do time em campo. Um grupo de adultos, adolescentes e crianças contava o dinheiro arrecadado e garantia que só deixaria o local no fim do jogo. Outros guardadores, porém, já estavam longe, com os bolsos cheios. “Sou eletricista e moro aqui perto. É um dinheiro a mais que ganho. Seis vagas me garantem pelo menos R$ 60 e isso ajuda bastante”, contou o flanelinha de ocasião, que pediu para a reportagem não pegar pesado, para que a polícia, que ontem não apareceu, não atrapalhasse o lucrativo “trabalho”. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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