terça-feira, 27 de Novembro de 2012 04:04h Gazeta do Oeste

Idosa de 95 anos é carinhosamente adotada por vizinhos

Solidão é palavra que nunca existiu na vida de Maria de Lourdes Pereira de Jesus – ainda mais agora, na plenitude dos 95 anos. Mesmo solteira, sem filhos e sobrinhos ou alguém próximo que carregue o seu sobrenome, ela vive com a casa cheia, tem sempre alguém para fazer as compras, ajudar na limpeza doméstica, dar o remédio na hora certa, pagar as contas no banco ou simplesmente bater um papo. Moradora do Bairro São Marcos, na Região Nordeste, a aposentada, nascida numa fazenda em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, e que chegou à capital aos “vinte e poucos anos”, levanta as mãos para o céu e abre o sorriso ao se referir aos vizinhos: “Eles são minha família. Nas minhas orações, peço a Deus por todos, que nunca lhes falte o pão de cada dia”, afirma, rodeada de afeto e consideração. E, claro, de muitas histórias. Com grande lucidez e bom humor, dona Maria, como é conhecida, é também testemunha de outros tempos de Belo Horizonte: “Era uma cidade sem ônibus, com jipes, bondes e tranquilidade”.

Na sala da casa modesta, mas bem arrumada e com quadros e imagens de santos, principalmente de São José, já que ela nasceu no dia do santo, em 19 de março, dona Maria mostra que é vaidosa. Na manhã de sábado, estava de unhas feitas, num tom lilás, cabelos bem penteados e vestido colorido. Pela pontinha da barra da saia deu para ver que usava anágua arrematada com renda bege claro. “Amo a vida e vou passar dos 100 anos. Não há segredo para chegar a tanto, só quero mesmo é saúde”, afirma, de mãos dadas com os gêmeos Luiz Carlos, técnico de enfermagem, e Carlos Alberto Alves da Silva, estudante, de 27, que moram em frente. Apoiada na bengala, conta que gostaria de subir e descer a ladeira de sua rua, como fazia antes, sem medo de cair.

De uma família de 13 irmãos, todos falecidos, dona Maria não voltou mais à terra natal, pois sente muitas saudades dos pais, Ana e Joaquim. “Eles morreram quando eu era jovem. Sofri tanto que ia ao cemitério, em Teófilo Otoni, todos os dias, para acender velas. O que vou fazer lá sem eles?”, pergunta com um sentimento tão profundo que a voz se cala para dar espaço às lágrimas. Mas o carinho dos gêmeos fala mais alto e ela se recompõe, lembrando-se da infância. “Papai era lavrador, adorava tocar viola, trabalhava na fazenda do meu padrinho, Nascimento Neiva. Vivíamos na roça, tomando banho de rio, colhendo frutas no pé e verduras na horta, brincando sem perigo.”

Os anos se passaram e vieram tempos mais difíceis. Com a perda dos pais, a menina Maria de Lourdes foi trabalhar em casa de família, até que chegou a Belo Horizonte, no fim da década de 1930, acompanhando a conterrânea Alda Figueiredo, mulher de dono de farmácia. Famosa no passado pelo clima favorável a quem tinha problemas pulmonares e respiratórios, a capital foi indicada ao casal, na tentativa de ajudar a curar os sérios problemas de asma de Alda. “Moramos na Rua Padre Marinho, no Bairro Santa Efigênia, por 10 anos. Depois que dona Alda morreu, fui morar na casa das cunhadas dela, no Bairro Padre Eustáquio. Eu olhava as crianças, cozinhava, fazia de tudo. Hoje não tenho mais notícias deles. Os filhos dessas mulheres viajaram para o Rio de Janeiro e São Paulo.”

JANELAS ABERTAS

Impressionante ver que dona Maria tem memória prodigiosa, recorda-se de nomes inteiros e datas. “Tem tanto para a gente lembrar…”, afirma, sem saudosismo. É de meados do século passado que vêm as lembranças mais fortes de BH. “Hoje, a cidade está estranha, com muitos carros. A violência tomou conta. Antes não havia ladrão desse jeito. As pessoas podiam pôr as cadeiras nas calçadas para conversar, e, nas noites de calor, as janelas dos quartos ficavam abertas. Falta respeito.”

Trabalhar sim, rezar mais ainda. Namorar, não. O certo mesmo é que não apareceu nenhum pretendente para a moça do interior já bem adaptada à capital. “Nunca namorei, nunca beijei. Beijo, só mesmo do papai”, conta dona Maria, que, brincando, conta que é 100% virgem. “Casar não me fez a menor falta. Sempre fui feliz e ainda tenho uma família grande. Marido para quê?”, pergunta.

Ao lado, a professora Maria de Lourdes Dias Moreira Batista, a Lourdinha, residente do outro lado da rua, conta que conhece dona Maria desde garotinha. “Meu marido, Wilton, nossos filhos, Danilo, de 21, e Danielly, de 20, e eu colocamos até uma janela estratégica para ficarmos de olho e atentos. Se acontecer alguma coisa, temos que agir rapidinho, pois ela mora sozinha. Wilton troca lâmpadas, conserta o chuveiro, dá um jeito em tudo”, diz a xará, que se reveza com outras vizinhas nas refeições e demais atividades. “Só mesmo quando dona Maria está mais cansada é que trazemos comida. Geralmente, ela gosta de cozinhar.” Luiz Carlos lembra que, por ser técnico de enfermagem, já aplicou injeção na amiga, enquanto Carlos Alberto está sempre alerta no período de chuvas. “Ela tem pavor a relâmpagos e tempestade de granizo. Acho que é o único medo de dona Maria”, diz o estudante, lembrando que a idosa é querida, pois faz o bem. “Há muitos velhos abandonados, maltratados, sem ninguém. Temos prazer em estar ao lado dela.”

A porta da casa está sempre aberta aos amigos, o telefone fica ao lado da cama para as emergências. “A gente faz o que pode, pois é uma pessoa ótima, de bom coração, que se preocupa com as famílias e com nossos filhos. Sempre ajudou todo mundo aqui da rua e vizinhança. Ela merece nosso carinho”, diz a dona de casa Sílvia Maria da Silva, mãe de Cirineu Fabrício e Diego, encarregada de dar os remédios, atualmente reduzidos aos de pressão, colesterol e cálcio. A declaração de Sílvia tem o aval das amigas Mariana Gomes Barros, natural de Itambacuri, Jaci Rosa Rodrigues, que a visita sempre com os bisnetos Samuel, de 5, e Sara, de 3, do casal José Maria Alves da Silva (que considera um “anjo da guarda”) e Gláucia Grigório, presentes com as filhas Lavínia e Larissa, e Gleice Maria de Castro. “De vez em quando ela puxa até nossa orelha se bobearmos na educação dos filhos e netos”, confessa Jaci Rosa.

Religiosa e festeira

“Quem planta colhe”, resume Maria de Lourdes Ferreira, de 82 anos. Essa outra xará tem uma característica: foi escolhida para ser madrinha de crisma de dona Maria. Quando entra pela porta, a afilhada diz imediatamente “‘bença’, madrinha”. Nesse momento, a senhora de 95 anos e sete meses conta que foi registrada já bem adulta, depois que o batistério foi localizado pelo ex-patrão Geraldo Pereira, na Igreja do Bom Jesus, em Teófilo Otoni.

Pelo visto, são muitas as Maria de Lourdes em volta da mulher, nascida em 1917, que recebe aposentadoria por invalidez (problema de coluna) e tem usufruto da casa, deixada por seus antigos patrões Geraldo Pereira e Irene. “Neste bairro havia um sítio deles. Eles me deixaram viver aqui nesta casinha até o fim dos meus dias”, lembra dona Maria, que morou com os patrões por alguns anos em Morro Vermelho, em Caeté, na Grande BH, lugar do qual tem as melhores lembranças.

A casa da Rua Calvário, no São Marcos, tem quintal com árvores frutíferas, folhagens e uma mesa sob uma coberta que lembra um altar. “Trata-se de uma pessoa católica, de fé imensa em Deus, em Nossa Senhora Aparecida e em São José, que vai à missa na Igreja de São Benedito, na Paróquia de São Marcos, e às festas afro”, conta Lurdinha. A referência a São José é a deixa para os gêmeos falarem que o aniversário é supercomemorado. “Eu bebo até um pouquinho de vinho”, confessa dona Maria, marcando a dose na metade do dedo indicador. “Considero todo mundo filho e neto”, orgulha-se, com ares de matriarca.

E os planos para o futuro? Sem titubear, dona Maria avisa que deseja ter forças. “Viver é bom. Viver é bom, até o dia que Deus quiser. A melhor hora do dia é quando acordo e abro os olhos. Por isso, não gosto muito do quarto, prefiro a cozinha.” Mas sonhos sempre existem e a idosa revela o seu: “Quero muito conhecer o nosso arcebispo dom Walmor. Ele é bonito. Seria uma honra recebê-lo em minha casa.” A admiração é tanta que dona Maria mantém um quadro com o retrato do arcebispo na sala e faz questão de posar, junto com Luiz Carlos e Carlos Alberto, sob a foto do chefe da Cúria.

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