quarta-feira, 3 de Outubro de 2012 11:13h

Lixeiras desaparecem das ruas da capital

Nem as lixeiras escapam dos atos de vandalismo em Belo Horizonte. Além de serem queimadas ou destruídas, elas entraram este ano para o topo da lista dos bens públicos preferidos dos ladrões. De acordo com a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), apenas na Região Centro-Sul, cerca de 22% dos 1,4 mil cestos instalados desde o início de 2012 foram alvos de vandalismo. Ëm outros bairros da cidade, essa porcentagem praticamente dobra, chegando a 40%. A suspeita é de que, em vez de contribuir para a limpeza da cidade, elas estão indo direto para os ferros-velhos.

 

A SLU fechou no ano passado contrato para a instalação, a partir de 2012, de mais de 11 mil lixeiras até o fim do ano que vem – atualmente, a capital tem 12 mil. O chefe do Departamento de Limpeza, Wiliam Costa Pereira, acredita que, nos dois anos de validade do serviço, a cidade pagará R$ 1 milhão pela instalação e o vandalismo. Desde março, quando o serviço começou a ser prestado e os equipamentos passaram para a responsabilidade da SLU, somente a Centro-Sul registrou prejuízo de R$ 108 mil.

 

Pereira relata que o problema atual com as lixeiras é o mesmo que ocorria com os bueiros. Há alguns anos, a SLU começou a substituir as bocas de lobo de ferro por concreto, o que pode ter motivado a mudança de alvo. Por enquanto, já se sabe também do prejuízo na Região Leste: das 200 lixeiras instaladas a partir de março, 80 se foram. A próxima regional a ser analisada é a Noroeste.

 

Wiliam Costa dá a dimensão do problema: “Dos 38 cestos instalados no Bulevar Arrudas, do trecho compreendido entre o Restaurante Popular, na Avenida do Contorno, até o início da Avenida Tereza Cristina, só restaram duas. No lugar das outras ficaram apenas as hastes”. A superintendência começou em março, quando assumiu a responsabilidade sobre as lixeiras, a contabilizar os danos.

 

Os equipamentos são lavados e desinfetados pelo menos uma vez por mês e, desde que isso começou a ser feito, no fim do primeiro trimestre deste ano, as equipes da limpeza urbana detectaram o aumento da depredação. Por isso, Pereira diz que não há como comparar o fenômeno de agora com anos anteriores. “Infelizmente, a depredação sempre ocorreu, pois as lixeiras eram queimadas, pichadas. A partir deste ano, o roubo aumentou e ainda não sabemos por que, mas acho que a falta de consciência é o principal motivo”, completa.

 

Ele ressalta que a população pode denunciar a depredação, por meio do telefone 156. “As pessoas não cuidam da cidade. Temos que trabalhar a educação e a mudança de postura. Dessa forma, conseguiremos fazê-la ficar mais agradável de viver”, pontua o chefe da limpeza urbana.

 

Causas

 

Quais motivos levam ao vandalismo? O coordenador do curso de psicologia da Universidade Fumec, Francisco José Machado Viana, aponta pelo menos dois elementos. O primeiro é a sensação da falta de pertencimento à cidade. “Será que o poder público trata essa cidade como parte da minha vida, que tenho o poder de decisão ou participo das escolhas? Que tipo de administração tenho no lugar onde vivo que me qualifica como proprietário dela e me põe como alguém que também faz parte desse jogo?”, questiona.

 

A outra questão, segundo o professor, é a impunidade. “À medida que não tenho restrição ao que fiz, que as pessoas não me pegam e, se isso ocorre, a Justiça é muito lenta para propor ações que possam me dar num momento mais imediato a sensação de que fui punido, é fácil não respeitar a cidade. E fácil achar que não vai dar em nada mesmo”, ressalta.

 

Francisco Viana diz ainda que não é só o autor da depredação quem não se importa, mas também o próprio cidadão que, sem a relação de pertencimento, não reclama quando o outro comete alguma infração: “Ele também não se sente dono. É a deformação do processo de administração dos bens públicos. Temos no Brasil a cultura de que o que é público não é de ninguém. Posso roubar, estragar, descuidar. E ninguém reclama”.

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