quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016 10:07h Atualizado em 4 de Fevereiro de 2016 às 10:15h.

Mães presas doam leite para a Maternidade Sofia Feldman

Detentas coletam o excedente da amamentação em iniciativa inédita para garantir reforço no suprimento do hospital

Uma iniciativa inédita da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) passou a garantir este mês um reforço no suprimento de leite da Maternidade Sofia Feldman, de Belo Horizonte. A contribuição vem de presas do Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade (CRGPL), que estão coletando o excedente da amamentação dos próprios filhos.

A diretora-geral do CRGPL, Eliane Paixão, observa que o leite materno é muito importante, principalmente para crianças recém-nascidas internadas em Centros de Tratamento Intensivo (CTI’s).  Ela fala por experiência própria. A filha ficou em uma CTI quando nasceu e Eliana percebeu a importância do leite materno doado para as crianças que estavam sob terapia intensiva.

 

 

“Me incomodava ver todos os dias leite materno sendo desperdiçado aqui no Centro de Referência. Algumas mulheres têm muito leite. Dá pra amamentar o filho e ainda sobra bastante”, conta a diretora.

A proposta de doação foi aceita de imediato pelo pessoal da Sofia Feldman, uma instituição privada sem fins lucrativos que atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A primeira parte do projeto foi um treinamento das mães presas aplicado pelo Comitê de Aleitamento Maternal do Sofia Feldman.

 

 

Parceria

Cintia Ribeiro, enfermeira obstetra e presidente do Comitê, Paula Cristina, enfermeira neonatal, e Cleidiane Alves, fisioterapeuta neonatal, foram as responsáveis pela instrução, realizada no CRGPL em dezembro, que incluiu orientações para servidoras da unidade.

Cintia diz que o novo projeto reforça ainda mais a parceria entre as instituições. “Nós já atendemos ao CRGPL. Muitas presas dão à luz no Sofia Feldman e uma vez por semana vamos até a unidade fazer atendimento médico. É muito importante essa nova ação para firmar ainda mais essa troca, além de ajudar a salvar a vida de bebês”.

A diretora Eliana conta que, logo depois do treinamento, todas as presas se dispuseram a doar o excedente de leite, inclusive as grávidas. As detentas ficam no CRGPL até os filhos completarem um ano de idade.

 

 

 

Solidariedade

Uma delas é Nicelda Saraiva de Moura, de 35 anos, que passou a gravidez do quarto filho no CRGPL e também já viveu o drama de ter um bebê internado no CTI. “Eu sei o que é ver um filho naquele lugar, é uma situação muito triste, e poder ajudar essas mães e essas crianças, estando aqui, é muito gratificante”, diz a detenta.

Outra presa, Lilian Gaspardine Vieira, de 29 anos, é mãe de primeira viagem. Ela diz que procurou se colocar no lugar das mulheres que têm filhos em CTI’s. “Produzo muito leite e acabo jogando fora. Poder doar para as crianças que estão nessa situação tão triste e ajudá-las de alguma forma é muito bom. É como se a gente virasse um pouco mãe delas também”, afirma.

 

 

 

Sala de coleta

Atualmente, o Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade abriga 34 lactantes. Para a coleta do leite, uma sala da unidade foi equipada com freezer, lavabo com material de higienização das mãos e das mamas, um sofá para a amamentação e uma cadeirinha para as crianças mais crescidas.

A maternidade está fornecendo potes de vidro esterilizados para o armazenamento do leite, além de toucas e máscaras descartáveis usadas durante a coleta. O pote é etiquetado com dados da lactante, a data e o horário da retirada do leite, que é congelado e tem de ser consumido em até 14 dias.

Uma vez por semana uma equipe do hospital vai ao CRRGPL buscar os potes, que são acompanhados de um formulário com os dados de saúde da doadora. O leite passa pela Maternidade Odete Valadares, onde é pasteurizado, antes de ficar disponível no Sofia Feldman para o consumo de bebês internos no CTI da instituição.

 

 

Referência

A Maternidade Sofia Feldman é a maior em número de internações neonatais de Minas Gerais. As presas do CRGPL são acompanhadas pela equipe de saúde, sendo submetidas a exames clínicos pré-natais e também para detecção de doenças sexualmente transmissíveis.

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