segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011 00:00h

Mais de 200 espécies reinam no Pico da Ibituruna

Ana Lúcia Gonçalves

Maioria são aves, algumas ameaçadas de extinção ou raras, muitas endêmicas da Mata Atlântica

O Pico da Ibituruna, em Governador Valadares, Leste do Estado, abriga 234 espécies de animais. São 212 aves, algumas ameaçadas de extinção ou raras, como a rolinha Pararu-Azul (Claravis pretiosa), e 22 de mamíferos, a maioria endêmicos da Mata Atlântica.

As descobertas foram feitas pela equipe chefiada pela bióloga Cláudia Pimenta. O levantamento, que começou em 2008, aponta ainda a redução dos recursos hídricos, a ação de caçadores, e a fuga de animais para o perímetro urbano.

Mais de 70% das espécies encontradas no Pico da Ibituruna foram catalogadas e registradas por meio de fotos e gravação do som que emitem. Esse material dará origem a uma revista de figurinhas ecoeducativas, jogos da memória e de cartas, vídeos, e um livro sobre a fauna local. Também se quer mostrar que o potencial turístico do Pico da Ibituruna vai além dos esportes radicais, como o voo livre.

Segundo a bióloga Cláudia Pimenta, entre as aves, oito estão ameaçadas de extinção. Como o Pica-pau-rei (Campephilus robustus) e o Papagaio Chauá (Amazona rhodocorytha). Foram registradas ainda espécies como o Azulão (Cyanocompsa brissonii) e o Cardeal-do-Nordeste (Paroaria dominicana). Elas estam entre as dez mais apreendidas nas operações contra o tráfico ilegal de pássaros no país.

Trinta espécies endêmicas do bioma Mata Atlântica vivem no Pico da Ibituruna. Dentre elas, o Murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana), João-barbudo (Malacoptila striata), Choca-de-sooretama (Thamnophilus ambiguus) e Arapaçu-escamado (Lepidocolaptes squamatus). “Merece destaque ainda o Pararu-Azul, que apresenta vasta distribuição, mas é pouco frequente”, justifica a bióloga.

Entre os mamíferos, sete são endêmicos de Mata Atlântica e cinco estão ameaçados em diferentes níveis do status de conservação. Entre as endêmicas, estão o Gambá (Didelphis aurita) e o Caxinguelê (Guerlinguetus ingrami). E entre os ameaçados, a Cuíca (Marmosops incanus) e o primata Barbado (Alouatta guariba) .

Queimada e desmate ainda são realidade
A forma de uso e ocupação do Pico da Ibituruna pelos cerca de 130 proprietários de sítios e chácaras do entorno também foi observada pela equipe da bióloga Cláudia Pimenta. A especialista disse haver ações isoladas para a preservação, mas que na maioria as intervenções são predatórias e sem consciência ambiental. A prática anual das queimadas ainda é realidade, assim como os desmatamentos e a caça predatória.

A maior procura seria pelo Tatu-Galinha (Dasypus novemcinctus), cuja carne é bastante apreciada pelos caçadores. “Os tatus e tamanduás são essenciais ao equilíbrio na natureza, por serem consumidores de formigas, cupins e outros insetos”, lamenta a especialista.

Constatou-se ainda a diminuição da carga hídrica das nascentes e a redução do nível do lençol freático. Por outro lado, apurou-se um aumento crescente da evasão dos animais para o entorno das sedes das propriedades e para a área urbana, principalmente para o Bairro Ilha dos Araújos.

A Ilha, que fica na outra margem do Rio Doce, possui fragmento de mata ciliar e alimento. São frutas oferecidas pelos moradores e remanescentes de árvores frutíferas nativas. A falta de corredores ecológicos, ou seja, galerias de mata que permitam o trânsito da fauna silvestre, é outra preocupação. “Isto impede o deslocamento dos animais de um local para outro em busca de alimentos, e a preservação de habitats.

O resultado é uma profunda mudança de comportamento dos animais e aumento do risco de exposição à ação predatória do homem”, analisa a bióloga. A solução seria a criação de um programa de monitoramento das espécies integrado com a implantação destes corredores para ampliação dos habitats.

A bióloga acredita que o tráfico de animais silvestres, que só no Brasil movimenta cerca de US$ 1 bilhão ao ano, seja praticado na cidade. A bióloga lembra que apesar de o Pico da Ibituruna ser uma Área de Proteção Especial (APE), e existirem órgãos ambientais responsáveis em ordenar a preservação desse território, não há um plano de manejo oficial para gerenciar a serra.

Bióloga quer viabilizar soltura de animais

O trabalho de monitoramento para atualização da fauna silvestre do Pico da Ibituruna foi feito pela equipe de biólogos da empresa Biocapi Consultoria Ambiental e Instituto Samaúma Ecologia e Desenvolvimento, em parceria com a Pousada Vale Silvestre.

Segundo a bióloga Cláudia Pimenta, em 2008, quando a pesquisa foi iniciada, 122 espécies foram identificadas. O objetivo era um diagnóstico da área visando a soltura de bichos capturados em situações diversas na cidade. Em 2009, novo levantamento foi realizado em quatro campanhas, obtendo-se o resultado de 189 espécies.

O monitoramento concluído agora, após duas campanhas em diferentes estações do ano, mostra que, na verdade, o número é maior: 234, sendo 37 endêmicas e 13 ameaçadas. A metodologia utilizada foi a de observação direta, busca ativa e uso das técnicas de rastreamento, que possibilitam aproximação do animal para o registro fotográfico e vocalização, sem causar estresse e intervenções danosas ao seu habitat.

O objetivo agora, informou a bióloga, é registrar as descobertas; trabalhar o ecoturismo sustentável, com geração de renda local; e levantar a capacidade de suporte de toda área para a soltura dos animais apreendidos em Valadares. “Outra finalidade é mostrar que esses trabalhos apresentam resultados que exigem uma ação maior por parte dos órgãos responsáveis. O principal é a decisão de se garantir recursos para o monitoramento da fauna silvestre em toda a Ibituruna, de forma regular, nas quatro estações do ano.”

Cláudia Pimenta assegura que não há programas definidos de preservação e conservação que envolvam os proprietários locais. “Apesar disto, a Ibituruna ainda é um local de rara beleza, que cativa os turistas que por ali se aventuram”.

Fonte:hojeemdia.com.br

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