sexta-feira, 26 de Outubro de 2012 03:55h Gazeta do Oeste

Mineiro sai do lixão e vai parar no plenário da Câmara Municipal

Nas eleições municipais deste ano, um ex-catador de lixo se revelou personagem de um enredo com potencial para atingir também “picos de audiência” elevados. Desta vez, no entanto, os capítulos só vão poder ser acompanhados na Câmara Municipal de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, a 320 quilômetros de Belo Horizonte. O vereador eleito Levi Vieira da Silva (PMN), de 27 anos, tem histórias que também prendem a atenção, a exemplo de qualquer folhetim bem-sucedido nas telas de televisão brasileiras.

A começar pelos apelidos, emblemáticos, por sinal. Em Governador Valadares, o futuro vereador é conhecido como Levi Presidente e Obama do Turmalina – essa última alcunha recebida em função da semelhança física com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. O Levi Presidente deve-se ao cargo que ele ocupa há quase três anos e que o levou a obter mais de 2 mil votos, ficando em quinto lugar entre os 21 parlamentares eleitos. Levi preside a Associação dos Moradores do Bairro Turmalina, que abriga em torno de 14 mil pessoas, na periferia da cidade, local de muitas carências e onde também está localizado o lixão do município.

“Do Turmalina saíram mais de 80% dos votos”, conta Levi, também votado em mais quatro bairros do entorno. De prosa fácil, escorregando, às vezes, na gramática, e dono de um carisma inegável, ele diz que a eleição para vereador é o início de uma trajetória que, mesmo mencionando em tom de brincadeira, ele sonha terminar no Palácio do Planalto. Afinal, justifica Levi, “me identifico com o Lula, que tem a mesma origem humilde que eu”. Mas, antes da hipotética disputa para a Presidência da República, o vereador eleito afirma que tem outras metas a alcançar. “Quero ser deputado estadual, para começar a ser conhecido em Minas e depois pelo Brasil”, explica.

Nascido em Belo Horizonte, de família pobre, Levi mudou-se para Governador Valadares aos 7 anos. “Não dava para sobreviver lá (BH) e tinha parente aqui.” O pai, já falecido, ganhava a vida como vendedor ambulante para sustentar mulher e cinco filhos. Apesar da infância no lixão, onde começou a trabalhar aos 10 anos, Levi diz que não perdeu a esperança de uma vida melhor e faz muito planos. Tornar-se médico legista é um deles, ou então auxiliar de necropsia. “Presto serviço voluntário em uma funerária e não tenho medo de defunto, não”, esclarece. Casar também está no horizonte que ele vislumbra. “Vai depender de achar uma noiva na igreja”, conta o vereador eleito, também obreiro de uma igreja evangélica.

Até a posse, para a qual já ganhou o terno e o sapato de um comerciante, Levi diz que vai continuar vivendo “esse milagre”. “Porque foi ou não foi (milagre) ser eleito vereador?”, pergunta ele, admitindo que a “ficha ainda não caiu”. “Depois que tomar posse, vou começar construindo uma casa para sair do aluguel, dando mais conforto para a minha mãe”, garante. “Mas põe aí: vou trabalhar pelo povo de Governador Valadares, porque quero mostrar que eles confiaram na pessoa certa.” Levi garante que a comunidade do Turmalina pode esperar asfalto e programas sociais, voltados para as áreas de esporte, lazer e combate à criminalidade.

E o lixão? Sobre esse assunto, Levi diz que faz parte do passado. “Não levei isso para a campanha, apesar da novela.” Levi deixou o lixão há pouco mais de sete anos. Hoje, trabalha como montador de palco para shows e eventos. Ganha quanto? “Até R$ 900 por mês.” Acha que vai melhorar de vida com o salário da Câmara? “Não sei, ainda não procurei saber”, reage, para em seguida emendar. “Mas já tive notícia que fica em torno de R$ 7.800.” Levi não está mal informado: a estimativa bate com os subsídios mensais reservados aos vereadores valadarenses. O que muda na vida daqui para frente? “Vou dar um passo muito grande, mas acho que vou continuar o mesmo”, acredita.

© 2009-2017. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.