quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014 10:30h

Moradores denunciam baderna durante jogos no Mineirão

Venda de bebidas alcoólicas no estádio é apontada como uma das soluções para os problemas apresentados

Voltar a vender bebidas alcoólicas no interior do estádio Mineirão e permitir o retorno dos vendedores ambulantes à esplanada do entorno foram algumas das sugestões apresentadas para amenizar os problemas denunciados pelos moradores da região. As propostas foram apresentadas em audiência pública realizada pela Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para tratar de denúncias relacionadas à instalação de churrasqueiras ilegais, a estacionamentos irregulares e outros problemas vivenciados pelos moradores.

Os moradores presentes salientaram que durante 50 anos o Mineirão foi sede de grandes jogos e recebia, em várias ocasiões, um número bem maior de torcedores do que atualmente é permitido e, ainda assim, não havia transtornos. A reforma feita para que o estádio recebesse jogos da Copa do Mundo Fifa de Futebol teria reduzido o número de vagas de estacionamento e, assim, levado os torcedores para o interior dos bairros próximos. Eles lembraram que os problemas não aconteceram durante o evento internacional e reivindicaram a continuidade do “Padrão Fifa”, com a venda de bebidas alcoólicas dentro do estádio e a proibição de circulação nas ruas do bairro durante os eventos. De acordo com os moradores que se manifestaram, as medidas tomadas até agora pelo Poder Público foram insuficientes.

Os problemas enfrentados pelos moradores foram apresentados pelo deputado Sargento Rodrigues (PDT), autor do requerimento. “São carros estacionados nas portas de garagens, torcedores urinando nas vias públicas, churrascos feitos em cima da grama, extorsão de flanelinhas, agressões verbais e físicas”, citou. Ele afirmou que todos esses atos se constituem como crimes, contravenções penais ou infrações de trânsito e precisam ser inibidos. Ele mostrou também fotos e um vídeo produzido pela equipe da ALMG a requerimento do parlamentar durante o último jogo, entre Cruzeiro e Atlético, para que ficassem claros os motivos da reclamação.

Rodrigues questionou também a razão para, em dias de jogos, o estacionamento ser proibido ao longo de avenidas como a Abrahão Caram, em locais onde é permitido estacionar em outros dias. “Para o torcedor, todas as providências já foram tomadas – para garantir a fluidez do trânsito, a segurança no estádio, tudo. Mas e o morador? Eles estão pagando toda a conta”, disse. O vereador de Belo Horizonte Edvaldo Piccinini ressaltou outro risco, relacionado a um posto de gasolina próximo, no qual é vendida bebida alcoólica e há grande aglomeração de torcedores. Ele considerou que há um grande risco de explosão no local.

Representante da PM diz que efetivo só consegue conter tragédias

O capitão da 17 Companhia da Polícia Militar Ronaldo Sanglard Bastos disse que o efetivo da polícia precisa ser utilizado para conter tragédias e não consegue resolver problemas menores. “Faltando meia hora para o jogo, todo mundo quer entrar ao mesmo tempo, aí precisar ir lá conter a tragédia anunciada”, afirmou. De acordo com ele, é preciso atacar a causa do problema: a proibição de venda de bebidas alcoólicas no interior do estádio. Acabar com essa proibição poderia, para o capitão, atrair os torcedores mais cedo para dentro do Mineirão e reduzir o problema no entorno.

“Porque antes o estádio recebia 100 mil torcedores e esses problemas não aconteciam e, agora, com metade dos torcedores, acontece tudo isso?”, questionou. Sanglard também apresentou alguns números. Segundo ele, teriam sido presos ao longo deste ano 168 flanelinhas durante os eventos e mais de 500 notificações teriam sido encaminhadas ao Departamento de Trânsito (Detran). Teriam sido realizadas também cerca de 100 reuniões com a comunidade local e 48 delas teriam tratado apenas das questões relacionadas ao Mineirão, em uma tentativa de encontrar soluções.

A impossibilidade de tomar medidas contra os flanelinhas foi apontada pelo delegado da Polícia Civil Felipe Dias Falles. Segundo ele, o ato não é tipificado no Código Penal e para que eles fossem punidos seria necessário que uma vítima os denunciasse por extorsão – esse sim um fato descrito pelo Código. Assim, as prisões são inócuas. Ele salientou, ainda, que nunca receberam, na delegacia especializada, uma ocorrência relativa, por exemplo, a atentado violento ao pudor – como sugerido durante a reunião que deveriam ser enquadrados aqueles que urinam em vias públicas. Falles reforçou que a delegacia do bairro São Luiz é a melhor equipada de Minas Gerais e destina-se a cuidar dos eventos realizados no Mineirão, inclusive como uma ramificação dentro do estádio durante esses eventos. Citou também outra delegacia, localizada no bairro Ouro Preto.

O deputado Alencar da Silveira Jr (PDT) disse que foi favorável à proibição de bebidas alcoólicas no estádio do Mineirão há alguns anos e, apesar disso, apoia o retorno da venda agora. Ele sugeriu que as vendas fossem permitidas até o início do segundo tempo dos jogos, assim os torcedores teriam 45 minutos de festa sem acesso a álcool antes de saírem do Mineirão.

Prefeitura apresenta medidas que já estão sendo tomadas

Os representantes da prefeitura de Belo Horizonte afirmaram que medidas já estão sendo estudadas, e algumas já teriam começado a ser implantadas, para amenizar os problemas. De acordo com o secretário municipal de serviços urbanos Pier Giorgio Filho, será lançada ainda este mês uma licitação para que sejam instaladas feiras de alimentos e bebidas em cinco ou seis pontos, com 96 barracas, em dias de jogo. Desta forma, ele acredita que os torcedores ficariam mais concentrados nesses locais e não espalhados pelos bairros.

Filho disse, ainda, que já foi encaminhada uma proposta de proibição do uso de churrasqueiras nas vias públicas, que também poderia amenizar a situação. “Infelizmente não temos em nossa legislação norma que proíba o consumo de bebidas alcoolicas em vias públicas e as pessoas usam isso em sua defesa, dizem que têm o direito de estar ali”, afirmou. Ele afirmou, ainda, que todas as ações no sentido de buscar soluções para as questões apresentadas ainda para o próximo ano estão sendo tomadas.

A instituição de uma comissão pela prefeitura, com representantes de várias entidades, para discutir soluções foi apontada pelo secretário regional da Pampulha, Humberto Pereira de Abreu Lima, como demonstração de interesse em resolver as questões. Ele disse, ainda, que está sendo estudada a possibilidade de um convênio com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para a utilização de alguns espaços da instituição de ensino para o estacionamento de veículos em dias de eventos. “Com o término do Campeonato Brasileiro, teremos mais tempo para pensar em soluções para o próximo ano”, disse.

Para BHTrans, solução é incentivar transporte público

A recente instalação, no dia 2 de novembro, de uma linha de ônibus que acessa o estádio por faixas exclusivas em dias de jogos foi apontada pela gerente de ação regional nordeste/ Pampulha, Maria Inês de Oliveira Franco, como ação mais significativa da BHTrans para resolver os problemas apontados. “As vagas de estacionamento serão sempre limitadas, o objetivo é incentivar o uso do transporte público”, disse. Ela afirmou também que será instalada a sinalização definitiva nas ruas do bairro, já que atualmente as faixas são móveis e muitas vezes acabam sendo retiradas pelos flanelinhas, o que acabaria dificultando a fiscalização.

Sobre a proibição de estacionamento nas avenidas Abrahão Caram e Carlos Luz, a representante da BHTrans lembrou que uma das faixas nessas avenidas é exclusiva, em dias de jogos, para ônibus e que são necessárias as duas outras faixas para garantir a fluidez do trânsito. Nas ruas do interior dos bairros do entorno, ela disse estar ciente do problema, agravado pelo fato de essas ruas serem estreitas. Segundo Franco, já foi publicada portaria proibindo o estacionamento de vans e ônibus nessas ruas e que se deseja também implantar estacionamento apenas em uma das faces dessas vias, respeitadas as garagens, para facilitar as manobras dos moradores e o acesso de carros de reboque. Ela afirmou que no último jogo no estádio foram rebocados 23 carros na região.

Ricardo Henriques, assessor de inteligência empresarial e análise de risco do Minas Arena, que administra o Mineirão, disse que o planejamento contempla a abertura antecipada do estádio e que está sendo feito estudo para buscar uma esplanada mais atrativa no sentido de levar os torcedores para dentro o mais cedo possível. Ele disse, ainda, que estão abertos ao diálogo com os órgãos públicos e os moradores para ajudar a achar soluções para o problema.

O deputado Paulo Lamac (PT) lembrou que já foram recolhidas assinaturas suficientes para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Mineirão e que muitas das questões abordadas durante a reunião poderão ser tratadas também na CPI.

Requerimentos - O deputado Sargento Rodrigues apresentou vários requerimentos para tentar resolver o assunto. Ele pede, por exemplo, que seja enviada solicitação à Polícia MIlitar para que faça policiamento velado nas ruas dos bairros próximos já no jogo a ser realizado no domingo. Outro requerimento pede que a BHTrans coloque fiscais também nas ruas dos bairros e não apenas nas vias principais. O deputado Alencar da Silveira Jr, por sua vez, fez requerimento para que seja realizada outra audiência pública para tratar do tema e que, dessa vez , sejam convidados os representantes dos barraqueiros do Mineirão. Os requerimentos devem ser votados em reuniões futuras da comissão.

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