segunda-feira, 6 de Maio de 2013 11:18h Atualizado em 6 de Maio de 2013 às 11:22h. Estado de Minas

Nhá Chica ganha honra dos altares em Minas

O movimento ontem permaneceu intenso, com muitas visitas ao memorial de Nhá Chica, que fica no santuário, à casinha em que ela viveu, ao lado, e à imagem de cedro, com 1m de altura e de pé, exposta na matriz.

No dia seguinte à cerimônia de beatificação de Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica (1810-1895), a imagem da primeira negra do país a receber esse reconhecimento da Santa Sé foi abençoada em missa campal, ganhou a honra dos altares e saiu pela primeira vez em procissão pelas ruas da cidade do Sul de Minas, onde viveu mais de sete décadas. Ela também foi destacada pelo papa Francisco, que disse estar unido a todos os fiéis brasileiros na beatificação, durante missa no Vaticano. Às 18h20 de ontem, sob repicar de sinos e aplausos, uma multidão balançando lenços brancos acompanhou o cortejo luminoso, que saiu da Matriz de Santa Maria em direção à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, conhecida popularmente como Santuário de Nhá Chica, num trajeto que deixou comovidos moradores e visitantes que ficaram para o último dia das celebrações.

O movimento ontem permaneceu intenso, com muitas visitas ao memorial de Nhá Chica, que fica no santuário, à casinha em que ela viveu, ao lado, e à imagem de cedro, com 1m de altura e de pé, exposta na matriz. Em todos os cantos, o assunto é um só: a beleza da cerimônia de sábado, a emoção e o respeito dos 40 mil católicos que, sob o forte sol da tarde, assistiram, das 15h às 17h30, à missa solene presidida pelo cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação da Causa dos Santos e representante do papa Francisco. O cardeal proferiu o rito, lendo a carta apostólica, que tornou oficialmente beata a leiga mineira nascida no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, em São João del-Rei, na Região do Campos das Vertentes. Esta foi a primeira cerimônia de beatificação no pontificado do novo chefe da Igreja Católica.

SOL

Às 10h de ontem, cerca de 3 mil pessoas participaram da missa campal, no espaço G.A. Pedras, o mesmo onde ocorreu a beatificação, celebrada pelo bispo da diocese de Campanha, dom frei Diamantino Prata de Carvalho. Sob o céu azul e sol forte, ele comparou: “É o sol da santidade de Deus”. A imagem de Nhá Chica estava no altar e foi abençoada, sob aplausos dos fiéis, muitos protegidos por guarda-chuvas ou moitas de bambus. A escultura feita por Osni Paiva, com policromia a cargo do restaurador Carlos Magno de Araújo, ambos de São João del-Rei, difere da figura tradicional conhecida de Nhá Chica – uma idosa, sentada, com um guarda-chuva nas mãos e semblante fechado. Agora, ela está de pé, de braços abertos, segurando um terço e túnica cor-de-rosa, com uma auréola dourada na cabeça. A beatificação só foi possível graças ao reconhecimento do milagre, pelo Vaticano, da cura da professora Ana Lúcia Meirelles Leite, de 68, que sofria de grave problema cardíaco congênito.

Ao fim da missa, os devotos fizeram fila para beijar a imagem da bem-aventura Nhá Chica ou beata Nhá Chica, como passou a ser chamada. O primeiro da fila foi Maurílio Junqueira, de 55, mineiro residente em Jacareí (SP). “Foi coincidência, pois, estava na frente, perto do altar, aproveitando uma sombra. Fiquei feliz, pois sou sobrinho do padre Geraldo Junqueira, já falecido, que lutou muito pela beatificação”, afirmou Maurílio. “Ela está mais bonita, gostei da imagem”, disse Terezinha Mancilha, de 76, ao lado do marido, Luiz Magno, de 77, casados há 59 anos e residentes em São Lourenço, Sul de Minas. “Já conseguimos muitas graças e viemos agradecer. Eu me curei de um problema de estômago pedindo a intercessão de Nhá Chica”, disse Luiz Magno. Comovido, o lavrador Pedro Junqueira dos Santos, de 62, tirou o chapéu em sinal de respeito e agradeceu a cura de um filho que “quase morreu” devido a um aneurisma.

Vindo de Arantina, Zona da Mata, o casal Bruno de Souza, comerciante, e Fernanda Aparecida da Silva fez questão de levar a filha, Ana Clara, de 9, para beijar a imagem. “Tive um problema sério de cólica de rins e vim aqui ao santuário pedir ajuda. Hoje estou bem”, contou Bruno, de 31. Residente em Virgínia, a balconista Vera Lúcia dos Santos contou que teve uma gravidez complicada e “deu tudo certo, minha filha está com 8 anos”. Tempos depois, o vizinho Marcos André, de 5, quase perdeu o dedão do pé, num acidente de bicicleta. “Felizmente, ficou bom”, revelou com alegria, ao lado do menino.

De conselheira a bem-aventurada  

A partir de hoje, os devotos podem chamar a mineira do Campo das Vertentes de bem-aventurada Nhá Chica ou Beata Nhá Chica. Mas até atingir este ponto, há uma trajetória de fé, humildade e amor ao próximo. Francisca de Paula de Jesus era bem menina quando chegou a Baependi na companhia da mãe Isabel, uma ex- escrava, e do irmão Teotônio. Com eles, poucos pertences e a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Não demorou muito e Francisca, então com 10 anos, ficou órfã, contando apenas com o irmão, de 12. Antes de partir, a mãe deixara os filhos aos cuidados e sob proteção de Nossa Senhora, a quem a menina chamava de “minha sinhá” e não fazia nada sem consultá-la.

Nhá Chica cuidou da herança espiritual que recebera da mãe. Nunca se casou e rejeitou todas as propostas de matrimônio que lhe apareceram, dedicando-se de corpo e  alma a Deus. O seu objetivo era atender, sem discriminação, a quem a procurava, dando-se bem com os pobres, ricos e mais necessitados. Nos lábios, tinha sempre uma palavra de conforto. Desde muito jovem, era procurada para dar conselhos, fazer orações e dar sugestões para pessoas que lidavam com negócios. Contam que muitas pessoas não tomavam decisões antes de consultá-la e, para quem a considerava santa, respondia com tranquilidade: “É porque rezo com fé”.

A fama de santidade se espalhou de tal modo que pessoas de muito longe começaram a visitar Baependi para conhecê-la, conversar com ela, falar de suas dores e necessidades e, sobretudo, pedir orações. A todos, atendia com a mesma paciência e dedicação, mas nas sextas-feiras não atendia a ninguém. Era o dia em que lavava as próprias roupas e se dedicava mais à oração e à penitência, alegando que sexta-feira é quando se recorda “a Paixão e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação de todos”. Às 15h, intensificava as orações e mantinha uma particular veneração à Virgem da Conceição, com a qual tratava familiarmente como a uma amiga.

Ao lado de sua casa, construiu a capelinha onde venerava uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, que pertencera à mãe. Nhá Chica morreu em 14 de junho de 1895, com 87 anos, mas foi sepultada somente no dia 18, no interior da capela por ela construída. As pessoas que ali estiveram sentiram exalar de seu corpo um misterioso perfume de rosas durante os quatro dias do velório.

Escultura viva

Na tarde de ontem, na porta do santuário, chamava atenção, perto do monumento a Nhá Chica, o artista de rua Claudinei Silva Nascimento, de 41, de Aparecida (SP). Vestido com um traje marrom e coberto de argila, ele cumprimentava quem chegava perto, beijando a mão, e distribuía pedrinhas coloridas “para dar sorte”. Em Aparecida, ele se transforma em Santo Frei Galvão. “Achei bonita a homenagem”, comentou a secretária Elaine Gomes, de Caxambu, ao lado da filha Andressa. Próximo dali, outro artista encarnava frei Damião.

Fé e meio ambiente

Para neutralizar o carbono expelido pelos veículos que chegaram a Baependi durante o evento religioso, a Amanhágua – Organização para o bem da água, da natureza e da vida vai plantar 2 mil mudas de árvores nativas da mata atlântica, informou a presidente da organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), Mônica Buono. O plantio será feito a partir de outubro, na nascente Mãe D’água, em Baependi, na Bacia do Rio Verde com adesão ao projeto de pessoas
físicas e jurídicas.

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