segunda-feira, 28 de Abril de 2014 07:27h Atualizado em 28 de Abril de 2014 às 07:29h.

Pesquisa resgata receitas históricas e fortalece apelo turístico do Caminho Religioso

Estudiosa descobriu iguarias mineiras nos santuários das Serras da Piedade e do Caraça. Locais estão entre os maiores atrativos do Caminho Religioso da Estrada Real.

A pesquisadora Vani Pedrosa estuda as origens da gastronomia mineira nos santuários da Serra da Piedade e da Serra do Caraça, que abrangem as cidades de Caeté, Catas Altas, Barão de Cocais e Santa Bárbara. Nos últimos anos, ela tem dedicado seu tempo ao resgate das receitas e das histórias registradas em livros preservados que se encontram nas bibliotecas locais. Com base no levantamento, a pesquisadora tem colaborado para reestruturar a culinária dos santuários, devolvendo a eles parte da sua identidade gastronômica.

A pesquisa gastronômica e histórica foi iniciada na Serra da Piedade, onde, durante três anos, Vani Pedrosa vasculhou obras sobre a culinária mineira, suas origens e as formas originais de preparo. “Fui para a biblioteca e comecei a desvendar histórias. O estudo mostra que a culinária mineira é muito mais complexa do que uma mistura africana, indígena e portuguesa”, esclarece.

Segundo a especialista, iniciar o estudo pela Serra Piedade foi estratégico. “Lá é um ponto de pesquisa muito rico. Tudo o que acontecia de bom ou ruim era levado para a Serra da Piedade. Tudo o que se comia em Minas era levado para lá por meio dos peregrinos e bandeirantes. Vi que lá tinham ficado essas marcas, esse histórico registrado. Comecei a aprofundar e fiquei muito surpresa”, enaltece.

Na Serra da Piedade, Vani Pedrosa reviveu receitas históricas, como o Queijo do Frei Rosário e a Rosca da Rainha. O Queijo do Frei Rosário foi inspirado na tradição francesa e sua origem coincide com a chegada dos imigrantes europeus ao Brasil no início do século XX. “Tentamos até chegar numa receita muito próxima”, conta.

Outra descoberta importante foi a Rosca da Rainha, desenvolvida em uma época que não havia farinha de trigo no país. “Dom Pedro esteve na região e um fazendeiro importou a farinha para fazer o pão e recebê-lo. Com isso, ele fez a Rosca da Rainha para receber Dom Pedro. A receita levava óleo de mamona, farinha de trigo, doce de leite na massa, goiabada e creme de manteiga”, explica.

Influência francesa

No Santuário do Caraça o estudo ainda está em andamento. De antemão, Vani Pedrosa revela que encontrou novas receitas, curiosidades e especificidades da gastronomia mineira relacionadas às influências francesas. “Não havia mais ouro e ingredientes. A Serra do Caraça entrou com a parte iluminista, que ficou nesse lugar numa época de falta de produtos e com novas técnicas, o que gerou linhas de quitandas e docerias de convento”, comenta.

Atualmente, Vani Pedrosa está envolvida com o levantamento das plantas extintas. “Padres franceses trouxeram várias espécies europeias que sobreviveram ao clima, bem como outras verduras importantes”, ressalta. Até o momento, mais de 60 tipos de espécies extintas já foram identificadas e, no local, está sendo montada uma horta com os temperos resgatados.

A iniciativa também envolve a criação de uma padaria e a valorização de outras iguarias. “O frango daqui é feito de maneira diferente do que em outras partes do Brasil”, exemplifica Vani Pedrosa.

Incentivo ao turismo religioso

O trabalho de resgate da gastronomia vem para valorizar ainda mais o Caminho Religioso da Estrada Real (Crer) – desenvolvido pela Secretaria de Estado Turismo e Esportes de Minas Gerais, que tem nos santuários da Serra da Piedade e da Serra do Caraça um dos seus maiores pilares e atrativos. O Crer vai ligar o santuário da padroeira de Minas, Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, até o santuário da padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Aparecida, em Aparecida, São Paulo.

Inspirado no consagrado Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, os turistas poderão percorrer o percurso de 1.033 quilômetros, que abrange 86 cidades, a pé, de bicicleta ou a cavalo. “As cidades vão oferecer, sobretudo, hospedagens simples para caminhantes e ciclistas, além de umas maiores para cavaleiros e cavalos. Toda a parte de gastronomia e de artigos religiosos que retratam as tradições locais serão valorizadas”, acredita a superintendente de Estrutura do Turismo, Graziele Vilela.

O projeto prevê a instalação de mais de 1.700 totens de sinalização, painéis que ajudarão os turistas com informações sobre o Caminho Religioso da Estrada Real, indicando não apenas os caminhos, mas também a infraestrutura existente no trajeto, como hotéis, pousadas e restaurantes. “Vamos concluir toda a sinalização no dia 30 de maio e assim terminamos a primeira fase”, explica Graziele.

Neste ano, o Crer terá um diferencial. No dia 1º de maio acontece, pela primeira vez, a peregrinação por Nhá Chica, no Sul de Minas, depois de sua beatificação no ano passado. “A expectativa é que aumente muito o movimento de peregrinos nesta rota do Caminho Religioso”, vislumbra Graziele.

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