quarta-feira, 10 de Agosto de 2016 15:55h Agência Minas Gerais

Pesquisadores mineiros investem na busca por novos medicamentos

Projetos realizados com o apoio da Fapemig objetivam o aproveitamento de plantas abundantes em Minas Gerais na indústria farmacêutica

Principal bioma do Norte de Minas Gerais, o Cerrado é objeto de diversas pesquisas em todo o estado e oferece alternativas promissoras para a área da saúde.  É o caso do pequi, fruto de  árvore nativa da região e tradicional na culinária sertaneja, cuja casca contém uma substância que está sendo pesquisada na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) para o tratamento do câncer de boca.

Encontrado em vários produtos naturais, o ácido gálico também pode ser obtido da casca do pequi e possui atividade anti-inflamatória e forte ação antioxidante. “Uma pesquisa feita aqui na Unimontes já havia encontrado uma forma de isolar e extrair o ácido gálico do pequi. Assim, resolvemos testá-lo como uma alternativa para o tratamento do câncer de boca”, explica o pesquisador da Unimontes e Ph.D em Farmacologia Bioquímica e Molecular, André Luiz Guimarães.

No Brasil, a boca representa a quinta localização de maior incidência de câncer em homens e a sétima em mulheres, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). A estimativa para 2016 aponta para o surgimento de 4.350 novos casos de câncer de boca no país. O mais comum é o Carcinoma de Células Escamosas (CCE), que é considerado um problema mundial de saúde pública.

 

Um dos desafios impostos pelo CCE é que ele apresenta áreas hipóxicas, que são células onde há diminuição de oxigênio no meio - o que faz com que as lesões se tornem mais resistentes à radioterapia. “Resolvemos pesquisar o efeito do ácido gálico no combate a essas células com hipóxia. O estudo mostrou que ele possui propriedades anticancerígenas capazes de inibir a proliferação celular, mesmo em hipóxia”, destaca Guimarães.

A pesquisa, aprovada pela Comissão de Ética, Bioética e Bem-Estar Animal (Cebea), está em fase de testes com animais. “Se conseguirmos um medicamento que vai aumentar a eficácia da radioterapia no tratamento do câncer de boca, já é um ganho enorme. Os resultados são promissores”, diz o pesquisador.

Guimarães aponta outras vantagens. “O pequi tem baixo custo de produção e vai gerar renda para a comunidade, que vai poder aproveitar toda a cadeia produtiva e ainda vender esta casca do fruto, que hoje é descartada. Nossa ideia, inclusive, é futuramente estimular projetos de reflorestamento com pequi na região”, adianta.

Sabedoria popular

No Território Caparaó, o pesquisador João Paulo Leite, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal de Viçosa (UFV), partiu da sabedoria popular para comprovar o potencial de duas espécies de plantas para serem usadas nos campos da medicina – a Quina do Campo, típica do Cerrado, e a Quina  Mineira, árvore abundante no bioma de Mata Atlântica.

“No caso da Quina Mineira, por exemplo, conversamos com os moradores mais antigos da região do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, que utilizam o chá da sua casca para tratar problemas digestivos e no fígado”, conta Leite.

A partir daí, começaram os estudos para comprovar a ação da Bathysa cuspidata, nome científico da espécie que, após diversas fases de pesquisa e testes em animais, teve atestada a sua capacidade terapêutica.

“Produzimos o extrato vegetal e as pesquisas mostram que a Quina Mineira pode ajudar na cura de problemas no fígado, no pulmão e também no câncer de intestino, pois ela ajuda a reparar os tecidos danificados ou a impedir o avanço da doença”, ressalta o pesquisador da UFV.

Pomada cicatrizante

Os estudos com a espécie Strychnos pseudoquina, conhecida popularmente como Quina do Campo, típica do Cerrado, também se mostraram promissores. Empregada na medicina popular para cicatrização da pele, a casca deste arbusto teve sua atividade cicatrizante comprovada pela equipe do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que criou uma pomada a partir do extrato da planta.

Em uma das primeiras fases da pesquisa, descobriu-se que a casca desta espécie era rica em flavonoides, compostos bioativos,  com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. A partir daí, dois compostos, responsáveis pelo efeito cicatrizante, foram isolados e testado em animais.

Agora, os estudos seguem em diversas frentes. “Pensando na produção de uma pomada cicatrizante fitoterápica, temos a preocupação de produzir a matéria prima de forma sustentável, pois precisaríamos de grande quantidade de extrato. Assim, estamos conduzindo uma pesquisa para descobrir como propagar a planta em laboratório, além de trabalhar na formulação do medicamento, que ainda precisa passar por testes clínicos, isto é, com seres humanos”, finaliza o pesquisador João Paulo Leite.

Cuidado com automedicação

Apesar da comprovação da eficácia das espécies de Quina citadas, o pesquisador João Paulo Leite orienta que as pessoas tenham cuidado ao utilizá-las. “Primeiro, porque ainda não se sabe qual a dosagem adequada para cada doença, e, segundo, porque são muitas espécies de quina comercializadas, e nem todas podem estar puras e/ou ter capacidade terapêutica”, alerta.

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