Sebrae Minas incentiva empreendedorismo negro.

Empreendedores descobrem que investir em produtos e serviços voltados para essa parcela da população pode ser um bom negócio.

18 NOV 2020

A afirmação da população de cútis preta ou parda desponta mundialmente. Entre a população brasileira, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisa realizada entre os anos de 2015 e 2018, o grupo de pessoas que se declaram pretas ou pardas foi o único que cresceu.

Em 2019, essa parcela da população já representava mais de 56% dos brasileiros, ou seja, dos 209,2 milhões de habitantes do país, 19,2 milhões se assumiram como pretos, enquanto 89,7 milhões se declararam pardos.

Segundo a ativista e cantora Yêda Labrunie,  esse crescimento se deu pelo fato de o povo preto estar ganhando mais força e consciência para assumir de fato sua raça, por meio de trabalhos realizados por diversos movimentos pretos. “Uma prova disso é que o preto está assumindo mais seu cabelo, entendendo que somos bonitos como somos”, diz Labrunie.

Empreendedores atentos às novas tendências de mercado têm investido em negócios especializados em atender às necessidades de homens, mulheres e crianças da raça negra. E entre os empreendimentos mais promissores estão indústrias e estabelecimentos comerciais especializados em produtos cosméticos e acessórios voltados para o segmento.

Há alguns anos, isso era coisa rara. “No meu tempo, se a gente quisesse usar um shampoo, só tínhamos como opção o que todo mundo usava. Você só conseguia escolher entre shampoos para cabelo seco, oleoso ou misto. Agora não, tem quase tudo personalizado para meu tipo de cabelo e meu tom de pele. Isso é maravilhoso, mas ainda falta muito para se chegar ao ideal”, comenta a professora Márcia Lúcia da Silva.

Sem dúvida, o setor de beleza é o que mais tem investido em produtos para pessoas negras. São itens para cabelo, maquiagem e acessórios, salões especializados nos cuidados com o cabelo e a pele negra, entre outros, que têm ganhado força e conquistado um mercado que atende a mais de 50% da população brasileira.

“Alguns estudos têm mostrado que o poder de compra do negro está crescendo. Por isso, investir em negócios que possam suprir mais e melhor a necessidade desse grupo de pessoas pode ser algo bastante promissor”, observa o gerente da Regional Centro-Oeste e Sudoeste do Sebrae Minas, Leonardo Mól.

Nem só de samba, rap, faxina e cozinha vive o negro

Patrícia Kelly dos Santos é mestre em química e há 15 anos trabalha com  cabelos blacks, um aprendizado que iniciou com as amiga africanas que conheceu na Universidade Federal de Viçosa, onde se formou. Hoje ela é proprietária da  Niari Cosméticos, cujos produtos são de fabricação própria.

A trajetória profissional da Patrícia começou aos 12 anos, trabalhando como doméstica em casas de família. “Aos 16 anos, passei a me envolver com o empreendedorismo. Produzi e vendi doces e atuei no setor de confecção de roupas, com minha irmã. Mas, para nós, mulheres e negras, empreender não é algo tão fácil. Então, fomos estudar”, conta.

Ao concluir a faculdade, ela retornou a Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas, e passou a lecionar. “Nos fins de semana, trabalhava com penteados afro. A demanda cresceu tanto que resolvi abandonar a carreira de professora para me dedicar à beleza negra, porque isso fazia mais sentido para mim ”, diz.

Foi por meio do incentivo de um amigo que trabalhava com cosméticos que ela começou a fabricar produtos químicos voltados para pessoas pretas. “É muito difícil encontrar algo que realmente nos represente. E assim passei a associar esse trabalho com meu salão”, recorda.

O Sebrae também contribuiu para o sucesso da Patrícia, de sua sócia Elissandra Flávia dos Santos e de sua irmã Carla Caroline dos Santos. “ O Sebrae foi muito importante em nossa trajetória. Foi lá que, para melhorar nosso desempenho empresarial, fizemos muitos cursos, como Precificação, Como Calcular Lucro, Planejamento, Plano de Vendas, Comercialização e Estratégias de Marketing. Também tivemos acesso a inúmeras consultorias do Sebrae e participamos de alguns eventos de empreendedorismo em Belo Horizonte”, completa a empreendedora.

Patrícia reforça o quanto é importante ter um produto ou serviço voltado para um público específico. “Todos os públicos têm um produto específico para eles e nós, negros, ainda não somos nem considerados como público. Por isso, esse mercado ainda é muito pequeno”, explica.

Carla Caroline dos Santos é irmã da Patrícia e proprietária de uma loja também localizada em Divinópolis, que vende cabelos e acessórios como brincos, tiaras, apliques, turbantes, cosméticos etc. A loja é muito movimentada e as vendas não pararam nem  mesmo no auge de pandemia.

“Nosso maior público, sem dúvida, são mulheres pretas.  A maioria delas está passando ou já passou pelo processo de transição, que consiste em assumir o “black “, seu cabelo natural. Quando tivemos que fechar a loja na onda vermelha da pandemia, as vendas on-line e delivery bombaram”, conta a empresária.

”Temos uma resposta muito positiva e gratificante do nosso público. As mulheres se sente mais valorizadas e isso é lindo de ver e sentir”, acrescenta Patrícia.

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A empresária Marciléia Rosária dos Santos Napoleão também mora em Divinópolis,   cidade conhecida por ser um polo da moda. Ela começou a trabalhar aos 11 anos como babá, foi empregada doméstica e descobriu nas vendas seu maior talento.

Depois de trabalhar como vendedora de cosméticos e lingeries, desde 2011, a empreendedora tem uma loja que vende modinha e roupas infantis, a Bem me Quer, que em breve deve mudar de nome.

Para formalizar o negócio e ter sucesso em seu empreendimento, Marciléia buscou apoio no Sebrae Minas. “O Sebrae me ajudou e ainda ajuda com várias consultorias. Me tornei MEI e fiz cursos de finanças. Isso contribuiu bastante”, conta.

Ela diz que no começo abriu uma lojinha na garagem de sua  casa, com ajuda da mãe. “Como sou uma mulher de muita fé, sempre acreditei no trabalho e mantive a esperança em dias melhores. Em 2010, participei de uma promoção feita por um supermercado e ganhei um carro no sorteio.  Em 2011, com a ajuda da minha mãe e o dinheiro da venda do carro, montei minha ,Bem Me Quer”.

Marciléia diz que o perfil de seus clientes tem mudado muito. Ela conta que, no princípio, quando as pessoas entravam na loja e viam que a proprietária era uma negra, “estranhavam, mas não falavam”. “Essas coisas a gente percebe no olhar, né?”, observa.

Atualmente, a empresária tem investido mais em vendas por meio das redes sociais. “Depois que comecei a mostrar mais a minha cara nas redes sociais e apresentar meus produtos, percebo que os negros têm procurado mais minha loja e comprado mais. É como se eles se sentissem mais à vontade por sermos iguais. E já estou até pensando em mudar o nome do estabelecimento, mas ainda não defini qual será”, diz.

Visão educadora

Márcia Lúcia da Silva é professora de Língua Portuguesa e Literatura e trabalha com alunos do ensino fundamental e médio da rede estadual de Minas Gerais. Ela conta que os anos de experiência em sala de aula provaram inúmeras vezes que a educação é capaz de mudar uma vida.

“Convivo com jovens de todas as classes sociais. Não sei ainda com exatidão, mas percebo que a valorização da raça negra trouxe para esta comunidade o desejo de empreender. Os pátios da escola estão repletos de empreendedores, vendedores e articuladores”, observa.

A educadora acredita que é hora de o mercado ter um olhar mais apurado para o público jovem negro. “Mas, para isso, também é preciso que as escolas profissionalizantes sejam mais diversificadas e ativas. Os bancos de dados digitais precisam captar e encaminhar esses jovens para as empresas corretas. E formar empresários e ter empreendedores na empresa é buscar expansão  mercadológica. Todo mundo lucra”, conclui.

Em números

Segundo dados do estudo Empreendedorismo Negro no Brasil, realizado pela aceleradora de empresários negros PretaHub, da Feira Preta, em parceria com a Plano CDE e o JP Morgan, empreendedoras e empreendedores negros movimentam R$ 1,7 trilhão por ano no Brasil e mais da metade – cerca de 51% dos brasileiros que empreendem – são pretos ou pardos. Destes, 52% são mulheres.

Por outro lado, esses mesmos empreendedores enfrentam muito mais dificuldades para investir, faturam menos e poucos empregam ao menos um funcionário.

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