sexta-feira, 17 de Agosto de 2012 11:17h Gazeta do Oeste

Shopping para animais oferece serviços vip

Em frente ao elevador, no térreo, Lord, um jack russel invocado de 11 meses, faz uso do banheiro colorido. Na companhia do médico Leonardo Cintra, de 28, o cão saiu do Bairro Santa Efigênia para conhecer o lugar.

Manobrista, salão de festas, atendimento médico, terapia, escolinha e até motel. Tantos serviços não são para os humanos, mas para animais. A inauguração de um prédio exclusivo para atendimento veterinário tem mostrado que, em Belo Horizonte, sobram donos dispostos a dar tratamento vip a seus bichos de estimação. “Olhar fundo nos olhos dos animais é ver além do que se pode pensar,” diz a artista plástica Constância Vasconcelos Gomes, de passagem com a filha, Camila, de 29 anos, pelo edifício de oito andares no Bairro Gutierrez, na Região Centro-Sul. A família veio do Condomínio Alphaville, em Nova Lima, para conhecer a novidade e buscar ajuda profissional para a reeducação da maltês Frida, serelepe e “impossível”. “É ela quem manda lá em casa”, diverte-se Constância.

 

 

Com os pequenos, muitas histórias. Antes de Frida, tinham a poodle Mimi, morta em 25 de agosto de 2009, aos 16 anos. “Há uma relação muito especial entre o homem e o animal. Tem gente que não está preparado para isso”, considera a artista plástica, saudosa, ao se lembrar dos últimos tempos da família com a pequena de estimação. “Ela estava bem velhinha. Meu marido, uma semana antes, comentou com tristeza que talvez a gente tivesse que sacrificá-la. Ela já estava surda e muda. Aí, um dia, a encontramos sem vida na piscina. Ela foi tão generosa que, para poupar a gente, simplesmente partiu”, emociona-se. A filha conta que as cinzas de Mimi foram jogadas no jardim. “Em seguida, o tempo fechou e choveu por cinco minutos”, conta Camila.

 

Só quem viveu passagens assim, de alegria e dor, é capaz de entender os mimos do edifício inaugurado há menos de um mês na Avenida do Contorno. Há até motel decorado, temático, com supervisão veterinária para cruzamento, gestação e parto. No “andar do cão” há sala de terapias com ofurô, toalhinhas especiais, velas e rosas. Tem mais: praça de alimentação, com comidas e bebidas para os pequenos. Pão de queijo, biscoitos, petiscos, bolinhos de espinafre, laranja, chocolate, água mineral e cerveja sem álcool. “E vão chegar vinhos, sorvetes e picolés, produzidos especialmente para os cachorros”, conta Edvar Magalhães, de 53, no balcão, entusiasmado com o empreendimento.

 

 

Em frente ao elevador, no térreo, Lord, um jack russel invocado de 11 meses, faz uso do banheiro colorido. Na companhia do médico Leonardo Cintra, de 28, o cão saiu do Bairro Santa Efigênia para conhecer o lugar. Longe das broncas ou dos olhares de quem é avesso aos bichos de estimação, Lord se mostra inteiramente à vontade até para mordiscar a equipe de reportagem. De brincadeira, claro. O “rapazinho” está feliz com a tarde de folga do dono, chegado recentemente de residência no Hospital das Clínicas do Espírito Santo. “Isso aqui é inovador, chega a ser excêntrico”, comenta o jovem doutor, que vê em Lord, companheiro, um divisor de águas em sua história. “Minha vida mudou muito com a chegada dele. E para melhor”, ressalta.

 

Família

 

 

À espera do banho, no subsolo, piso de estética canina, está Boris. O schnauzer, de 8 anos, tem problema no fígado e precisa de alimentação especial. O espaço foi um achado para Flávia Mari e a mãe, Maria Odete, do Bairro Santo Antônio. Dedicadas, querem o melhor para o “mocinho”. Para Flávia, jornalista, não há nada de mais em tratar os bichos como humanos. “É muito difícil, para quem gosta, fazer essa separação racional. Claro que não é a mesma coisa. Mas é um integrante da família. Há uma relação de comunicação, a gente passa a se conhecer melhor”, considera. Em mais de 30 anos, Boris é o quarto animal de estimação da casa de Maria Odete. “Sem dúvida, o mais humano de todos”, afirma Flávia.

 

Não são os cães os donos da cena no segundo andar. São dois peixes de família que rodaram o mundo em filme de animação. No aquário marinho de 500 litros, o peixe-palhaço e o epatos – célebres por Procurando Nemo, da Pixar, ganhador do Oscar de 2004 – não passam despercebidos. “Olha, o Nemo e a Dóris!”, diz a moça de olhar luminoso. Ao fundo, os diamantes-corujinhas também chamam a atenção. São pássaros pequenos, empoleirados, muito parecidos com as belas aves que os nomeiam. Logo acima, no terceiro piso, o território é dos gatos: móveis e acessórios planejados, com arranhadores de luxo, em estampas de oncinhas, em meio aos brinquedos e passatempos coloridos, pensados exclusivamente para os bichanos.

 

 

Batendo bola

 

Para entrar na escola, os cães têm que fazer uma espécie de vestibular. Eles são avaliados quanto ao nível de ansiedade, agressividade e socialização. A partir daí, o tratamento é traçado. A primeira lição parece fácil: passear. É nesse tempo de recreação que eles se enturmam e mantêm a linha das quatro patas. Em campo, fazendo bonito para a adestradora Valéria Brasil, de 38, Marley, Thor, Lucky, Lolita, Skol e Bombom. Lucky, o samoieda, da família dos siberianos, dá sinais de que aprender é com ele.

 

 

No rastro da bola, Lucky obedece e impressiona a plateia de seis filhotes, acomodada no canteiro de frente para a área de lazer e treinamento. Zeus, o dálmata de olho azul, e seus companheiros de outras raças – buldogue francês, teckel e xitzu – estão tão atentos às peripécias do samoieda que parecem estar ali, sentados, especialmente para o show do colega galhardo. A adestradora, apaixonada pelo ofício, fala da orientação: “A gente ensina para que o cão saiba como se comportar. Para que o dono leve o animal para passear e não o contrário”. Em casa, Valéria tem três assistentes, galgos, na educação de seus alunos. Os animais, educados, ensinam uns aos outros.

 

 

 

 

 

 

 

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