sábado, 17 de Novembro de 2012 05:32h Gazeta do Oeste

Show no Independência mostra que problemas não se restringirão aos jogos

Na Rua Ismênia Tunes, as batidas de house que partiam da Arena Independência reverberavam nas paredes do edifício onde mora o engenheiro Roberto Junqueira, de 57 anos. A cerca de 50 metros do estádio do Horto, na Região Leste de Belo Horizonte, o apartamento chegava a tremer com a vibração, alcançando 82 decibéis segundo medição feita pelo Estado de Minas durante o festival de música eletrônica de quinta-feira, que teve como principal atração o DJ francês David Guetta.
Do outro lado do estádio, na Rua Alexandre Tourinho, na casa do aposentado Romeu Lopes de Oliveira, de 70, os ruídos da música eletrônica não passavam de 65 decibéis, mas o movimento de jovens bebendo, gritando, urinando diante de sua residência e consumindo drogas tornou prisioneiro de casa o homem que vive há 48 anos no endereço com a esposa e a sogra, doente, de 86 anos. O primeiro show realizado na arena depois de a reforma ter sido concluída, em 25 de abril, deixou claro para os moradores, já preocupados com os dias de jogos, que terão mais motivos para dor de cabeça.

Atraída pela apresentação do DJ francês, uma multidão de jovens compareceu ao espaço. O aparato de segurança e de organização do tráfego, constituídos pelo Batalhão de Polícia de Trânsito, Polícia Militar, BHTrans e Guarda Municipal, impediu que o uso caótico de vagas de estacionamento atrapalhasse a vida e os acessos de moradores do bairro. Os grandes problemas foram mesmo o comportamento da multidão, a sujeira espalhada pelas ruas e o barulho excessivo da música.

Inferno
Para ter uma ideia, os 82 decibéis que infernizaram a noite dentro do apartamento do engenheiro Roberto Junqueira são mais altos do que o ruído produzido por uma furadeira de impacto dentro de seu quarto. “Estou na minha casa e tenho direito de ter tranquilidade e sossego”, protestou. O engenheiro usa próteses nas pernas, que limitam a sua locomoção. “Saio muito pouco de casa. Então, aqui é meu cantinho, onde procuro fazer minhas coisas e viver minha vida”, disse.

Do outro lado, na casa do aposentado Romeu Oliveira, o que mais incomodou foi o vandalismo dos frequentadores do espetáculo. “Quando tem futebol aqui, por incrível que pareça, há menos problema, pois não fica até tarde”, disse. Às suas palavras seguiu-se uma amostra dos constrangimentos enfrentados pelos moradores. O aposentado mostrava as marcas de urina no seu portão quando três jovens, que aparentavam estar sob efeito de substâncias químicas, se aproximaram e começaram a intimidar o homem. “Vocês estão fazendo abaixo-assinado para acabar com os shows? Não vamos dar licença para isso, não”, disse um dos mais exaltados, um rapaz com cerca de 1,90 metro de altura, assustando o morador.

Outro grupo que passava se sentiu ofendido e uma discussão quase se tornou briga. “Sou morador daqui também e todos têm direito de dizer o que acham e reclamar se isso incomoda”, berrou um dos jovens do outro grupo. A confusão acabou apartada por pessoas próximas e pelo próprio aposentado.

As brigas e atitudes que incomodam a vizinhança têm relação direta com o consumo de álcool e substâncias entorpecentes. “Vi da minha casa quando um rapaz de boné abriu a mão com um tanto de comprimidos e cada hora uma garoto ou garota pegava e tomava a droga”, conta o engenheiro Roberto Junqueira.

Pouco depois da confusão, as kombis do Juizado da Infância e da Adolescência passaram com delegados e agentes pela multidão. O que se viu foram muitos adolescentes jogando fora garrafas de bebidas alcoólicas e de refrigerante turbinadas com bebidas destiladas. Um deles, de 17 anos, foi surpreendido pela aproximação dos fiscais do juizado e não teve tempo de se livrar da bebida. Acabou levado pelos agentes, que fariam contato com seus pais ou responsáveis.

Síndica do edifício da Rua Ismênia Tunes onde mora o engenheiro Roberto Junqueira, Rebeca Rosa conta que nenhum dos moradores dos 140 apartamentos foi consultado ou chamado para reuniões antes desse evento. Ela e Junqueira apresentaram atas de reuniões, com a presença de autoridades públicas e responsáveis pelo estádio, atestando que não haveria shows na arena reformada, apenas jogos e feiras diurnas. A BWA, que administra o Independência, foi procurada, mas ninguém que a representasse foi encontrado ontem pela reportagem para comentar o assunto.

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