sexta-feira, 19 de Junho de 2015 14:14h

Tecnologia digital promete efetivar a interatividade na ponta da tela

Projeto Brasil 4D quer ampliar acesso a serviços públicos por meio da TV. Em entrevista, presidente da Rede Minas, Israel do Vale, fala sobre perspectivas em Minas Gerais

Imagine utilizar a televisão, em sua casa, para buscar oportunidades de emprego, acessar dados da conta corrente de bancos estatais, obter informações sobre programas sociais e, ainda, por exemplo, ter acesso a serviços e políticas públicas. Pois saiba que este já é um cenário possível, por meio do projeto Brasil 4D, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
O projeto Brasil 4D propõe interatividade e orientação sobre serviços públicos a partir da televisão. Em uma 'caixinha' (set-top box) no mesmo molde dos conversores digitais e de TV por assinatura, é instalado o programa Ginga, software livre capaz de se adaptar a televisores, plataformas digitais e dispositivos portáteis. O Ginga, por sua vez, permite a incorporação de aplicativos capazes de garantir a interatividade do sistema digital.
Nacionalmente, o Governo Federal pretende, até o fim de 2018, distribuir os conversores a 14 milhões de beneficiários do Bolsa Família. Em Minas, somente na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), serão 65 mil a receber o conversor. Além disso, no próximo ano, a expectativa é a de que o equipamento também já esteja disponível para compra, por outros usuários, com preço na ordem de R$ 100.
A possibilidade de uma nova dimensão para a TV pública também está mexendo com as perspectivas mineiras. Em entrevista exclusiva ao portal Agência Minas Gerais, o presidente da Rede Minas, Israel do Vale, fala sobre o projeto 4D, suas possibilidades para o público e a possibilidade de o cidadão mineiro chegar a uma outra e nova percepção da política pública e da atuação dos governos. Confira:

Agência Minas Gerais: O projeto Brasil 4D surge para explorar novos níveis de interatividade?
Israel do Vale: O projeto Brasil 4D, da EBC, nasceu para explorar as possibilidades que o sistema operacional brasileiro – Ginga – oferece nesse horizonte que temos, de novas formas de utilização, a partir da TV digital. Já vem sendo experimentado, em fase de testes, em duas cidades satélites do Distrito Federal: Ceilândia e Samambaia. Além disso, também teve uma versão piloto aplicada por período determinado na Paraíba, experiência esta monitorada inclusive pelo Banco Mundial, o que já mostra o potencial, os indicadores que o Brasil 4D teve – e pode ter – na residência das pessoas que passaram a utilizar os recursos na televisão.

Agência Minas Gerais: O que muda com a nova tecnologia? Que exemplos podem ser utilizados para ilustrar o seu funcionamento?
Israel do Vale: A tecnologia só é viável para quem tiver a caixinha (set-top box), semelhante às de TV a cabo. É nela que estão abarcados os aplicativos para as funcionalidades interativas. No Brasil, já há uma decisão do Governo Federal de expandir o alcance desse serviço para os beneficiários do programa Bolsa Família, e uma oportunidade de mercado para a produção e comercialização destes equipamentos a quem puder e quiser adquirir. Quanto ao funcionamento, várias formas de uso já estão sendo testadas, desde a facilidade de acesso à conta corrente (Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal) até a possibilidade de agendamento de consultas no SUS, de procura por emprego via televisão, tudo sem precisar sair de casa. Com o banco de dados atualizado permanentemente, integrado com os órgãos públicos, o equipamento permite ao cidadão, de casa mesmo, encontrar oportunidades que possam ser do seu interesse, de acordo com o seu perfil e região.

Agência Minas Gerais: Seriam esses recursos interativos os principais ganhos para o telespectador e cidadão com essa nova plataforma?
Israel do Vale: Esses seriam os ganhos mais evidentes, a porta de entrada. No entanto, o principal ganho que vejo, num médio prazo, é a mudança de percepção, potencialmente, por exemplo, de como a população enxerga o governo. A partir dessa sinergia entre as possibilidades que a TV oferece, de embarque de soluções de políticas públicas e a entrega disso via televisão na casa das pessoas, a tendência é a de que o cidadão olhe o governo de outra maneira, que possa ver resultados efetivos do que é o trabalho realizado pelo governo e como isso pode gerar benefícios diretos no seu dia e dia.

Agência Minas Gerais: A Rede Minas pretende aderir ao Brasil 4D?
Israel do Vale: O que a gente vem fazendo, no diálogo que vem sendo mantido com a TV Brasil, é, de um lado, demonstrar o nosso interesse em nos integrarmos nessa dinâmica, nesse processo ainda em construção de possibilidades, para ajudar no desenvolvimento, para ter soluções adequadas à realidade de Minas Gerais. De outro lado, a Rede Minas, para incorporar este serviço de oferta de políticas públicas nesta plataforma, depende de um alinhamento com o governo como um todo, para que a atuação não seja isolada e possa ter o efeito desejado. Na Cidade Administrativa, numa conversa de apresentação da ideia, reunimos gestores de instâncias variadas do Estado para apresentar as oportunidades desse serviço e, também, sensibilizar as secretarias quanto à importância de nos posicionarmos nesse cenário.

Agência Minas Gerais: De que forma se daria este processo no Estado?
Israel do Vale: O Brasil 4D traz possibilidades de respostas mais rápidas, não há restrições de uso. Então, pode-se pensar, por exemplo, em um aplicativo voltado para a juventude mineira, partindo de questionamentos como: ‘De que forma o governo espera se relacionar com os jovens?’; ‘Os meios de comunicação são eficientes nessa comunicação com a juventude?’. Pensando alto, seria um caminho pensar na tecnologia para constituir um relacionamento mais continuado, entregar soluções que possam fortalecer a juventude, abrir oportunidades para realização cursos no exterior. Enfim, são inúmeras possibilidades. Basta adequar as diretrizes de cada órgão às facilidades que a televisão pode oferecer. Não podemos perder de vista que o brasileiro é um ser televisivo. Praticamente toda casa no Brasil tem uma TV. Assim, estamos falando de uma capacidade de alcance das políticas públicas que nenhum outro mecanismo teria com tanta rapidez, alcance e capacidade de gerar relacionamento direto com os cidadãos.

Agência Minas Gerais: Quais são as próximas etapas para uma perspectiva de avanço em Minas Gerais?
Israel do Vale: Estamos na fase de apresentação e atraindo parceiros estratégicos do Governo do Estado para esta ideia, para este cenário. Estamos defendendo, na Rede Minas, uma proposta de trazer para Minas Gerais um projeto piloto, que entendemos ser o melhor atalho para envolver de maneira mais ampla as diversas esferas de governo. Assim como a TV Brasil faz nas cidades satélites do Distrito Federal, estamos propondo a implantação do projeto experimental em duas localidades (ainda a ser definidas) e mostrar na prática que, com a novidade do Brasil 4D, de fato, vai se avançar no grande benefício da TV digital, que é a interatividade, a efetiva relação bidirecional, de mão dupla.

Agência Minas Gerais: Como avalia a importância para a Rede Minas e para as TVs públicas dessa conversão de possibilidades do programa Brasil 4D?
Israel do Vale: Hoje, o grande desafio da Rede Minas, assim como de todas as TVs, é resgatar relevância. A chegada da internet (nova ordem digital) implodiu a lógica que se tinha, trouxe a multiplicação de janelas e levou a produção audiovisual para tablets, celulares, etc.. Isso tudo desafia a televisão a se reinventar. Enxergamos a Rede Minas, atualmente, como uma TV que não só desenvolve programas e entrega na casa do telespectador, mas que também atua como plataforma de governança digital. Por isso, o caminho que vejo, do ponto de vista de uma TV pública, cujo maior interesse é prestar serviços aos cidadãos, é este em que cada vez mais atuamos em favor de uma democracia mais participativa, na qual o cidadão assume níveis cada vez mais amplos de protagonismo. Se, hoje, temos recursos para entregar soluções diretamente na casa das pessoas via televisão, temos uma oportunidade gigantesca de dar um salto, e isso justamente num momento em que não há muito para onde correr. Portanto, temos um cenário de desafio e oportunidade. Os movimentos em defesa da democratização das comunicações sempre afirmaram: ‘a TV é um bem da nação’. Temos que buscar permanentemente formas de desenvolver projetos e atuar de maneira que se atenda sempre o interesse público. Este é um caso muito claro de como a televisão pública pode se reposicionar. Não tenho dúvidas do impacto que isso vai ter, inclusive do ponto de vista de audiência. A percepção do cidadão do que seja TV pública – da própria Rede Minas –, com certeza, não será a mesma.

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