terça-feira, 28 de Agosto de 2012 09:03h Gazeta do Oeste

Veterinário procura lobo-guará doente na Serra do Caraça

A presença, na porta do Caraça, do lobo-guará, maior canídeo da América do Sul e típico do cerrado brasileiro, fomentou trabalhos científicos e fortaleceu ações de educação ambiental

O símbolo do Caraça está doente. Personagem mais querido dos turistas que vão ao santuário localizado em Catas Altas, na Região Central do estado, e um visitante noturno do adro da igreja neogótica, onde come, numa bandeja, carne servida pelos padres, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) tem uma ferida, no lado direito do pescoço, que não cicatriza. “É um tumor do tamanho de uma bola de pingue-pongue. Se não for tratado, ele pode morrer”, alerta o médico-veterinário Jean Cristo Teixeira Ciarallo, que, de forma voluntária, vem tentando capturar o animal para fazer exames e os procedimentos necessários. Mesmo com armadilhas e estratégias montadas, o lobo doente é o único da região que a equipe de Jean e do santuário ainda não conseguiram pegar. “Já capturamos e soltamos oito, mas nenhum tinha a ferida. Continuamos nosso objetivo”, afirma o veterinário, residente em Conselheiro Lafaiete.

 

 

No início do ano, ao passar uns dias na pousada do santuário, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, e presenciar o lobo recebendo a carne, Jean notou o machucado. “Vi a ferida vermelha no pescoço e me preocupei. Fiquei sabendo, então, que o animal estava desaparecido desde setembro de 2011 e havia reaparecido em janeiro. Pensavam até que ele tivesse morrido devido ao ferimento. Me ofereci, então, como voluntário para cuidar e notei, com o tempo, que o tumor só aumentava.”

 

Desde então, Jean, dono de uma clínica veterinária na sua cidade, especializada também em cirurgias, tem visitado constantemente o Caraça na esperança de capturar o canídeo. “Levo comigo um centro cirúrgico”, afirma. O bicho, segundo ele, tem entre três e quatro anos de idade e sexo ainda não reconhecido, pois o pelo, muito alto, cobre a genitália. “Uns dizem que é fêmea, mas teremos que saber ao certo”, afirma, destacando que a estratégia, tão logo o lobo-guará apareça, é tentar encurralá-lo num cômodo do santuário, onde eles costumam entrar.

 

 

Embora tenha entre os seus equipamentos um dardo com tranquilizante, o veterinário explica que a prática com zarabatana não resolverá o problema, pois o remédio só faz efeito de 10 a 15 minutos depois de injetado. E o lobo só aparece entre as 20h30 e as 22h, ressalta. Dessa forma, corre-se o risco de o animal fugir, cair no meio do mato e não ser encontrado de noite. Na visualização, o veterinário constatou que tumor é de caráter benigno, embora seja preciso fazer a cirurgia para salvar o animal. Uma nova incursão para tentar pegar o lobo está marcada para o fim de semana prolongado de 7 de setembro. “Ficaremos lá por um período de cinco dias”, adianta.

 


Dócil

 

 

A prática de alimentar o lobo-guará na porta do Santuário do Caraça, onde fica a primeira igreja neogótica do país, começou há 30 anos. Nesse período, visitantes brasileiros e estrangeiros, além de muitas autoridades, como o então governador de Minas, Itamar Franco (1930–2011), admiraram a cena curiosa e peculiar. Num flagrante de 2002, Itamar está entre assessores observando um dos simpáticos lobos-guarás. A coordenadora Ambiental da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça, bióloga Aline Cristine Lopes de Abreu, conta que atualmente aparecem três lobos, um de cada vez, por terem hábitos solitários. Ela explica que, segundo as pesquisas, o hábito de pôr a carne para os animais não interfere no seu comportamento nem diminui o seu poder de caça.

 

A presença, na porta do Caraça, do lobo-guará, maior canídeo da América do Sul e típico do cerrado brasileiro, fomentou trabalhos científicos e fortaleceu ações de educação ambiental, afirma Aline. “Ele um lobo bom, e não um lobo mau. É dócil”, diz a bióloga, Por falta de informações, muitos foram mortos e a espécie entrou na lista dos animais ameaçados de extinção.

 

 

Aproximação paciente

 

O lobo-guará é encontrado do Sul da Amazônia ao Uruguai, excetuando-se o litoral, picos de altitude e a mata atlântica. É canídeo por ser família do cachorro, do cachorro-do-mato, do coiote, do chacal, da raposa e do lobo europeu, norte-americano e canadense, o Canis lupus. E é o maior canídeo da América do Sul, porque a fêmea mede 90cm e o macho 95cm, aproximadamente – e da ponta do focinho até a ponta do rabo, 1,45m. As patas são altas para facilitar o movimento nos campos, já que é um animal do cerrado.

 

 

Os pesquisadores dizem que o Chrysocyon brachyurus não é animal das matas fechadas, mas um espécie campestre, que anda em estradas e trilhas e onde há campos com baixa vegetação. No Caraça, quem se dirigir ao Banho do Belchior, Pinheiros, Tanque Grande, Prainha, Cascatinha e Bocaina poderá ver com muita facilidade as pegadas do lobo-guará. Ele tem quatro dedos, sendo que os dois do meio são um pouco mais juntos, almofadado e com garras.

 

Estima-se que a espécie viva 16 anos, pese em média 25kg e ande 30 quilômetros por noite nas suas caçadas. Trata-se de um animal de hábitos noturnos, mais ágil ao entardecer e ao amanhecer. Durante o dia, fica descansando sobre a relva, deitando-se cada dia em um lugar, jamais em tocas. O Chrysocyon brachyurus é onívoro, ou seja, come de tudo (pequenos animais e aves). “Ele continua caçando, independentemente da comida que nós oferecemos a ele. Essa comida não o deixa dependente dos padres. Dos pequenos animais, ele come rato, gambá, coelho, coelho-do-mato, preá, cobra, sapo; das aves, jacu, saracura e outras. Por sinal, precisa dos pelos dos animais e das penas das aves para facilitar os movimentos peristálticos, da digestão”, informa a coordenadora Ambiental da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça, bióloga Aline Cristine Lopes de Abreu. A área tem 11,2 mil hectares. O lobo-guará come também frutas, como a fruta-do-lobo ou lobeira, pêssego, maracujá, goiaba etc. Além disso, é atraído por cheiros fortes, como o de frutas e comida apodrecendo, motivo pelo qual costuma revirar as lixeiras.

 

 

Solitário

 

O lobo-guará não vive em alcateia. Também não uiva, late. Territorialista, demarca a área com urina. O acasalamento ocorre em abril e maio. Os pesquisadores sabem disso, porque ele ac ontece quando o macho e a fêmea começam a andar juntos. A gestação dura de 62 a 65 dias. Os filhotes, de um a três, nascem cinza-escuros e são colocados em buracos, às vezes, de cupinzeiros, para ficar mais protegidos. Por dois a três meses, são alimentados pelos pais, que regurgitam o que comem para eles. Depois começam a fazer pequenas caminhadas com a fêmea, até que, no quinto e sexto mês, começam a caçar. No Caraça, passam a subir as escadas da igreja. Uma fêmea, diz Aline, já foi vista empurrando com o focinho um filhote de degrau em degrau.

 

 

A aparição de lobos-guarás no Caraça começou em maio de 1982, quando algumas lixeiras começaram a aparecer reviradas e derrubadas. O irmão Thomaz falou ao padre Tobias, superior na época, que devia ser cachorro. Padre Tobias achou muito difícil, porque cachorro não subiria a serra com tanta frequência. Começaram a observar e descobriram que o responsável erao Chrysocyon brachyurus. “Aí começaram a colocar uma bandeja de carne em cada portão e elas amanheciam mexidas. Foram aproximando as bandejas da escada da igreja e, por algum tempo, os lobos foram alimentados lá embaixo. Até que resolveram subir com a bandeja. A bandeja subiu, o padre subiu, o lobo subiu!”, conclui a bióloga. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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