segunda-feira, 3 de Setembro de 2012 09:28h Gazeta do Oeste

Viaduto das Almas está entregue ao esquecimento

Sob a estrutura macabra, o Córrego das Almas, do qual tiraram o nome para apelidar o Vila Rica, corre límpido e sem culpa. Suas parcas águas já não precisam mais lavar o sangue das tragédias.

Inaugurado em 1º de fevereiro de 1957, ele não tem vida própria e, mesmo não sendo capaz de tomar decisões, começou a ganhar fama de matador em 20 de julho de 1958. Naquele dia, o pequeno fazendeiro José Alves foi o primeiro a perder a vida ao tentar atravessá-lo, ao volante de uma caminhonete. O Viaduto Vila Rica, mais conhecido como Viaduto das Almas, que se tornou tristemente célebre ao produzir viúvas e órfãos em série, hoje está entregue ao esquecimento e ao abandono. Nem espírito dos mortos atribuídos à sua existência ousa frequentá-lo, nem sequer nas noites claras de lua cheia.

 

 

Tem-se a impressão de que o Vila Rica, fechado ao tráfego desde 26 de setembro de 2010, apodrece mais rapidamente do que quando os pneus das carretas limavam seu asfalto e lambiam as baixas e frágeis muretas de proteção. Percorrer seus 262 metros, hoje, só a pé ou pedalando. Somando sua extensão aos pedaços da BR-040, nas duas cabeças de pista, lacrados depois da inauguração do Viaduto Engenheiro Márcio Rocha Martins, a caminhada, a passos lentos, dura cerca de uma hora.

 

Eucaliptos emolduram o passeio de quem ousa desafiar seu silêncio nos dias úteis. Nos fins de semana, bando de jovens leva a algazarra ao viaduto. Os 30 metros de altura são propícios à prática de rapel. O vento que desce das montanhas raramente dá uma trégua às folhagens. A natureza começa a tomar conta do espaço que estava emprestado ao homem. A chuva deposita terra, folhas e pedregulhos sobre o asfalto e o piso do viaduto.

 

 

A única lembrança de que ali passavam milhares de veículos por dia, além da estrutura de concreto, é um pedaço de mola deixado por caminhão numa das temidas descidas rumo à estreita pista do Vila Rica. Tão estreita que é difícil imaginar que por ali cruzavam-se carretas de 30 toneladas e ônibus com até 50 passageiros. Impossível não pensar em tragédias, como a que levou a atriz Zélia Marinho e mais 13 pessoas, em 1967, e o que tirou a vida, dois anos depois, do cantor Mário Albertini e mais 29. Zélia e Mário eram estrelas da TV Itacolomi.

 

O vento, único a interromper o silêncio, derruba um eucalipto magro sobre a pista. Um recado para lembrar que ali, velocidade e força agora é só com ele. As quaresmeiras, floridas entre as árvores, amenizam o clima lúgubre. E dá medo percorrer, mesmo a pé, os maltratados e corroídos 262 metros de concreto. No que sobrou das muretas, as provas do improviso: fios de arame e pedaços de madeira ajudavam a segurá-las naquele tráfego infernal.

 

 

O que não era visível sob as rodas de pelo menos 20 mil veículos diários torna-se claro na encurvada solidão de concreto. No meio da pista, uma fissura de lado a lado. O Viaduto das Almas estava realmente condenado. Se não estivesse interditado, a conta dos mortos certamente subiria. Nos 53 anos do elevado, o Estado de Minas contou as histórias de 75 mortos. Foram quase 200, na estimativa da Associação Brasileira dos Caminhoneiros. A Polícia Rodoviária Federal e o Dnit não tinham, na época, estatísticas sobre o número de vítimas de acidentes no viaduto.

 

Sob a estrutura macabra, o Córrego das Almas, do qual tiraram o nome para apelidar o Vila Rica, corre límpido e sem culpa. Suas parcas águas já não precisam mais lavar o sangue das tragédias. A não ser que o novo viaduto seja também sufocado e se transforme em matador. O Viaduto Vila Rica, que não suscita nenhuma boa lembrança, saiu das mãos do Dnit. Está, agora, integrado ao conjunto do patrimônio arquitetônico da União. Ninguém sabe o que será feito dele. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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