terça-feira, 30 de Agosto de 2016 15:50h Pollyanna Martins

De canto a canto são encontrados problemas de infraestrutura em Divinópolis

POR POLLYANNA MARTINS

pollyanna.martins@gazetaoeste.com.br

 

De canto a canto de Divinópolis são encontrados problemas de infraestrutura. A cidade, com mais de 230 mil habitantes e que arrecada cerca de R$ 25 milhões com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), acumula problemas como esgoto, ruas sem calçamento ou asfalto, mato alto, drenagem pluvial, entre outros. Na terceira matéria da série “Precariedade dos Bairros”, nossa reportagem mostra a situação de seis dos 35 bairros da região nordeste de Divinópolis. O primeiro bairro visitado foi o Grajaú, que espera por melhorias há mais de 40 anos. Há dois anos, o Gazeta do Oeste acompanha a situação do bairro e o drama que a dona de casa Fabiana Cardoso vive.

A dona de casa mora na Rua Quatro e a via, assim como outras da região, está tomada por buracos, e somente motocicletas passam, mesmo assim, o motorista deve ter a atenção redobrada. Em setembro de 2014, Fabiana disse que o maior problema que os moradores do bairro enfrentavam era o esgoto, que escorria a céu, devido à falta de limpeza das fossas das residências. O serviço deveria ser feito pela Prefeitura, mas os moradores encontram obstáculos no caminho quando solicitam o trabalho. “A gente liga na Prefeitura, eles falam que é a Copasa, a gente liga na Copasa, eles jogam para a Prefeitura, e a fossa fica aí, até transbordar e vazar. Aí a gente fica dias sem poder usar o banheiro”, relatou.

Quase dois anos depois da primeira matéria feita pelo Gazeta do Oeste, a situação da rua da dona de casa continua a mesma. Nenhuma melhoria chegou ao bairro. Fabiana não sabe nem apontar qual o maior problema de infraestrutura que ela e os vizinhos enfrentam. O mato que tomava conta da rua em setembro do ano passado teve que ser retirado pelos próprios moradores. “Se for para falar qual o maior problema de infraestrutura do bairro nós vamos ficar aqui o dia inteiro. Aqui não tem nada, o IPTU vem e a gente não tem nada na porta de casa. O mato que estava aqui na porta nós e os vizinhos de baixo que tivemos que capinar. O vizinho aqui do lado é que roça os lotes aqui em volta, porque a gente não aguenta de mato e bicho dentro de casa”, relata.

 

POSTO DE SAÚDE

 

De acordo com a dona de casa, falta saneamento básico, iluminação pública, asfalto no bairro, e agora os moradores não têm mais atendimento no posto de saúde. O serviço ficará suspenso no bairro Jardim Candidés – onde era feito o atendimento dos moradores – por dois meses, após um homem quebrar objetos no posto de saúde, no dia 18 de agosto. “Depois do que aconteceu, fecharam o posto de saúde. Mas por quê? Nada justifica o que o homem fez, mas o atendimento lá é péssimo. A médica atende do jeito dela, você fala as coisas com ela, fala ‘estou sentindo isso’, e ela responde: ‘mentira, isso não é nada não’”, relata.

Fabiana conta que a cerca de três meses precisou de atendimento médico para o filho e foi mal atendida no posto de saúde. Segundo a dona de casa, o filho desenvolveu uma ferida nas nádegas e o machucado infeccionou. Fabiana relembra que, após três dias tratando a ferida em casa, ela procurou atendimento médico e, durante a consulta, a médica não colocou as mãos na criança, e disse que o que ele tinha era manha. “Ela falou que o meu filho estava com manha e quis tratá-lo com dipirona. No dia da consulta, sentada ela estava, sentada ela ficou, não colocou a mão nele. Eu que abaixei a calça dele e ela olhou de longe e falou que não era nada, que era normal”, conta.

Sem conseguir um atendimento adequado para o filho e com a criança sentindo dores, a dona de casa procurou o posto de saúde mais uma vez, porém solicitou uma consulta com um pediatra em outro posto de saúde. Conforme Fabiana, o filho foi atendido por uma pediatra no posto de saúde do bairro Ipiranga, que ficou horrorizada com a situação que a criança estava. “A médica me perguntou: ‘por que ficou desse jeito?’. Eu falei que ficou do jeito que estava, porque, desde que começou, a médica do posto de saúde daqui falou que não era nada, que era manha”, relembra.

Segundo a dona de casa, o filho precisa de uma cirurgia para a retirada da ferida, porém a médica explicou que o procedimento só poderia ser feito após a infecção ser tratada. A pediatra receitou os antibióticos e fez o encaminhamento para o cirurgião, mas quase três meses após o primeiro atendimento, a criança não foi atendida até hoje. “O papel para marcar a consulta com o cirurgião está aqui no posto até hoje. Será que a Secretaria [Municipal] de Saúde sabe do péssimo atendimento que tem no posto de saúde. A gente levanta cedo para conseguir atendimento e é mal atendido”, reclama. Além de reclamar do atendimento feito pelos funcionários do posto de saúde, a moradora reclama ainda sobre a transferência do atendimento para o posto de saúde do bairro Niterói. Fabiana questiona por que transferiram os moradores para um posto de saúde distante, sendo que há o posto de saúde do bairro Primavera, próximo ao bairro Grajaú. “Tem posto de saúde no [bairro] Primavera, por que não mandaram a gente pra lá? Se a pessoa tiver três crianças em casa, são quatro passagens de ônibus de ida e volta, a mãe e os filhos. Quem vai pagar as passagens de ônibus?”, questiona.

 

SÃO SIMÃO

 

Nossa reportagem percorreu pelos bairros Del Rey, Primavera, Jardim dos Candidés e São Simão e a situação de todos são semelhantes à do bairro Grajaú. O empresário Rogério Teodoro dos Santos mora no bairro há quatro anos, mas tem a irmã que mora há vinte anos na mesma rua. Em algumas ruas é impossível entrar com um veículo, pois as crateras tomaram conta. Promessas de políticos em época de eleição, o empresário já perdeu as contas de quantas foram feitas. Cansado de esperar por melhorias, o Rogério e seus vizinhos pagam para ter um pouco de infraestrutura no bairro. “Aqui, se a gente quer ter lote limpo, a gente que tem que pagar. Eu pago R$ 150 para um rapaz limpar os lotes ao lado da minha casa e o de frente e o vizinho do outro quarteirão paga pra limpar do quarteirão dele, porque é insuportável o tanto de cobra, aranha e escorpião que entra em casa”, reclama. Indignado com a situação, o empresário dispara. “Como que a gente pode pagar imposto vivendo desse jeito? A iluminação pública aqui é precária também, dá medo de sair na rua à noite; se a gente quer um refrigerante, tem que andar até o [bairro] Candidés, posto de saúde é lá também. Nós não temos nada aqui. Eu troco com os moradores do Centro o asfalto deles que está soltando por essa lama que está aqui”, enfatiza.

 

SÃO LUIZ

 

Em meio à infraestrutura do bairro São Luiz, está escondida a Rua Beira Alta. Há mais de 20 anos os moradores aguardam por melhorias, mas, ao que tudo indica, terão que pagar para recebê-las. Há mais de três anos, o Gazeta do Oeste mostrou a situação da via, que estava com mato alto, esgoto escorrendo a céu aberto e a iluminação pública era precária. O tecelão Décio José de Oliveira mora na rua há mais de 20 anos e conta que a situação nunca melhorou. Para tentar diminuir o problema de buracos na rua, ele e os vizinhos é que fazem a manutenção da via, com a retirada do mato e jogando terra nos buracos. “A Prefeitura ofereceu para a gente fazer o calçamento compartilhado, porque ela mesma não ia fazer não. Perto da eleição, o pessoal vem aqui, dá uma limpeza mais ou menos e depois some. A gente é que tem que limpar, roçar aqui”, conta. Conforme Décio, em época de chuva, veículos não passam na rua, pois o barro toma conta. Para a água não entrar nas casas, é preciso abrir valetas na rua para que ela escorra. Cansado de esperar por melhorias, o tecelão diz que não tem mais esperança de que a situação mude. “São 20 anos desse jeito, e é só essa Rua Beira Alta que é judiada, o resto das ruas são todas calçadas. Se a gente quiser melhorar, nós vamos ter que pagar, mas a gente não tem condições. Eu não tenho mais esperança de melhorias, a gente já pelejou e nada mudou, não muda mais”, lamenta.

 

PREFEITURA

 

A Prefeitura de Divinópolis informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que os moradores do bairro Candidés são atendidos na Equipe de Estratégia da Saúde (ESF) do bairro Niterói. A Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) e a Associação dos Moradores do Bairro Candidés iniciaram encontros para definirem qual será o próximo passo. Quanto à infraestrutura das ruas dos bairros Grajaú e São Simão, a assessoria disse que a 2ª etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Saneamento vai beneficiar os bairros Grajaú, São Simão, Terra Azul e Candidés. “As obras estão programadas para começarem em outubro. A drenagem e pavimentação serão realizadas nos bairros Grajaú, São Simão e Terra Azul. Serão complementados com drenagem os bairros Jardinópolis e Jardim Candidés”. Quanto ao bairro São Luiz, o órgão informou que “a Prefeitura de Divinópolis disponibiliza a Parceria Público-Privada para pavimentação poliédrica. Os moradores precisam procurar a Diretoria de Relações Institucionais e Comunitárias da Prefeitura para buscarem informações sobre o projeto”.

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