quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 16:21h Pollyanna Martins

Família obrigada a abrir cova no cemitério de Ermida pede justiça

O caso ocorreu na manhã do último sábado (27), durante o enterro de uma mulher. O coveiro não fez a cova em um tamanho que coubesse o caixão e a família teve que fazer o serviço

POR POLLYANNA MARTINS

pollyanna.martins@gazetaoeste.com.br

 

O coveiro, Geraldo Ribeiro Cunha, que se negou a abrir uma cova no cemitério de Ermida, na manhã do último sábado (27), pode ser exonerado do cargo. O caso chocante ocorreu durante o sepultamento de Maria Célia, de 48 anos. Conforme o sobrinho de Maria, Diego Henrique, a mulher faleceu na tarde de sexta-feira (26), na Unidade de Pronto Atendimento Padre Roberto (UPA 24h), vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O velório de Maria Célia foi realizado durante a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado, e o enterro estava marcado para 10h de sábado. De acordo com Diego, ao chegarem ao cemitério, a família e os amigos de Maria Célia foram surpreendidos com o tamanho da cova aberta pelo coveiro. “Chegamos ao cemitério, abrimos o caixão para fazer a despedida final, e o pessoal começou a perceber que a cova estava rasa e estreita. Então comentamos que o caixão não ia caber naquela cova”, conta.

Segundo o sobrinho de Maria Célia, o coveiro, Geraldo Ribeiro Cunha, era o responsável por abrir a cova e, ao ser questionado sobre o serviço feito, disse apenas que a terra estava dura e que não havia ferramentas para fazer a cova. “Ele alegava que não havia ferramentas a todo o momento. Nós andamos por todo cemitério e encontramos várias pás e enxadas guardadas em um túmulo. Ele tinha tudo para abrir a cova”, relata. De acordo com Diego, o coveiro cruzou os braços, encostou-se a um túmulo e acendeu um cigarro de palha, enquanto a família, revoltada, começou a abrir a cova para que o sepultamento de Maria Célia fosse realizado. “Em momento algum ele se dispôs a ajudar. Eu fiquei revoltado com a situação e comecei a filmar”, relembra. Durante as gravações feitas pelo sobrinho de Maria Célia, ele questiona ao coveiro se ele está sob o efeito de álcool e se ele irá ajudar a família a executar o serviço, mas Geraldo ironiza da situação e chega a dizer que “eu achei que caberia [o caixão]”. “Eu perguntei por que ele não ia fazer o serviço e ele respondeu ‘ah, é porque são meus amigos, eles estão cavando, estão me ajudando’, mas não éramos amigos dele”, informa.

Ainda nas filmagens feitas por Diego, o coveiro é questionado sobre o tempo em que trabalha no cemitério, ao que ele responde “há dois anos”. O sobrinho de Maria Célia pergunta ainda quantas covas ele já fez no local, e Geraldo responde “muitas”; Diego questiona também por que o servidor não fez a cova da tia e o coveiro responde “eu achei que iria caber”. “O corpo ficou no sol por 50 minutos, enquanto a família e os amigos abriam a cova para enterrar a minha tia”, conta. De acordo com Diego, durante os questionamentos, os familiares disseram que iriam acionar a Polícia Militar (PM) e registrar um boletim de ocorrência sobre a situação, momento este em que a filha de Geraldo entrou no cemitério, começou a gritar e usar palavras de baixo calão para ofender os familiares e amigos de Maria Célia. “Eu falei que ia chamar a polícia, a filha dele passava na hora, ouviu, entrou no cemitério e começou a gritar palavrões, nos ofendendo e atrapalhando o enterro”, narra. O irmão de Diego conteve a mulher e a retirou do cemitério. Após o enterro, os familiares de Maria Célia registraram um Boletim de Ocorrência e esperam justiça. “Nós estamos revoltados, nos sentimos humilhados, porque já era um momento de dor, de tristeza, e a família ainda tem que passar por um momento desses por causa do coveiro e com a filha dele, que chegou gritando palavrões e causando um alvoroço no enterro. Nós queremos justiça e que o responsável pelo fato pague por isso”, garante.

 

OUTROS PROBLEMAS

 

O sobrinho de Maria Célia relata que os problemas com o cemitério de Ermida são recorrentes. Em fevereiro do ano passado, Diego denunciou a situação de descaso e abandono do local e mostrou vários caixões abertos, lixo e até ossada humana exposta no cemitério. Conforme Diego, ele andou pelo cemitério e fotografou toda a situação. “Eu fotografei um túmulo aberto com ossada humana exposta. O cemitério está jogado às traças há muito tempo”, reclama. De acordo com o sobrinho de Maria Célia, esta não é a primeira vez que uma família tem problemas para enterrar um ente querido, porém, os outros casos não foram registrados nem na Prefeitura, nem na Polícia Militar. Diego conta que já conversou com outras pessoas, que relataram a situação humilhante que viveram. “Já tem outros casos, mas a Prefeitura não foi notificada. Eu conversei com um senhor e ele me contou que teve de ir à casa do coveiro e obrigá-lo a ir ao cemitério, porque ele estava se recusando a abrir a tampa de um túmulo para ser feito o enterro”, conta.

 

MUNICÍPIO

 

Diante da repercussão do caso, o Secretário Municipal de Agronegócios, Moisés Soares, convocou uma coletiva de imprensa para se pronunciar sobre o acontecido. Conforme Moisés, o coveiro, que é servidor celetista do município há 36 anos, alegou que não havia ferramentas disponíveis para fazer a cova no último sábado (27), porém a versão foi desmentida por imagens divulgadas pela própria família de Maria Célia. O secretário informou ainda que Geraldo foi retirado das funções de coveiro e transferido para outro setor do Executivo. “Essa pessoa já não está trabalhando mais nesta atividade, ela foi transferida para outro setor. Nós o notificamos e solicitamos uma resposta referente ao que está acontecendo, por que aconteceu e, decorrente disto, nós vamos pedir a abertura de um processo administrativo”, informa.

De acordo com Moisés, esta é primeira vez que a Prefeitura de Divinópolis é informada sobre a conduta do servidor, que até então não tinha histórico de problemas no funcionalismo público, e todos os procedimentos cabíveis estão sendo tomados. “Ele foi notificado no dia 30 de agosto e tem cinco dias para apresentar a sua justificativa por escrito dos acontecimentos”, diz. Segundo Moisés, não há um procedimento padrão para a abertura de covas, mas, ao tomar tal atitude, estava ciente das consequências que sofreria. “Ele sabia da situação e sabia também da gravidade que poderia causar e com certeza ele sabe a altura e tamanho de cova, isso é indiscutível”, enfatiza. O secretário frisa ainda que o Executivo se solidariza com a família, e uma das sanções que o processo administrativo poderá resultar é a exoneração do coveiro. “Uma das sanções que podem acontecer é a exoneração do servidor. Mas tem todo um trâmite jurídico, burocrático que tem que acontecer para a situação ser dada como finalizada”, explica.

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