sábado, 3 de Setembro de 2016 12:10h Amilton Augusto

Por que a violência aumenta?

Com aproximadamente 232 mil habitantes, a cidade encabeça a lista de municípios mineiros com o maior índice de crescimento de crimes violentos
AMILTON AUGUSTO
amilton.augusto@gazetaoeste.com.br

 

A violência tem se tornado um assunto cada vez mais rotineiro entre os divinopoli­tanos. Para tentar fugir desse cenário, muitas vezes em vão, comerciantes e cidadãos têm investido pesado em câme­ras de segurança, alarmes, concertinas e até grades de proteção. Com aproximada­mente 232 mil habitantes, a cidade encabeça a lista de municípios mineiros com o maior índice de crescimento de crimes violentos, de acordo com a Secretaria de Estado de Defesa Social – Seds.

Mas, afinal, quais são as causas do crescimento dos índices de violência na cidade, que, até pouco tempo atrás, convivia sem grandes dificul­dades na área de segurança pública? Seria a culpa apenas das forças de segurança? Seria a culpa dos governos muni­cipal e estadual? O que fazer para reverter um quadro cada vez mais preocupante? O Ga­zeta do Oeste conversou com especialistas, cruzou números e informações para tentar responder a essas perguntas. Enfim, existe esperança para a nossa cidade?

ÍNDICES VIOLENTOS

O Mapa da Violência é uma ferramenta utilizada em todo o mundo para fins estatísti­cos sobre crimes violentos. No último Mapa da Violência consolidado, em 2015, Divi­nópolis ocupava uma posição relativamente confortável, na 1.103ª colocação, entre todos os municípios do país. O que chama atenção, entretanto, é como a violência tem aumen­tado, embora ainda não atinja os níveis das grandes cidades ou de municípios da região Nordeste.

Enquanto o aumento de homicídios por arma de fogo no estado de Minas Gerais sofreu uma pequena queda, entre os anos de 2004 e 2014, indo de 17,3 homicídios a cada 100 mil habitantes, para 16,4, Divinópolis seguiu na contramão.

Entre os anos de 2008 e 2015, a cidade registrou um aumento de mais de 50% nas taxas de assassinatos. Enquanto, em 2008, foram 18 assassinatos, o ano de 2015 fechou a conta com mais de 30 vidas ceifadas, de acordo com a Seds.

Já o número de roubos, se torna mais preocupante ainda. Se comparados os anos de 2012 a 2015, o aumento desse crime na cidade foi de mais de 125%. Segundo números da Seds, em 2012, foram registra­dos 406 roubos, contra 916 em 2015. Os casos mais comuns são de roubos de celulares, de veículos, de estabelecimentos comerciais.

CAUSAS DA VIOLÊNCIA

Para tentar esclarecer quais são as principais causas do au­mento da violência na cidade, o Gazeta do Oeste propôs um debate entre especialistas. A discussão é quase unânime para as causas do aumento da violência: o crescimento da população, aliado à baixa oferta de empregos; a falta de incentivo à cultura, esporte e outras atividades para os jovens, em detrimento do incentivo às festas que pro­movem o consumo de bebidas alcóolicas e outras drogas; e as ações do sistema de seguran­ça, que, muitas das vezes, se baseia na repressão.

Para a psicóloga Karla Pa­trícia, especialista em saúde mental, as principais causas da violência, inclusive entre os jovens, é a desigualdade social. “A desigualdade social, que acarreta, em seu trajeto, outros fenômenos igualmente preo­cupantes em uma sociedade. O desemprego, a desigualdade racial, a educação precária, a falta de acesso a serviços públicos de qualidade, dife­renciação de tratamento entre ricos e pobres, entre outros, são as possíveis causas deste contexto”, afirmou.

Para o professor de Filoso­fia, José Heleno Ferreira, a edu­cação é um dos pilares para que a violência possa ser mais bem controlada. “A ausência de perspectivas políticas e econô­micas é um dos fatores que pro­vocam o au­men­to dos índices de vio­lência. Quan­do caem as perspectivas de empregabili­dade, de realização profissio­nal, aumentam os índices de violência. No que se refere es­pecificamente à juventude, há que se considerar a ausência – ou insuficiência – de políticas públicas que ofereçam a esta parce­la da popu­lação acesso ao la­zer, ao espor­te e à parti­cipa­ção em ativi­dades cultu­rais. Há que se considerar ainda a necessi­dade de oferecer às crianças e adolescentes tempos e espa­ços públicos de educação inte­gral. Quanto a isso, não se trata apenas de expandir o tempo escolar, o que poderia levar à expansão de uma experiência que é rejeitada por grande par­te de crianças e adolescentes que questionam o atual mo­delo de escolarização. Nesse sentido, há que se diferenciar educação integral e educação em tempo integral. Ainda que se faça necessário, para aten­der à realidade das famílias contemporâneas, expandir o tempo escolar, é preciso pen­sar numa proposta de educa­ção integral, que considere a formação integral da criança e do adolescente no que diz respeito ao esporte, ao lazer, à cultura, à estética, ao acesso ao conhecimento sistematizado e ao compromisso ético com a construção de uma cultura de paz e a negação da violência”, explicou o professor.

Outro fator importante a ser considerado para o au­mento da violência é a sedu­ção dos jovens por produtos de marcas, por dinheiro e poder. O consumo incenti­vado através das mídias, da televisão, é outro fator a ser considerado quando o assun­to é crescimento da violência. O jovem muitas vezes precisa ostentar artigos caros para se sentir inserido na socieda­de, como explica a psicóloga Karla Patrícia. “Neste caso, é importante observar a socie­dade como um todo, em que o consumismo é cultivado e incentivado como meio de identidade. O adolescente muitas vezes se utiliza do con­sumo como meio de exercer poder, superioridade ou até mesmo forma de inserção social. A subjetividade é um aspecto individual, mas que perpassa pela compreensão da sociedade, onde é influen­ciado pela cultura existente nela” explicou a psicóloga.

A forma de funcionamen­to do sistema de segurança também é outro fator que contribui para o aumento das mazelas na cidade. A ação, muitas das vezes, repressi­va ao jovem de periferia, a incapacidade de reeducar e reinserir o jovem infrator na sociedade são apontados como ingredientes para a cri­minalidade. De acordo com o professor José Heleno Ferreira, o sistema de segurança passa por um problema histórico. “O nosso sistema de segurança, historicamente, se baseia no princípio da vingança e não no princípio da justiça. Ainda que possamos reconhecer avanços em relação a algumas políticas públicas que buscam atender a juventude e a adolescência, podemos perceber com cla­reza o princípio da vingança, em detrimento do princípio da justiça, quando conhece­mos a realidade do sistema carcerário no Brasil, quando percebemos a incapacidade de reeducar e reinserir aqueles e aquelas que são presos e pre­sas à sociedade, quando per­cebemos hiatos das políticas públicas, no que diz respeito ao atendimento a jovens e adolescentes em tratamen­to de dependência química que,quando internados, não têm direito à escolarização, quando percebemos a insufi­ciência de recursos financeiros e humanos nos Centros So­cioeducativos e nos Centros de Referência de Assistência Social”, finalizou.

LINHA DE FRENTE

Na linha de frente do com­bate ao crime e prevenção, está a Polícia Militar. Toda a população, quando se sente ameaçada, liga diretamente para o número 190. De acordo com o assessor de comunica­ção do 23º Batalhão da Polí­cia Militar, Tenente Oliveira, a Polícia Militar tem plena convicção de como anda a cri­minalidade, tanto quanto ao número de ocorrências quan­to ao policial in loco. “Temos acompanhado a evolução da criminalidade e o 190 é o primeiro contato do cidadão que foi vítima de um crime. Temos feito várias operações em toda a cidade, são cerca de 600 operações mensais, como a operação Proteja Seu Bairro, Blitz, Batida Policial, entre outras. Temos a parte preventiva, como é a Rede de Vizinhos Protegidos, que é uma forma de ampliarmos a segurança e conscientização da população”.

Esse aumento na crimina­lidade, segundo o Tenente Oli­veira, não é atribuído a uma causa específica. “A sensação de impunidade tem aumen­tado entre os infratores. Às vezes, por causa da demora no julgamento da ação dele, não dizendo que é culpa do Judiciário, mas essa demora dá a sensação para o infrator de que ele não vai ser penali­zado pelo crime que cometeu, mesmo havendo todas as pro­vas, esse julgamento demora. Enquanto ele não é julgado, o infrator fica em liberdade e comete vários crimes. Em uma pesquisa recente, percebi um menor infrator que teve 19 apreensões feitas pela Polícia Militar em um período de um ano. Neste período, ele não recebeu nenhuma medida so­cioeducativa. Assim acontece com adultos, quando chega a sair a condenação dele, já tem outras várias passagens criminais, boletins de ocor­rência registrados dele como autor. Então essa sensação de impunidade faz com que eles continuem cometendo crimes sem achar que vão ser punidos”.

Para o Tenente, é neces­sária uma celeridade maior na condenação dos infrato­res. “Não adianta ter três mil militares nas ruas, isso não vai impedir o sentimento do infrator de cometer o crime. Temos que ter leis mais rígi­das, aplicabilidade severa, ter um Estado como exemplo de probidade e honestidade nas suas ações. A gente vê pesso­as presas 10, 15 vezes e não resolve. Isso demonstra que não basta um efetivo grande de militares nas ruas, isso é a questão do infrator ficar na rua cometendo novos crimes”, ressalta.

REDES SOCIAIS

São vários os trabalhos que a Polícia Militar realiza na prevenção de crimes, entre elas estão as Batidas Policiais e as blitzen de trânsito, mas os grupos criados nas redes sociais para alertar sobre as blitzen podem atrapalhar o bom resultado das ações dos militares. “É uma questão cul­tural que precisamos resolver nas nossas vidas. Como vamos falar de corrupção se nós, cidadãos comuns, no dia a dia, também ajudamos estas questões? Cobramos muito das pessoas para termos boas condutas, mas nós fomen­tamos estas más condutas, como comprar produtos pi­rateados, estacionar em fila dupla ou em vaga especial, di­zendo que é só um minutinho, etc. As pessoas que formam estes grupos nas redes sociais para falar das ações da Polícia, com a desculpa de dizer que é para ajudar fulano ou ciclano, que está com a documentação atrasada, estão cometendo um crime e fazendo apologia ao crime. Bandidos também têm redes sociais e estão em grupos. Quando são alerta­dos da presença da polícia, eles mudam o trajeto para não passar pela blitz, buscam outro caminho e vão cometer o crime do mesmo jeito e a vítima pode ser você, que alertou da presença da polícia em algum local”, destaca o Tenente.

O militar ainda acrescenta que, com os alertas de blitz, os militares deixam de prender infratores com mandado de prisão em aberto que pode­riam passar pelo local, mas foram informados da presen­ça policial, além de deixar de apreender armas e drogas. “Este tipo de grupo é um desserviço para a população. Estamos em uma inversão de valores, ao invés da população valorizar as ações das autori­dades, ela tentar minar a ação no combate ao crime”, ressalta Oliveira.

TODOS PODEM AJUDAR

“O Estado é responsável pela segurança, mas o com­promisso com este tema é de todos. Vivemos todos em um mesmo ambiente”, ava­lia o tenente e ressalta que todos podem colaborar para vivermos com mais seguran­ça. “Temos o 190, que todos conhecem, e o 181, que é o Disque-Denúncia, onde a população pode ligar e passar informações que ajude no combate à criminalidade. É um canal que a pessoa não precisa se identificar. Podem também evitar participar dos grupos de redes sociais e não passar informações das ações da Polícia Militar. São peque­nas ações, que são de grande valia para ajudar a Polícia Militar a combater o crime”, finaliza o Tenente Oliveira.

Com a colaboração Carina Lelles

 

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