sexta-feira, 26 de Agosto de 2016 17:03h Atualizado em 26 de Agosto de 2016 às 17:06h. Pollyanna Martins

Série especial mostra a precariedade de vários bairros de Divinópolis

POR POLLYANNA MARTINS

pollyanna.martins@gazetaoeste.com.br

 

O Gazeta do Oeste vai mostrar durante cinco edições os problemas de infraestrutura que vários bairros de Divinópolis têm atualmente. Muitos não têm sequer a rede de esgoto interligada em suas casas e convivem com esgoto escorrendo a céu aberto na porta de suas residências. O problema muitas vezes é antigo, e os moradores aguardam por melhorias há mais de 15 anos. Nossa reportagem começou a série pela região sudeste da cidade, que conta com 36 bairros, e três foram visitados. O primeiro bairro em que a nossa reportagem esteve foi o bairro Terra Azul. Logo na entrada do bairro, nos deparamos com muito lixo e, no meio da sujeira, um urubu comia a carcaça de um cachorro, às margens da rua.

Andar de carro pelas ruas exige muita atenção. Os buracos tomaram conta das vias e, muitas vezes, impossibilitam a passagem dos veículos. A dona de casa Maria Helena Moreira mora no bairro há mais de 20 anos e conta que a situação nunca mudou, nenhuma melhoria foi feita. No bairro Terra Azul não existe uma ou duas ruas precárias, todas estão na mesma situação, os buracos e a lama – quando chove – tomam conta. Hoje, com o tempo seco, a poeira ocupa o lugar da lama. Além da má conservação das ruas, os moradores precisam conviver ainda com o esgoto a céu aberto. Por causa disso, os ratos e as baratas invadem as residências do bairro. Revoltada com a situação, a dona de casa afirma que gasta mais dinheiro com materiais de limpeza do que com comida. “Se você quiser, eu te mostro [o comprovante do supermercado]. Tem 20 anos que eu moro aqui e a situação é a mesma, entra ano e sai ano. Nós estamos abandonados”, reclama.

Até andar a pé pelas ruas é perigoso. Os pedestres devem ficar atentos para não caírem em um dos muitos buracos em que o esgoto escorre. O mau cheiro toma conta do bairro, é difícil até respirar. Maria Helena conta que a situação é assim durante todo o dia, mas na parte da manhã o fedor aumenta, e o problema piora com o aparecimento de ratos e baratas. “O dia inteiro, a noite inteira, é esse fedor. O que eu gasto com desinfetante e veneno para barata! Em todas as casas aparecem muitos [ratos e baratas]. Eu já até liguei para a Vigilância Sanitária, para saber o que podia ser feito, mas não tive nem retorno. Eu mantenho a minha casa toda limpa para aparecer esse tanto de bicho”, critica. Em um mês de chuvas, os moradores se preparam para enfrentar o desafio de conseguir pegar ônibus. Como as ruas não têm sequer calçamento, os ônibus não vão a determinados lugares, pois atolam no barro ou quebram. “Quando chove, o ônibus não costuma subir por causa do barro, a gente tem que ir até a rua asfaltada, que é até onde ele passa”, conta.

 

COSTA AZUL

 

O bairro Costa Azul fica ao lado do bairro Terra Azul e enfrenta os mesmos problemas de infraestrutura. O comerciante Orozimbo Martins Guimarães Junior mora no bairro há 15 anos e nunca viu nenhuma melhoria ser feita na região. De acordo com o comerciante, os moradores convivem com a poeira e, se quiserem, têm que jogar água na rua, que é de terra, para amenizar a situação. Para o morador, hoje, os maiores problemas do bairro são a rede de esgoto e a violência, que aumentou no bairro. “Começaram a colocar as manilhas, mas não ligaram as casas na rede. Quando as fossas enchem, nós temos que ligar para a Prefeitura mandar o caminhão limpar, mas esse processo demora uns 15 dias”, relata.

Segundo o comerciante, para evitar que a fossa encha em um menor período de tempo, os moradores ligaram a água das pias do banheiro e da cozinha, e do chuveiro para a rua. “Para não jogar a água dentro da fossa, a água do chuveiro e das pias [os moradores] jogam tudo para a rua. No bairro inteiro tem esgoto escorrendo pelas ruas”, reclama. As ruas do bairro também estão tomadas por buracos, e nem as vias que fazem parte do itinerário do ônibus são calçadas ou asfaltadas. O morador diz que a sensação de andar de ônibus é a mesma que de trator. “Andar de ônibus é a mesma coisa que andar de trator. Dizem que saiu uma verba para asfaltar as ruas aqui, mas nunca que chega. Fica só na promessa”, reprova.

A Prefeitura de Divinópolis arrecada cerca de R$ 25 milhões por ano com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Indignado com a situação, Orozimbo diz que o imposto chega todo ano em sua casa e, apesar de mantê-lo pago em dia, ele não vê nenhum retorno do dinheiro no bairro. “Esse [o IPTU] não falha não. Todo ano chega aqui em casa. Eu pago o IPTU para não ter infraestrutura. Tanto aqui quanto no [bairro] Terra Azul, Maria Peçanha, Quinta das Palmeiras, nenhum recebe melhorias”, detalha.

Além da precariedade, os moradores do bairro Costa Azul agora vivem com o medo da violência. Conforme o comerciante, o número de arrombamentos a casas aumentou nos últimos meses, e agora ele e a vizinhança têm receio de deixar suas residências para fazer um passeio qualquer. Segundo o morador, há poucos dias um vizinho saiu de casa para comprar pão e, quando voltou, se deparou com a residência arrombada. “Ninguém quer sair nem de casa mais, com medo de ter a casa arrombada. Um cliente veio buscar um pão aqui e, quando voltou, a casa estava arrombada, foi questão de 10 minutos”, narra.

 

SÃO BENTO

 

A situação do bairro São Bento chega a ser um pouco pior do que a dos bairros Costa Azul e Terra Azul, pois somente há três meses a água encanada chegou ao bairro. A aposentada, Mercês Maria de Assunção, mora no bairro há 15 anos e conta que a luta por melhorias se arrasta há anos. A aposentada conta que a água encanada chegou há apenas três meses, e que o abastecimento de água era feito por um caminhão-pipa, que passava no bairro a cada 15 dias. Segundo Mercês, ela já foi à Câmara Municipal várias vezes para pedir melhorias para o bairro, mas desistiu após várias negativas. “Desde que eu moro aqui nós lutamos por infraestrutura, e só agora é que a água encanada chegou. Antes era o caminhão-pipa [que fazia o abastecimento], e a água vinha toda suja”, relembra.

Conforme a aposentada, a melhoria veio depois de muita insistência do presidente do bairro, mas o processo para o encanamento da água foi demorado. “Eles [a Copasa] demoraram a colocar o hidrômetro, fizeram as caixas e, depois, demoraram a colocar o medidor de consumo, e só aí que a água veio”, conta. Para a aposentada, os maiores problemas do bairro são transporte público, coleta de lixo e as ruas de terra. De acordo com Mercês, há poucas linhas e horários para atender o bairro, mas, para a aposentada, o pior é o lixo espalhado pelas ruas. “Na minha rua, aqui na frente está puro lixo. Tem cachorro morto, cavalo morto, muita sacola de lixo. A coleta é só segunda e sexta, e o caminhão passa só nessa rua e na de baixo, mas para cima do bairro eles não vão. Quem mora lá em cima tem que trazer o lixo para cá”, revela.

A aposentada descreve ainda o problema que as ruas de terra causam no bairro. Assim como Maria Helena e Orozimbo, Mercês reclama da poeira em tempo seco e da lama em tempo de chuva. Segundo a moradora, quando chove, os residentes ficam sem transporte público, pois o ônibus não consegue ir às ruas do bairro. “Quando chove demais, o ônibus não tem condições de subir aqui e, assim mesmo, quando chove pouco, eles não vêm, porque dizem que a estrada [de acesso ao bairro] fica muito ruim. E com essa poeira a gente não pode nem abrir a casa, porque senão toma conta da casa”, relata.

 

PREFEITURA

 

A Prefeitura de Divinópolis informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a 2ª etapa do Pró-Transporte contempla 10 bairros da Região Sudeste de Divinópolis. De acordo com o cronograma da Usina de Projetos, os bairros beneficiados são: Belvedere, Candelária, Santa Rosa, Dona Rosa, Santa Lúcia, Nova Fortaleza, Grajaú, Nova Holanda, Oliveiras e Nações. “Conforme o relatório apresentado, serão 190 mil metros quadrados de calçamento poliédrico e 90 mil metros quadrados de passeio. Serão 14 mil metros quadrados de asfalto e rede de drenagem com 6 mil metros. O tempo de execução da obra é de 18 meses e a previsão é iniciar os serviços ainda neste segundo semestre”, informa.

© 2009-2016. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.