segunda-feira, 3 de Agosto de 2015 10:17h

“A capacitação e o trabalho mudaram muito a minha cabeça”

Jovem de Brasília cumpriu medida socioeducativa e deixou o mundo das drogas e do crime. Hoje, é aprendiz e quer fazer faculdade de Arquivologia

Há cinco meses, Jonatas*, 17 anos, de Brasília, ganhou a oportunidade de recomeçar e sonhar com uma carreira profissional. Selecionado para trabalhar como aprendiz na Companhia Energética de Brasília (CEB), a vida do jovem tomou um novo rumo. Junto com o trabalho, ele passou por capacitação oferecida pelo Centro de Integração Escola-Empresa (CIEE), que o ajudou a melhorar sua visão do mundo.

Hoje, Jonatas atua na área financeira da CEB montando boletins de caixa e de energia – espécie de arquivo de controle do que ocorre diariamente. “A capacitação e o trabalho mudaram muito a minha cabeça. Como eu usava drogas, isso me ajudou a sair dessa vida. Hoje, sou uma pessoa totalmente nova”, conta O trabalho já mostra para o aprendiz qual o caminho que seguirá após o término do ensino médio no ano que vem. “Quero continuar na área que estou. Vou estudar Arquivologia”.

De acordo com ele, o retorno é maior que os R$ 350 que recebe como salário. “Meu salário é pouco, mas sou eu quem ajuda a minha mãe a pagar alguma conta. Coloco o ticket refeição à disposição dela. O que mais aprendi foi sobre responsabilidade. Tenho cinco irmãos pra ajudar”.

Ao falar sobre os planos para o futuro, Jonatas diz que sempre vai carregar a lembrança do momento em que a sua trajetória de vida começou a mudar. “Acho importante um projeto como esse, porque ocupa a mente do jovem. Hoje, tenho o meu dinheiro e penso no que fazia”, ressalta.

Superando barreiras – O olhar tímido do jovem mostra muito mais do que a vontade de fugir de uma conversa que não traz boas lembranças. Apesar da pouca idade, ele aprendeu com os erros. No passado, Jonatas conheceu as drogas, traficou e chegou a roubar por influência dos amigos, em busca do “próprio dinheiro”.

Detido, ele foi encaminhado para a Unidade de Atendimento em Meio Aberto de Brasília. E, como medida socioeducativa, compareceu à unidade para conversar com especialistas e prestou serviços à comunidade. Os crimes cometidos não causaram mal somente a Jonatas. A família dele também sentiu o golpe. “Depois que eu fui pego pela polícia, meus pais se separaram”.

A mudança na vida do jovem foi acompanhada pela assistente social do CIEE, Alba de Assis. “Quando ele chegou, tinha uma dificuldade enorme de entrosamento. Muitas vezes, jovens como ele são levados para o mundo do crime pela dificuldade de relação em casa”.
Ubirajara Machado/MDS

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Uma vez por semana, todos os aprendizes participam de cursos e encontros no CIEE que contam como hora de trabalho. Alba lembra que Jonatas superou a barreira de comunicação e hoje é o destaque da turma. “Ele não se atrasa e é participativo. A experiência do mundo de trabalho e a capacitação foram muito positivas para a vida dele”.

Aprendizagem – “A aprendizagem é a porta de entrada dos jovens no mercado de trabalho. E deve ser visto como uma importante porta de saída do mundo da violência, ampliando as oportunidades para aqueles que estão cumprindo medidas socioeducativas ou estão internados”, explica o diretor de Inclusão Produtiva do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Luiz Muller.

A Lei da Aprendizagem, aprovada em 2000, determina que empresas de médio e grande porte contratem jovens de 14 a 24 anos, para capacitação profissional (prática e teórica), cumprindo cotas que variam de 5% a 15% do número de funcionários efetivos qualificados. É facultativa a contratação de aprendizes pelas microempresas e empresas de pequeno porte.

Para apoiar que mais de 15 mil jovens e adolescentes possam seguir os passos de Jonatas, por meio da profissionalização e da inclusão no mercado de trabalho, o governo federal apresentou, na terça-feira (28), a primeira etapa do Pronatec Aprendiz na Micro e Pequena Empresa. Com a criação do Pronatec Aprendiz, o governo federal incentiva as micro e pequenas empresas a contratar jovens matriculados na rede pública de ensino, com prioridade para aqueles em situação de vulnerabilidade social, entre eles, beneficiários do Programa Bolsa Família. O curso de qualificação, com carga de 400 horas/aula, é custeado pelo governo federal.

* A reportagem utilizou nome fictício.

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