terça-feira, 14 de Abril de 2015 11:58h

CCBB recebe “Kandinsky: tudo começa num ponto”

Pela primeira vez em Minas Gerais, a exposição apresenta a trajetória do precursor do abstracionismo. Mostra traz textos, sons e imagens

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte, do Circuito Cultural Praça da Liberdade, recebe, a partir desta quarta-feira (15/4), a exposição “Kandinsky: tudo começa num ponto”. A mostra, já visitada por cerca de 600 mil pessoas em Brasília e no Rio de Janeiro, reúne 153 obras e objetos que retratam um pouco da trajetória do precursor do abstracionismo, Wassily Kandinsky, seus contemporâneos e suas influências.
Esse acervo diverso tem como base a coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, enriquecido com obras de mais sete museus da Rússia e coleções procedentes da Alemanha, Áustria, Inglaterra e França.
A exposição teve sua abertura nacional no CCBB de Brasília, passou pelo Rio de Janeiro e permanecerá em Belo Horizonte até o dia 22 de junho. Depois, seguirá para São Paulo, entre nove de julho e 28 de setembro, completando um ciclo expositivo de cerca de dois meses em cada cidade e praticamente de um ano no Brasil.
Única sob vários aspectos, a mostra conta também com o apoio do Banco Votorantim e apresenta uma sequência de quadros do pintor, pensador e escritor Kandinsky, e permite um mergulho nas profundezas do seu universo criativo, nas referências iniciais do artista, colocando lado a lado suas obras e as dos seus contemporâneos, além de peças que são joias da arte popular do Norte da Sibéria e objetos de rituais xamânicos. Emerge daí um Kandinsky que poucos no Ocidente conhecem.
O tempo de permanência das obras no país, praticamente um ano a partir da abertura nacional da exposição em Brasília, também é algo inusitado. Normalmente os museus não costumam ceder suas preciosidades por períodos tão longos.

A trajetória
A proposta curatorial, de Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky, organiza a exposição em cinco blocos, que vão ajudar os visitantes a conhecer não só as principais obras de Kandinsky, mas também suas influências e o relacionamento com outros artistas. Trata-se de um mergulho no mundo que cercou e influenciou o artista. Os blocos são:
- Kandinsky e as raízes de sua obra em relação à cultura popular e o folclore russo;
- Kandinsky e o universo espiritual do xamanismo no Norte da Rússia;
- Kandinsky na Alemanha e as experiências no grupo Der Blaue Reiter, vida em Murnau;
- Diálogo entre música e pintura: a amizade entre Kandinsky e Schonberg;
- Caminhos abertos pela abstração: Kandinsky e seus contemporâneos.
“A maior parte da exposição apresentada ao público brasileiro é dedicada justamente aos pormenores que explicam e completam o nosso conhecimento sobre Kandinsky”, afirma Evgenia Petrova.
No detalhado catálogo da exposição, ela diz: “Ao selecionarmos obras para essa exposição, seguimos a biografia do artista até sua partida definitiva da Rússia, em 1922, e recorremos às suas memórias (“Degraus”), artigos e catálogos das exposições organizadas durante a vida do pintor, especialmente “O Cavaleiro Azul” e o “Salão de Izdebsky”. Como isso nos ajuda a entender Kandinsky? Ao nosso ver, o contexto em meio ao qual Kandinsky se formava como artista plástico é um fator muito importante.”
O diretor geral da exposição, responsável pela concepção do projeto, Rodolfo de Athayde, acredita que “entender esse gênio criativo implica também entender a sensibilidade que marca a arte desde o início do século XX. Esta exposição apresenta o prólogo dessa história enriquecida que é a arte moderna e contemporânea: o modo em que se forjou a passagem para a abstração, os recursos a partir dos quais a figuração deixou de ser a única via possível para representar os estados mais vitais do ser humano e, finalmente, o novo caminho desbravado a partir dessa ruptura”.
O Kandinsky que os brasileiros podem ver no Centro Cultural Banco do Brasil durante vários meses foge, em muitos aspectos, da visão ocidental que se tem sobre o artista. O diretor geral e a coordenadora Ania Rodriguez explicam: “encontraremos também um Kandinsky poético e lírico, no momento de seu auge criativo, no exato instante das suas descobertas. Este é o grande valor deste projeto e da curadoria de Petrova e Kiblitsky: uma exposição forte e desafiadora, que teve de ser defendida com muito tesão e paixão pela arte e pelo conhecimento, fruto de um enorme esforço de todas as partes envolvidas, e é dedicada a um público ávido e cada vez mais exigente como o brasileiro e aberta democraticamente a todos.”
“Kandinsky: tudo começa num ponto” é também resultado da construção de um relacionamento de confiança entre o Museu Estatal Russo de São Petersburgo, o Centro Cultural Banco do Brasil e a Arte A Produções, que realizou a bem sucedida exposição “Virada Russa” (realizada em 2009, no circuito do CCBB).
“Foi a profunda relação de parceria e os valores humanos e artísticos compartilhados com Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky que tornaram possível o sonho de um empreendimento dessa magnitude”, diz Rodolfo de Athayde. Evgenia Petrova, diretora científica do Museu Russo, afirma Athayde “é uma figura lendária que se apresenta aos meus olhos como a “guardiã” dos 400 mil tesouros que sobreviveram a uma revolução social, duas guerras mundiais e a sanha de uma visão autoritária imposta à cultura nos períodos mais controversos da Ex-União Soviética, e sob sua custódia e de muitos outros anônimos foi possível salvar estas obras para o patrimônio cultural da humanidade”.

Resumo biográfico
Kandinsky nasceu em Moscou, em 1866. Aos 20 anos entrou na universidade, para estudar Direito. Casou, formou-se e começou a lecionar, mas a experiência que teve, em 1895, ao visitar a exposição dos impressionistas franceses e assistir à ópera Lohengrin, de Richard Wagner, no Teatro Bolshoi, provocaria uma mudança radical na sua vida.
No ano seguinte mudou-se para Munique, na Alemanha, para estudar pintura. Em 1900 Kandinsky entra na Academia de Artes de Munique, para estudar com o já renomado Franz Stuck. Nesse período conheceu uma jovem artista, Gabriele Münter, e em 1903, já divorciado, passou a viver com ela. Viajaram pela Europa, pintando e participando de exposições.
As habilidades de mobilização e criatividade de Kandinsky sempre atraíram outros artistas, irrequietos como ele e Gabriele. Eles criaram e participaram de vários grupos e, em 1911, com Franz Marc, criaram um grupo chamado Der Blaue Reiter (Cavaleiro Azul). O período que viveu em Munique foi o mais prolífico e de maior desenvolvimento do abstracionismo. Em 1912 publica “Do Espiritual na Arte”, que se torna a primeira fundamentação teórica da arte abstrata. No ano seguinte publica um livro de memórias e uma coletânea de poesias com 55 litografias em preto e branco e cores.
Quando a Primeira Guerra iniciou, Kandinsky teve de sair da Alemanha e foi para Moscou, sem Grabriele. Envolveu-se com os eventos culturais e políticos pós-revolucionários. Em 1917 casou-se com a filha de um general russo (Nina Andreevskaya) e de 1918 a 1921 cooperou com o comitê popular de Educação, no ensino da arte e na reforma de museus. Fundou 22 museus provinciais.
A pressão da ideologia socialista sobre a arte fez com que Kandinsky voltasse à Alemanha. Naturalmente, com o surgimento do realismo socialista, após 1922, as obras de Kandinsky foram banidas dos museus soviéticos por muitos anos. Na Alemanha, a convite de Walter Gropiuos, participou da Bauhaus. Em 1931 os nacional-socialistas começaram uma grande campanha contra a Bauhaus, que foi fechada em 1932.
A maioria dos 159 óleos e 300 aquarelas pintadas entre 1926 e 1933 se perdeu depois de os nazistas terem declarado Kandinsky e outros artistas (como Marc Chagall), “degenerados”. Kandinsky, então com 67 anos, e a esposa foram para a França e passaram a residir em Neuilly-sur-Seine, próximo a Paris. Menos agitado, mas não menos controverso, Kandinsky viveu ali até sua morte, em 1944.

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