terça-feira, 22 de Março de 2016 12:09h Ministério do Desenvolvimento Social

Cisterna transforma rotina de colégio estadual em Conceição do Coité (BA)

Tecnologia de captação da água da chuva garante que escolas continuem funcionando normalmente, mesmo nos períodos de forte estiagem

“Já passamos aqui à deriva. Em uma certa época, não tinha nem aula porque não tinha água, nem pra fazer limpeza da escola nem pro alunado beber ou se limpar. Os caminhões-pipa não tinham como chegar para quem precisasse, para atender toda a demanda do município. Já aconteceu de a gente ficar sem água uma semana”, conta a professora das séries 1 e 2 do Ensino Fundamental do Colégio Estadual Padre José Antônio dos Reis, em Conceição do Coité (BA), Clederley de Oliveira Carneiro e Silva.

Clederley, 41 anos, nasceu e cresceu no povoado de Ipoeirinha, no município baiano, e é ex-aluna da escola. Ela garante que todos têm motivo para celebrar o Dia Mundial da Água, nesta terça-feira (22). O Colégio recebeu, em novembro de 2015, uma unidade de captação de água da chuva do Projeto Cisternas n as Escolas, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em parceria com a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA).

 

 

 

A cisterna tem capacidade para armazenar 52 mil litros de água para consumo humano e já começa a ser utilizada neste ano. Já no primeiro dia de aula, 1º de março, estudantes, pais, professores e diretoria assistiram a um vídeo sobre os cuidados com a água e com a cisterna. “Pense você ter uma captação de água doce. Isso foi motivo de festa pra comunidade, porque a gente sabe que não vai servir só para a escola, vai servir para todos”, afirma a professora.

O período que mais marcou Clederley foram os anos de 1990 a 1993. “Foram três anos sem chover. Morreram muitos animais, de fome e de sede. O caminhão-pipa vinha e a gente saía com baldes para pegar água. Me lembro bem, porque foi na mesma época que eu estava concluindo o ensino médio e engravidei. Foi um período longo e marcou minha vida.”

 

 

 

Entre 2008 e 2010, a escola conviveu com a falta d’água. Em 2011, foi instalada uma cisterna de 16 de 16 mil litros, que supria apenas parte da necessidade para a manutenção das atividades. “Tenho certeza que meus filhos, meus netos, toda essa geração que está vindo, não vai ver o que nós vimos”, conta a professora. “Com uma cisterna dessa, jamais vai ficar sem água na comunidade. Sabendo utilizar, tendo os cuidados, não vai faltar mais.”

 

Sem parar – Inaugurado em 1988, o Colégio atende 116 crianças de 4 a 14 alunos dos povoados de São Roque, Caruaru e São João. Durante a manhã, ocorrem as aulas do Ensino Fundamental. À tarde, são desenvolvidas as atividades de tempo integral, por meio do programa Mais Educação. “Ter a certeza de que vamos ter água constantemente para manter a escola, o serviço não parar nem atrasar, isso é maravilhoso. Não vou mais me preocupar com isso e ter um tempo maior para pensar na parte pedagógica”, relata a diretora Diovania Carneiro dos Santos.

 

 

 

Antes, ela precisava pedir caminhão-pipa quando faltava água, senão as atividades da escola paravam. Em 2015, as aulas foram suspensas duas vezes, por três dias. “Uma tecnologia dessa, com uma capacidade enorme, é garantia do serviço, da alimentação, da l impeza. O serviço não vai parar agora. Já instalamos a água nos bebedouros”, conta a diretora. “Educação não se faz apenas com professor na sala de aula. Faz também com esse processo mínimo de educar a criança a não jogar o lixo no chão, manter o espaço limpo, o cuidado com o próprio corpo, cuidar do que ela tem.”

Desde o processo de escavação até a construção da cisterna, os alunos acompanharam tudo. A comunidade ajudou na construção, que levou oito dias e teve a participação de um pedreiro capacitado pelo Programa Cisternas, além de pais e amigos dos pais, em um mutirão. “Já se tornou significativo para eles. Eles vêm com vontade de ajudar e fazer tudo. Eles precisam saber o que possuem, para cuidarem”, diz Diovania. Os alunos terão aula sobre a implantação da cisterna, o processo de captação da água e os cuidados com manutenção da tecnologia. “É importante a gente estar inserido na realidade, porque a gente trabalha com educação no campo. Eles estão adquirindo o conhecimen to de forma integrada à realidade deles.”

 

 

 

Diovania mora há 22 anos no povoado de Ipoeirinha e está na direção do colégio há quatro anos. “Estamos felizes da vida com a água que represou no final do ano”, comemora. “Esse bem foi maravilhoso”, afirma, com propriedade de quem sabe exatamente o que vai mudar na vida da escola, no preparo da merenda, no consumo de água pelos alunos e professores, na manutenção nos banheiros e da cozinha.

Até o ano passado, as crianças bebiam água de dois filtros de cerâmica, tecnologia também apropriada para tratar água para o consumo humano, mas que era insuficiente para atender toda a demanda da escola. Com a nova cisterna escolar, uma caixa d´água foi instalada para receber água direto da tecnologia social para os bebedouros, que ficam na área central da escola. Na cozinha, a água usada na higiene dos alimentos, no preparo da merenda e para lavar louças vem da torneira, proveniente de duas caixas de mil litros cada, que a recebem da c isterna por meio de um encanamento novo.

 

 

 

Programa – Desde que foi lançada em 2015 a modalidade Cisternas nas Escolas, até março deste ano, já foram construídas unidades em 2.241 escolas do Semiárido, para garantir a convivência com os períodos de estiagem. Além delas, o Programa Cisternas entregou, desde 2003, mais de 1,2 milhão de unidades de captação de água da chuva para o consumo familiar humano e 170 mil tecnologias para a produção de alimentos na região. Recentemente, o programa também iniciou a implantação de tecnologias apropriadas na região Norte.

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