quarta-feira, 5 de Outubro de 2016 15:42h Agência Brasil

Enem: federais, militares e técnicas são as escolas públicas melhor avaliadas

Escolas públicas com me­lhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) formam estudantes desde o 1º ano do ensino mé­dio, têm maior parte dos pro­fessores formados na área que lecionam e atendem estudan­tes de nível socioeconômico alto ou muito alto. Os dados foram divulgados hoje ontem pelo Instituto Nacional de Es­tudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Nove das dez escolas têm 80% dos estudantes matricu­lados na instituição desde o 1º ano do ensino médio e têm mais de 70% dos professores formados na disciplina que lecionam. “Isso demonstra que o Brasil sabe fazer uma escola pública extremamente estru­turada com professores mais valorizados e isso acaba tendo resultado”, diz o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.

Sete das dez escolas com as melhores médias gerais são federais. Integram a lista escolas militares e escolas téc­nicas estaduais. Cara ressalta que são, na maioria, escolas que selecionam os estudantes, mas, segundo ele, não são boas porque os estudantes são selecionados, mas selecionam, segundo ele, porque a qualida­de é alta e a procura por essas instituições é grande.

DESIGUALDADE

No ranking geral, consi­derando também as escolas privadas, a primeira escola pública aparece na 33ª posi­ção, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa, em Viçosa (MG). A pri­meira escola pública estadual a despontar entre as melhores médias está em 147º lugar, o Colégio Estadual Tiradentes, em Porto Alegre (RS), que aten­de a alunos de nível socioeco­nômico alto.

Entre as privadas, seis das dez com melhores médias têm menos de 20% dos estudantes formados pela instituição des­de o 1º ano do ensino médio. Também atendem alunos de nível socioeconômico muito alto ou alto - quatro das es­colas estão sem informações. “O que é preocupante é que o Enem por escola demonstra o quanto o Brasil reproduz desi­gualdades, entre as privadas, entre as públicas. As escolas que vão bem, são escolas de elite”, diz Cara.

“A larga maioria das escolas ainda deixa muito a desejar”, diz o diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos. “Para mim, mudar o currículo é apenas um lado da moeda. Outro fator muito importante para reduzir a desigualdade que começa na alfabetização é que é preciso ter qualida­de e equidade para todos os estudantes e isso passa pela formação do professor”.

Ramos acrescenta que é preciso atrair jovens para a car­reira de magistério, sobretudo para as áreas de exatas, cujo desempenho dos estudantes é mais baixo.

RANKING

Ao todo, foram divulgados pelo Inep os resultados de 14.998 escolas, que são aque­las nas quais pelo menos 50% dos alunos do terceiro ano participaram no Enem e esse número equivale a pelo menos dez estudantes. No país, são 25.777 escolas com alunos ma­triculados no 3º ano do ensino médio regular.

As médias foram calculadas pela Agência Brasil com base nas notas das escolas em cada uma das quatro provas objeti­vas do Enem - linguagens, ma­temática, ciências da natureza e ciências humanas. A prova de redação foi excluída do cálculo por ser subjetiva e por não seguir a Teoria de Resposta ao Item (TRI), como as demais.

CONTEXTUALIZAÇÃO

O presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE ) e ex-presidente do Instituto Na­cional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Francisco Soares, defen­de que os dados precisam ser contextualizados. Segundo ele, rankings colocam escolas que selecionam seus estudantes no topo e deixam de conside­rar projetos pedagógicos que merecem ser conhecidos e podem inspirar mudanças na educação brasileira.

“Divulgar os dados sem dizer que por trás daquele dado existe uma diferença é compli­cado”, diz à Agência Brasil. “Há escolas que não selecionam seus alunos, que são de nível socioeconômico baixo que precisam ter os projetos conhe­cidos e inspirar outras escolas”, acrescenta.

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