terça-feira, 15 de Setembro de 2015 12:25h

Especialistas criticam lobby de fabricantes de medicamentos

Críticas foram feitas durante Ciclo de Debates Judicialização da Saúde nesta segunda-feira (14)

Nem sempre o uso de um medicamento mais caro ou a escolha por um procedimento médico de custo mais alto é garantia de mais eficácia e eficiência no tratamento de uma doença. Ao contrário, estudos da medicina baseada em evidências têm demonstrado que, muitas vezes, essas escolhas, pautadas por influências econômicas e de mercado, revelam-se completamente equivocadas.
As conclusões são do professor do curso de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Álvaro Atallah. Ele foi o primeiro palestrante do painel "Apoio Técnico ao Sistema de Justiça" e discorreu sobre direito à saúde e medicina baseada em evidências, durante o Ciclo de Debates Judicialização da Saúde, promovido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta segunda-feira (14/9/15).

Para reforçar seu argumento, o professor forneceu alguns exemplos. Um deles diz respeito ao uso de stents cardíacos, uma prótese minúscula em formato de tubo utilizada para prevenir obstrução de artérias em caso de doença arterial coronariana. Um estudo comparativo realizado por sua equipe concluiu que a tecnologia de valor mais alto (R$ 15 mil) não agregava nenhum benefício à tecnologia mais barata (R$ 2 mil). Como, no Brasil, são usados por ano no mínimo 100 mil stents, a economia obtida foi de pelo menos R$ 1 bilhão, segundo ele.

Outro exemplo citado refere-se ao uso de cálcio na gravidez. Segundo o professor, a administração desse medicamento em mulheres grávidas reduz em 30% o risco de pré-eclâmpsia. Contudo, no Brasil, apenas 6% das mulheres recebem recomendação médica para tal. Isso ocorre, segundo ele, porque os grandes laboratórios, que dominam o mercado de remédios, não têm interesse em vender um medicamento de baixo custo, embora extremamente eficaz.

Um terceiro exemplo apontado por ele compara dois medicamentos oftalmológicos usados para tratamento de mácula na cegueira de idoso - o Ranibizumab e o Bevacizumab. O primeiro é muito mais caro que o segundo. A revisão feita pela medicina de evidências, contudo, provou que ambos curavam da mesma forma. Além disso, num teste comparativo, verificou-se que o risco de infecção devido ao uso do medicamento era maior com o mais caro.

“A medicina de evidências é o elo entre a melhor ciência disponível e a melhor prática clínica possível. Ela integra as melhores evidências de pesquisas científicas existentes com a habilidade clínica e a preferência do pacientes. Em países onde impera o interesse econômico, isso é embotado”, concluiu Atallah.

Condutras inadequadas - Na mesma linha, o médico Cesar Vieira, consultor técnico do Instituto Brasileiro para Estudo e Desenvolvimento do Setor de Saúde (Ibedess), condenou o lobby dos grandes laboratórios e fabricantes de medicamentos. Segundo ele, “condutas inadequadas de prestadores de serviços de saúde” influenciam as decisões de médicos e geram “equívocos na judicialização da saúde, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) como na saúde suplementar”.

“Os sistemas de saúde e de Justiça precisam do apoio de evidências que resultem em prescrições e sentenças mais qualificadas. A medicina baseada em evidências é a salvação no mundo todo”, disse ele.

Ele elogiou o trabalho desenvolvido por algumas entidades técnicas em Minas Gerais, como o Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde (Nats), do Hospital das Clínicas da UFMG, bem como o Centro Colaborador do SUS para Avaliação de Tecnologias e Excelência em Saúde (CCATES), vinculado à Faculdade de Farmárcia da UFMG, que orientam o Poder Judiciário nas ações que envolvem a saúde.

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