sábado, 27 de Outubro de 2012 05:00h Gazeta do Oeste

Acidentes rodoviários envolvendo cargas perigosas já somam 130 este ano em Minas

A cada três dias há um acidente com carga perigosa na malha rodoviária de Minas Gerais. O acidente de quarta-feira (24), que interditou o Anel Rodoviário por 10 horas, por causa de uma carga de 25 toneladas de gás de cozinha GLP, que tombou, volta a levantar as discussões sobre a importância de uma estrutura organizada para atender demandas desse tipo e liberar as pistas com celeridade. Para o subcomandante do Batalhão da Polícia Militar Rodoviária (BPMRv), major Agnaldo Lima, que cuida do patrulhamento da rodovia, a frequência de acidentes no Anel, sobretudo quando envolve cargas perigosas, deixa a unidade refém das empresas responsáveis pelo transporte dos produtos. São elas que fazem todo o trabalho de retirada da carreta, transbordo da carga, avaliação de riscos e limpeza da pista, com auxílio das autoridades de Minas. “Na hora do acidente, a gente não encontra ninguém e sai pedindo favor”, diz.

O oficial lembra que os motoristas presos no engarrafamento, atrasados para seus compromissos e cansados de uma longa viagem, exigem a liberação rápida da pista, sem se preocupar com a segurança, quesito que os policias devem necessariamente observar. Na quarta-feira (24), para retirar a carreta, foram necessários três guinchos. O cavalo mecânico e a equipe especializada para fazer o transbordo da carga tóxica vieram de Barbacena, a 173 quilômetros de BH. “Seria interessante ter um órgão ou alguém que pudesse gerenciar esse atendimento com equipe técnica para avaliar o risco”, avalia o major.

Prevenção

A diretora de Prevenção e Emergência Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Desenvolvimento Sustentável (Semad), Zenilde Guimarães, conta que as empresas só conseguem uma licença para transportar produtos perigosos em Minas quando apresentam um plano de emergência para acidentes. Ainda assim, uma comissão foi criada para elaborar um plano estadual que pretende fazer um diagnóstico de cada região e os tipos de acidentes com carga perigosa. Segundo ela, a prioridade são as ocorrências em estradas e rodovias, estabelecendo articulação entre os órgãos e empresas produtoras e transportadoras. A secretaria vai coordenar a comissão estadual que pretende concluir o plano de trabalho em 2013.

“A prevenção é essencial em todas as áreas e por isso a importância de um plano estadual que vai identificar as estradas com ocorrências mais frequentes e definir estratégias para evitar acidentes com produtos tóxicos porque essa é a prioridade número um”, explica Zenilde. “Se o plano das transportadoras falhar ou demorar, o Estado toma a frente, prometendo dar uma resposta o mais rápido possível dentro das suas atribuições. Mas a responsabilidade do trabalho ainda será das empresas.”

Zenilde admite que a integração entre empresas transportadoras e órgãos de assistência precisa estar mais afinada, mas acredita que o problema que se enfrenta, como no caso do Anel, tem relação com o tipo de carga. “Não acho que seja problema de atuação ou agilidade na decisão. As empresas costumam resolver, mas a demora se dá devido à periculosidade do material, que exige tempo para isolar o ambiente e garantir a remoção segura para liberação da pista. Sei que afeta muita gente, mas 10 horas, às vezes, é pouco”, considera.


Ocorrências só aumentam

Um relatório da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Desenvolvimento Sustentável (Semad) aponta que a BR-381 é a que mais sofre com acidentes ambientais provocados por cargas tóxicas de carretas tombadas. Segundo o relatório, já são 101 ocorrências nas estradas este ano (até quinta-feira), 35 delas na 381 –, o que representa 34% do total. De acordo com a diretora de Prevenção e Emergência Ambiental da Semad, Zenilde Guimarães, os líquidos inflamáveis são as cargas mais presentes nos acidentes, principalmente derivados de petróleo (gasolina e diesel) e álcool. Em 2011, foram 130 acidentes envolvendo produtos tóxicos.

Para circular no estado, essas transportadoras apresentam uma série de documentos à Semad, entre eles a inscrição em um Cadastro dos Transportadores de Produtos Perigosos e um plano para situações de emergência, com as providências e ações que ele deverá executar em casos de acidente, como o chamado à seguradora especializada, a remoção do produto da via e a limpeza de cursos d’água, se forem afetados. Esses documentos são pré-requisitos para solicitar o Certificado de Regularização Ambiental para Transporte Rodoviário de Produtos e Resíduos Perigosos, uma licença que o permite trafegar. À Semad, desde 2004, foram feitas 1.650 solicitações para transporte de produtos perigosos.

Zenilde considera a integração um ponto importante para dar agilidade aos atendimentos, mas reconhece que os atendimentos dependem da movimentação das transportadoras. Ela cita o exemplo de algumas empresas voluntárias que se juntaram para elaborar planos de auxílio mútuo, apoiando umas às outras em casos de acidentes. Isso vem ocorrendo em Betim e Ibirité, na Grande BH; Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Vale do Aço e em Juiz de For a, na Zona da Mata.

“No caso do Anel, fica difícil controlar por causa de caminhões que vêm de outros estados. Aí a gente passa só a contar com o plano de emergência que cada empresa tem que ter. Acaba-se dependendo da movimentação da empresa, mas quando ela não atua, tem as polícias, os bombeiros e o Núcleo de Emergência Ambiental da Semad”, justifica.
 

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