segunda-feira, 8 de Junho de 2015 10:23h

Agente penitenciário cria fábrica-piloto de adubo orgânico em Ribeirão das Neves

Projeto socioambiental de compostagem de resíduos orgânicos, com participação dos presos na unidade, modificou os resultados na horta e jardins da penitenciária

Tornar o Presídio Inspetor José Martinho Drumond, em Ribeirão das Neves, uma unidade sustentável é o sonho do agente penitenciário Ricardo Luiz Nascimento dos Santos. O primeiro passo para isso foi a implantação de um projeto de compostagem de resíduos orgânicos para a produção de adubo, destinado, inicialmente, à horta e aos jardins do presídio.

Ainda como projeto-piloto, a usina produziu 1.080 quilos de adubo orgânico no período de 25 de fevereiro a 2 de junho, a partir de 7.245 quilos de resíduos orgânicos coletados. O fertilizante foi testado com sucesso pelo detento Carlos Barbosa dos Santos, 39 anos, responsável pelo cultivo de alface, salsão, repolho, cenoura, beterraba e rabanete em uma grande área ao redor do presídio.

Carlos plantou alface em duas áreas separadas, Em uma delas, utilizou o adubo orgânico e, na outra, um fertilizante comum. “Foi impressionante como as alfaces que receberam o adubo da compostagem cresceram mais e ficaram muito mais bonitas. É totalmente diferente o resultado”, comenta entusiasmado o horticultor. Na horta há um ano e quatro meses, Barbosa está prestes a completar três anos de cumprimento de pena na Drumond. Toda a produção agrícola do presídio é doada para o Banco de Alimentos do Município de Ribeirão das Neves, que a distribui para instituições filantrópicas da região.

Campanha

Estudioso, o agente Ricardo é graduado em Gestão Pública pela Universidade Metodista de São Paulo e, atualmente, faz especialização em Educação Ambiental Urbana pela Escola Superior Aberta do Brasil (ESAB). Ele conta que o projeto da usina de compostagem teve uma consequência adicional. Constatou-se um grande desperdício de comida na unidade prisional, o que motivou uma mobilização interna para reduzi-lo.  Foram afixados cartazes no refeitório, distribuídos folhetos e promovidas rodas de conversas para mostrar os números do descarte de comida e conscientizar sobre a necessidade de se viver em um ambiente sustentável.

Os resíduos alimentares foram pesados no período de 25 de fevereiro a 19 de março e verificou-se perda de 8% do total das refeições servidas, o equivalente a 2,96 quilos por pessoa no período. “O desperdício por parte dos detentos e servidores corresponde a quase três dias de alimentação de todas essas pessoas”, destaca o agente Ricardo Santos.

Leiras e minhocas

Na primeira leva de adubo orgânico, utilizou-se a técnica de leiras, que são pequenos montes de restos de comida, cascas de frutas e de legumes e material palhoso, como capim e serragem. O material fica depositado sobre cimento ou asfalto e a cada três dias é revirado para, por meio da troca de oxigênio e calor, controlar a umidade, a temperatura e o nível de acidez (PH).

O diretor-geral do presídio, Caio Sérgio Lopes, destaca a participação de presos no projeto socioambiental e a iniciativa do agente Ricardo. “Temos orgulho de servidores públicos que trazem novas ideias e abraçam as causas do sistema prisional. Neste projeto há ainda a participação de três presos com direito a remição de pena”, diz Caio.

Rogério de Amorim é um dos presos engajados no projeto de compostagem e na coleta de dados sobre o desperdício de comida. Antes de ser preso, Rogério trabalhou com compostagem na Casa Caminho de Damasco, uma instituição de recuperação de dependentes químicos no município de Contagem.

O detento promete trabalhar em projetos ambientais quando ganhar a liberdade. “Meu trabalho é uma pequena contribuição para o equilíbrio ambiental, simples e de resultados, qualquer um pode fazer, mesmo em espaços reduzidos”, explica Rogério.

Ainda este mês, Ricardo e os três detentos vão testar uma nova técnica de compostagem, com o emprego de minhocas vermelhas, também conhecidas como californianas. Elas são colocadas em composteiras furadas, junto com material palhoso, restos de comida e cascas de frutas e verduras. O líquido gerado na mistura, conhecido como chorume, escorre para outro vasilhame e também é aproveitado  como fertilizante.

Segundo Ricardo, trata-se de um processo mais rápido do que o da técnica de leiras e gera um adubo de melhor qualidade, além de exigir um espaço menor. As minhocas californianas são vendidas por criatórios para usinas de compostagem. O quilo do húmus contém cerca de 300 minhocas, que têm grande capacidade de reprodução, e custa R$ 50,00. Os demais custos são baixos, uma vez que as composteiras são feitas com embalagens de produtos de limpeza que seriam descartados.

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