quarta-feira, 30 de Março de 2016 11:40h Polícia Civil de Minas Gerais

Antropologia Forense da Polícia Civil é referência nacional em Medicina-Legal

Serviço foi acionado durante investigação do caso “Marcos Antunes Trigueiro, o maníaco de Contagem

Visum et repertum. Ver e repetir. A expressão em latim é o lema que inspira a equipe de antropologia forense da Polícia Civil de Minas Gerais que realiza exames em ossadas, corpos carbonizados e segmentos corpóreos. O serviço exige grande capacitação, conhecimento e curiosidade científica, para atender a toda a demanda do Estado.

Quando um cadáver está em adiantado estado de putrefação, ou se apresenta como ossadas, corpos carbonizados e segmentos corpóreos, e não sendo possível a identificação por meio de impressões digitais, documentação ou características físicas, o Serviço de Antropologia é acionado para fazer o reconhecimento do corpo em quatro passos: identificação da espécie, perfil antropológico, causa mortis e reconhecimento.

 

 

Identificar Espécie

Assim que o Instituto Médico-Legal (IML) recebe uma ossada, a equipe de antropologia inicia os exames para compreender o que está ali. Inicialmente, é preciso diferenciar se aqueles ossos são de um esqueleto humano ou de algum animal. Tratando-se de animal, porco, por exemplo, o serviço está concluído. A distinção é feita pelo exame das dimensões e caracteres morfológicos.

 

 

 

Perfil Antropológico

Sendo humano, o próximo passo é definir o perfil antropológico do cadáver, sexo, etnia, faixa etária e estatura, que vão delinear os contornos do indivíduo.

Os hormônios sexuais, durante a puberdade, definem características ósseas, no crânio, no quadril, na mandíbula e no tórax, possibilitando a distinção do sexo. O esqueleto do homem é geralmente maior e mais resistente. A altura do indivíduo pode ser estimada a partir das dimensões dos ossos longos, como fêmur e tíbia, comparando-os com tabelas e índices científicos.

Para determinação da etnia, observa-se a forma do crânio, mensurando os índices cranianos, ângulo facial e abertura nasal. A idade pode ser percebida analisando os dentes, que têm uma época própria para o surgimento e ritmo de crescimento próprio, levando-se em conta a primeira e a segunda dentições, a partir dos cinco meses de nascido. Também é possível estimar a idade por meio da mineralização dos ossos da mão ou das suturas cranianas que vão desaparecendo com o tempo.

 

 

 

Causa da morte

Em uma ossada ou corpo carbonizado é quase sempre impossível definir a causa mortis por não restar vestígios aparentes. Somente quando restarem lesões profundas, traumas cranianos e perfurações contundentes que se pode sugerir algo. O tempo de morte também é bastante difícil, pois depende, sobretudo, de agentes externos ao corpo, como clima e ambiente.

 

 

Reconhecimento

A partir do perfil antropológico do indivíduo, segue-se a parte mais importante desse processo: o reconhecimento do cadáver, procurando por coincidências e elementos que podem ser verificadas no corpo em análise e também nos relatos, documentos e imagens sobre a pessoa quando viva. “Quando as coincidências tendem ao infinito, sem qualquer discordância, podem-se criar elementos de convicção para a autoridade policial reconhecer o cadáver examinado”, explica o chefe do Serviço de Antropologia do Instituto Médico-Legal (IML), médico-legista Márcio Cardoso. Ele ainda acrescenta que a excelência do serviço antropológico da Polícia Civil se dá pela capacitação, pelo conhecimento e pela curiosidade da equipe de legistas empenhada na atividade, com décadas de experiência acumulada.

“O reconhecimento de um cadáver em avançado estado de putrefação é, sobretudo, muito importante para a família, que poderá, a partir do reconhecimento, sepultar um parente que desaparecera, viver o luto adequadamente e resolver questões civis como herança, seguros e benefícios”, completa a diretora do IML, médica-legista Lena Tereza de Melo Lapertosa.

 

 

 

Grande repercussão

Marcos Antunes Trigueiro, o “maníaco de Contagem”, foi condenado a mais de 99 anos de prisão. O caso teve grande repercussão pela série de furtos, estupros e assassinatos praticados por Trigueiro. Entre vários cadáveres encontrados, um já estava em avançado estado de decomposição. A perícia encontrou um cadarço branco de calçado e um segmento de fio telefônico enrolados na região do pescoço da vítima. Os diâmetros das circunferências do cadarço e do fio telefônico eram de 90 mm, menores que o do pescoço de um indivíduo adulto, com suas partes moles. Observando a possível constrição no pescoço, foi possível discutir uma possível causa da morte por estrangulamento. A observação colaborou com os achados da investigação criminal que culminou com a confissão e condenação do acusado.

 

 

 

Estudo de caso

Encontrada uma ossada em um município da Região Metropolitana de Belo Horizonte, deu-se o encaminhamento ao Serviço de Antropologia da Polícia Civil que iniciou os trabalhos para delinear os contornos do indivíduo: sexo feminino, 70 a 75 anos, afrodescendente e 1,60 metros de altura.

O registro de desaparecidos de município apontava para uma pessoa com o mesmo perfil antropológico que desaparecera naquela região. Uma senhora de 71 anos que sofria de mal de Alzheimer, fora a uma quermesse e desaparecera. A família foi acionada e trouxe uma diversidade de exames de imagem, como radiografia do tórax e ressonância do crânio.

 

 

 

A radiografia apontava para três “bicos de papagaio” expressivos. Essas mesmas deformidades, com idêntica formação, foram encontradas na coluna vertebral do esqueleto examinado. A morfologia era vista e repetida, visum et repertum,  em cada vértebra analisada.

A partir da tomografia computadorizada era possível visualizar os contornos dos seios paranasais (cavidades), com formações únicas em cada indivíduo. Comparando essas imagens com as peculiaridades do crânio em estudo, percebiam-se os mesmos contornos. O desenho daqui, repete-se ali, mais uma vez, visum et repertum.

 

 

 

Com esse estudo científico detalhado, foi possível reconhecer a partir de uma ossada a tal senhora desaparecida, que é filha, esposa, mãe e avó de alguém que agora pode sepultar o ente, viver o luto e seguir a vida.

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