sábado, 28 de Fevereiro de 2015 05:45h Atualizado em 28 de Fevereiro de 2015 às 05:50h. Pollyanna Martins

Após 15 dias da posse, novo comandante da 7ª Região fala sobre os desafios, corrupção e hipocrisia

Coronel Laércio Reis assumiu a 7ª Região no dia 12 de fevereiro

Desde o dia 12 de Fevereiro a 7ª Região da Polícia Militar está sob o comando do coronel Laércio Reis. A corporação abrange 50 municípios do Centro-Oeste, dentre eles o município de Nova Serrana, que segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) está entre as 20 cidades mais violentas de Minas Gerais.
Após 15 dias de sua posse, o comandante concedeu entrevista à Gazeta do Oeste e destacou os desafios que Divinópolis enfrenta com os crimes violentos, principalmente os roubos de veículos. “Os crimes violentos são os crimes que causam maior impacto na sociedade, como, por exemplo, os roubos. Nós tivemos aumento nesses crimes de roubo, especialmente nos últimos anos, em 2014, por exemplo. No caso de Divinópolis o que mais nos preocupa são os roubos de veículos. Em algumas cidades e aqui também nós temos os crimes de homicídio, que é um crime violento e que desperta também a preocupação”, detalha.

ROUBO DE VEÍCULOS
De acordo com dados da Seds, de janeiro a novembro de 2014 foram furtados 758 veículos e roubados 544. No mesmo período, em 2013, foram furtados 786 veículos e 258 foram roubados. Destes apenas 19 foram recuperados em 2013 e 39 em 2014.
Segundo o coronel, este crime tornou-se comum, pois é fácil para os bandidos terem acesso aos veículos e o número crescente de automóveis circulando na cidade faz com que este crime vire alvo dos bandidos. “Os números de veículos roubados cresceu assustadoramente. Eu vou montar uma força tarefa em parceria com outras instituições que possam dar respostas. Hoje nós temos quadrilhas que são especializadas neste tipo de crime. Nós estamos em um caminho perverso e paradoxal com essas leis benéficas de intervenção mínima do Estado, de incentivar que as pessoas sigam para o caminho do crime. Não tem dúvidas que é um ciclo vicioso”, enfatiza Laércio.

INVESTIMENTOS
Sobre a limitação de policiais e viaturas em Divinópolis, o comandante alegou que a sociedade está sufocada com a criminalidade e o desejo de todos é que a Polícia esteja ativa em toda cidade no dia a dia. “A pior coisa do mundo é quando você está em uma situação de apuros, está dependendo da polícia e não consegue ser atendido no 190, ou quando é atendido a pessoa diz para você aguardar porque nós estamos sem viaturas. A pessoa se sente completamente desamparada, porque é o único órgão que está ali para te ajudar. Infelizmente nós temos situações dessa natureza, de falta de infraestrutura da polícia para fazer o atendimento básico à comunidade”, lamenta.
Segundo o coronel, a frota de viaturas de Divinópolis está defasada e o número de policiais hoje é menor do que há oito anos. “Eu já passei essa determinação para a gente revitalizar a frota, para colocar bastante veículo em uso. A nossa frota tem que estar em condições de uso no dia a dia. Eu acredito que o Estado vá demorar a fornecer novos carros, não tem nenhum anúncio de compras de viaturas. Eu tenho que cuidar bem dos nossos recursos, não são poucos, mas nós temos que gerenciar bem para que eles tenham condições de atender as demandas”, informa.
Quanto ao número de policiais, o comandante disse que Divinópolis está no caminho inverso, pois a população aumentou e o efetivo diminuiu, e esta situação deve permanecer pelos próximos dois anos. “Nosso efetivo hoje é menor do que o de oito, dez anos atrás. Em uma cidade como Divinópolis eu imagino que tinha aí 50 mil pessoas a menos, há 10 anos a demanda de segurança pública era bem menor do que nós temos hoje, nós estamos no caminho inverso. O nosso grande desafio é, com os recursos que nós temos, fazer com que a polícia esteja presente nas ruas e que ela tenha condições de dar respostas para todas as demandas. Nós recebemos 65 soldados no fim do ano, mas eu acredito que em um ano e meio, dois anos, não chegam mais [policias]”, aponta.

FOCO CENTRAL
De acordo com o coronel, o foco de trabalho será Divinópolis e Nova Serrana, atendendo as maiores necessidades de cada município. “Eu preciso que o policial militar esteja onde tem mais necessidade. Dependendo da circunstância, não é somente uma cidade com a população elevada, nós temos cidade na região que o número de crimes violentos é baixo. Nova Serrana tem dias que têm crimes violentos, roubos, mais do que Divinópolis. É difícil aceitar que uma cidade com 90 mil habitantes tenha um número alto de crimes violentos”, analisa.
Questionado sobre uma possível reestruturação da 7ª Região, Laércio Reis afirmou que seu antecessor, o coronel Eduardo Campos, fez um excelente trabalho, mas readequações serão buscadas para que a Polícia Militar dê respostas às demandas da sociedade. “Eu não quero dizer que com as minhas ações eu vou corrigir uma série de questões que estão erradas, porque não é isso. A gente não pode adotar uma postura de querer criticar, cada um trabalhou à sua maneira. O que posso dizer com tranquilidade é que nós vamos buscar algumas readequações, o que precisa ser feito. Você como cidadã precisa da polícia e tem que ter o serviço.”

OLHO VIVO
Após a instalação do programa de monitoramento Olho Vivo em Divinópolis, a Polícia Militar registrou uma queda de 33% dos crimes violentos no Centro da cidade. Porém, moradores e comerciantes dos bairros têm reclamado que a criminalidade apenas migrou de um lugar para o outro.
O comandante confessa que vê a instalação das câmeras com tristeza, pois o dinheiro investido no programa deveria ser aplicado em outras áreas. “As pessoas hoje vivem enclausuradas dentro de casa. Elas vão sair para se divertir e os bandidos vão estar na rua. O crime migra, se você aumenta a vigilância em determinado setor a tendência é de que o marginal atue em outra área. Aí nós temos que direcionar o patrulhamento para as áreas não monitoradas”, explica.

CORRUPÇÃO X HIPOCRISIA
O Comandante salientou ainda a corrupção como um dos grandes males atuais da sociedade. Conforme o coronel, os valores estão perdidos e se espalham pela comunidade. “Como no processo de educação da sua família, se você tem um mau exemplo da sua mãe ou do seu pai, aquilo passa a ser um valor que você passa a praticar na sua vida, isso é via de regra. A não ser que você, pela sua personalidade, pelo seu caráter, vai enxergar que isso não é algo reto. Hoje o que nós temos de referencial dos nossos governantes, exceções à parte, é terrível. Desvia-se 200 milhões, um bilhão [de reais] como se tivesse desviando uma caneta. Dinheiro que poderia ser investido na educação, na saúde”, ressalta.
Conforme o coronel, a sociedade vive em um momento de hipocrisia, no qual se cobram os direitos e não cumprem-se os deveres. “Nós vivemos em uma sociedade sem ética e de muita hipocrisia. O cidadão bebe e dirige, ele está dirigindo com a latinha de cerveja na mão e daqui a pouco ele joga pela janela do carro. Chega à época do Imposto de Renda, ele faz de tudo para fraudar o fisco e tantos outros exemplos que podemos dar que mostram o quanto nós somos desrespeitosos em relação às leis. Muita gente acha que não é bandido por fazer isso [beber e dirigir], mas pode atropelar uma criança quando faz isso e aí ele vai ser pior que um bandido”, acrescenta.

 

Crédito: Lorena Silva

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