segunda-feira, 6 de Maio de 2013 10:57h Estado de Minas

Arma tem trânsito livre e expõe insegurança em viagens

Felipe Oliveira Assunção, de 22, cursa engenharia em Itabira, na Região Central de Minas, e há um ano e dois meses atravessa parte do estado de ônibus quando vai para a casa dos pais em Ituiutaba, no Triângulo.

Enquanto o transporte aéreo de passageiros adotou medidas rigorosas de segurança depois dos atentados às torres gêmeas nos EUA, em 11 de setembro de 2001, como proibição de frascos com líquidos e de qualquer objeto que possa ser usado como arma, as viagens rodoviárias continuam vulneráveis. Os ônibus não têm como detectar porte de armas, como o revólver usado pelo ladrão que matou o engenheiro químico João Gabriel Camargos, de 25 anos, que viajava em companhia da namorada, de Poços de Caldas, Sul de Minas, para BH em março.

Se no terminal rodoviário de BH há detector de metal, ele não é usado na maioria dos embarques. E, por isso, o repórter do EM não teve qualquer dificuldade para entrar com uma faca de porte médio numa bolsa de mão num ônibus com destino a Uberlândia, no Triângulo Mineiro, às vésperas do feriado de 1º de Maio. Uma pistola de brinquedo também fazia parte da única bagagem. Mesmo se comportando de forma suspeita, observando de perto passageiros com equipamentos eletrônicos, o repórter não foi incomodado pela segurança do terminal, que apenas não permitiu que o repórter fotográfico da equipe fizesse imagens no local. Um zelo talvez para com a imagem dos usuários.

A viagem até Uberlândia, mesmo sendo na madrugada de um feriado, não teve qualquer intervenção de fiscais ou policiais no percurso. O carro da reportagem, descaracterizado, seguindo o ônibus até Araxá, chegou a ser alvo de suspeita do motorista, que admitiu temer se tratar de bandidos, quando encostou e o veículo não o ultrapassou. Mas, sem treinamento, ele não chamou a polícia e, se fosse um grupo criminoso, não faltaram oportunidades de assalto, já que no trecho de mais de 500 quilômetros nem num posto da PRF foram vistos policiais. O manuseio da faca na bagagem de mão pelo repórter numa das duas paradas do ônibus, próximo a funcionários da empresa, também não serviu de alerta.

O estudante Michel Gonçalves Silva, de 28 anos, seguiu de BH a Araxá no mesmo ônibus, de onde viajaria para sua cidade, Sacramento, em outro coletivo. "Há três anos faço esse trajeto e apenas duas vezes o ônibus foi parado por policiais que pediram identificação de passageiros e verificaram bagagem. Nunca fui assaltado, mas é um risco e até hoje conto com a sorte”, afirma.

Felipe Oliveira Assunção, de 22, cursa engenharia em Itabira, na Região Central de Minas, e há um ano e dois meses atravessa parte do estado de ônibus quando vai para a casa dos pais em Ituiutaba, no Triângulo. “São dois trechos perigosos, já que de Itabira a BH sigo pela BR-381, onde ocorrem ataques. Em direção a Uberlândia há o trecho depois de Araxá, na BR-452, que também é alvo de assaltos. Às vezes há policiais na estrada, mas não há medidas de segurança nos embarques”, avalia.

Ataque

Em vários registros de ocorrências policiais fica evidente casos de passageiros com armas dentro dos ônibus. Em 2 de abril, num ônibus que seguia de Uberlândia para Brasília viajavam sete policiais militares armados. Na BR-050, em Araguari, um dos pontos de maior número de assalto a ônibus no Triângulo, o veículo foi abordado por uma quadrilha. Houve troca de tiros, um ladrão morreu e seis foram presos, todos moradores de Uberlândia.

No dia 14 do mesmo mês, Antônio Donato Baudson Peret, de 24, acusado de incitar crimes de intolerância em BH, foi preso em fuga na rodoviária de Americana (SP), com um soco-inglês, duas facas e um facão. Isso depois de sair de BH em direção a São Paulo de ônibus.

Motoristas atacado três vezes

O medo faz parte da rotina do motorista Jair Marques Izidoro, de 52 anos, assaltado três vezes desde 2008 em estradas do Triângulo. O mais recente foi na madrugada do dia 17 do mês passado. “Eu seguia de Uberlândia para Mineiros (GO) e quando saí da BR-365 para pegar a BR-452, em Xapetuba, menos de 30 minutos depois de deixar a rodoviária, com 25 passageiros, surgiram os bandidos num Gol prata, apontando suas armas. Três entraram com revólveres e começaram a saquear os passageiros”, afirmou.

Jair contou que, ao contrário do que os criminosos fazem, o motorista do carro da fuga seguiu à frente do coletivo e não atrás: “Os bandidos mandavam sinalizar para ele parar. Tive que deixar o trio na estrada e ele fez o retorno e voltou”.

Em março de 2011, a caminho de Uberlândia, Jair estava ainda em trecho da BR-452, em Goiás, com 34 passageiros, quando foi abordado por assaltantes. “Havia um delegado federal dentro do carro e eu nem imaginava. Fui fechado por um Gol depois de sair de Jataí em direção a Itumbiara. Quando os bandidos entraram só ouvi os tiros. Um deles mandou que eu abrisse a porta e pulou. Morreu dois dias depois ferido. O outro morreu dentro do ônibus”, conta. Jair ainda guarda as fotos do bandido morto e conta que outros sete integrantes da quadrilha foram presos, além de dois mortos.

Ainda este mês Jair Marques pretende se aposentar, depois de 20 anos trabalhando como motorista. A mulher dele, Sara de Deus da Cruz, de 28, quer que o marido pare com as viagem e trabalhe dentro de Uberlândia. Ele parece concordar, já que não pretende mais se expor aos riscos das rodovias.

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