segunda-feira, 29 de Abril de 2013 06:59h Estado de Minas

Carroças resistem em BH

Nas patas do cavalo Conhaque está o peso da sobrevivência de nove pessoas. Na rédea, um jovem estudante de 16 anos. Aldeir Leandro de Andrade, aluno da Escola Estadual Major Delfino de Paula Ricardo, passa as manhãs em sala de aula. À tarde, na companhia de Conhaque, faz carretos pela vizinhança. Chega a receber R$ 130 por dia para ajudar no sustento da mãe e dos irmãos, que moram no Bairro Santa Cruz, Região Nordeste de Belo Horizonte. Além da família Andrade, números da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelam outras 3 mil cadastradas em projeto social idealizado em parceria entre o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) e a Escola de Veterinária. Somados aos outros tantos sem registro, especialistas calculam 10 mil carroceiros na cidade, número que assusta os protetores dos animais, que defendem o fim das carroças.

Trabalho regulado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), não é nada fácil andar na legalidade como carroceiro. São muitos os pré-requisitos para registro – cursos periódicos, comprovação de guarda responsável e habilitação de condutor de veículos de tração animal, com conhecimento do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Daí, para muitos de pouca (ou nenhuma) instrução, a clandestinidade. L.R.S., de 23, há três anos na lida com o cavalo B., timidíssimo, diz que está sem tempo para dar jeito na documentação. “Meu tio morreu. O animal ficou pra mim. Tô cuidando dele e ganhando um cadinho também. Só isso.” Analfabeto, L.R.S. diz que B. é quem o ajuda nas despesas com a mulher e com os três filhos, às margens do Anel Rodoviário. “Sem esse bichão aqui, moço, a gente ia passar é fome”, diz.

Com R$ 40 separados no bolso para remédios que podem dar conta da gripe de Conhaque, Aldeir Leandro está preocupado com a saúde de seu companheiro de trabalho. O arrimo da família Andrade é exemplo de responsabilidade na Rua Ferreira Bretas. Não só pela peleja como carroceiro, mas como lavador de carros e motos nos fins de semana, no “Lava jato do Gordo” – estabelecimento improvisado na porta do barracão de tijolo à vista, com uma faixa de pano barato em meio ao varal carregado com roupas de crianças. A mãe de Aldeir, Iolanda Gonçalves de Andrade, de 54, tem o maior orgulho do garoto: “Na realidade, ele é meu neto. Mas sou a mãe dele. Agora, sim, ele está no caminho certo, do trabalho. Criei a família catando papel. Não admito bandidagem. Tá vendo aquele menino ali? Outro dia, teve que comer uma colher de pimenta para aprender a não falar nome feio”, diz, referindo-se ao garoto miúdo, de cara amarrada, escondido atrás da placa de amianto, na função de cerca.

DEFESA Enquanto novos carroceiros, como o garoto Aldeir, crescem na periferia, a Câmara Municipal de Belo Horizonte cria a Comissão Especial de Proteção e Defesa Animal. Conquista de ativistas que, há anos, se desdobram para combater e coibir maus-tratos contra os equídeos. Para Adriana Cristina Araújo, de 42, presidente do Movimento Mineiro pelos Direitos Animais (MMDA), cavalos, éguas, burros e mulas são frequentemente vitimados pelo homem. “Se avançamos com os animais pequenos, com os cavalos não demos um passo”, lamenta. Cita inúmeros casos denunciados na capital. Emociona-se ao falar da égua prestes a dar à luz, obrigada pelo carroceiro a trabalhos forçados no Bairro Nova Gameleira, na Região Oeste. “Ela não aguentou o peso e foi ao chão. Abandonada, sofrendo, teve que ser eutanasiada”. Descreve, em lágrimas, o sofrimento dos voluntários, que fizeram de tudo para salvar os animais em agonia no asfalto. “Depois, ainda acompanhamos o sofrimento do filho na barriga da mãe morta. Sem mais nada a fazer.”

Aldeir faz carinho na crina de Conhaque. “Esse cavalo pra mim tem peso de ouro”, diz. O mocinho do Bairro Santa Cruz conta ter juntado dinheiro com a mãe para pagar R$ 3,6 mil no cavalo, “mais R$ 400 na carroça”. “Era um sonho da minha mãe, que queria me tirar da rua. Dar uma vida melhor pra mim”, sorri. “Ah, quero ser policial, mas sei que não vai dar certo”. Por que, Aldeir? “Porque tem que estudar muito, uai”, diz. Conhaque tem seis anos. Bonito, vistoso, parece bem cuidado. “Ele trabalha meio horário só. Quando estou na escola, de manhã, ele descansa”, garante. A mãe, orgulhosa, sorri: “É tanto carinho que ele tem pelo cavalo, que só não leva pra dormir com ele porque o Conhaque não sobe escada”, diverte-se. A irmã de Aldeir, Leonara Larissa de Andrade, de 14, confirma a paixão. “Ele trata o cavalo melhor do que trata a gente”, diz. Leonara, morena bonita e muito carismática, sonha ser advogada. “Quero poder ajudar mais todo mundo da família. Só com estudo, não é?”.

Em outros pontos da cidade, às margens da Via Expressa, denúncias contra maus-tratos se repetem. No início do ano, uma égua magrela, enroscada em arame farpado, sangrou até a morte. A ocorrência comoveu agentes da Primeira Delegacia Especializada de Investigação de Crimes Contra o Meio Ambiente e Conflitos Agrários – também responsável pela recém-criada primeira unidade policial na defesa dos animais. No mesmo período, no Bairro Calafate, mais um crime envolvendo equídeos. O autor, carroceiro, responde criminalmente pelos ferimentos da égua e pode pegar até três anos de cadeia. Adriana, do MMDA, denuncia a síndrome do olho furado. “Alguns carroceiros, desumanos, furam o olho esquerdo do animal, para que ele não fique estressado com os carros no trânsito.” Para a ativista, com exceções, o homem da cidade não tem preparo e não respeita os animas.


Falta política pública eficaz
Liderança de mais de 50 grupos em defesa dos animais, Adriana entende a delicadeza social que envolve os cerca de 10 mil carroceiros de Belo Horizonte. A presidente do MMDA reconhece a importância do trabalho realizado pela Escola de Veterinária da UFMG, em parceria com a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). No entanto, critica a falta de “política pública verdadeira”, que ofereça alternativa para as famílias que dependem dos animais para sobreviver. “Minas Gerais caminha à sombra de outros estados no que se refere ao respeito aos animais. No Rio Grande do Sul, em 2006, aprovaram lei pela proibição das carroças e, em respeito aos carroceiros, deram oito anos para a transição. É um exemplo para o país”, ressalta. A ativista critica também o lixo e o entulho jogados nos rios pelos carroceiros que não têm acesso às Unidades de Recebimento de Pequenos Volumes (URPVs), da PBH – são 34, distribuídas nas nove regionais administrativas.

Diferentemente dos que maltratam, há quem seja puro carinho com os animais. Madson Frederico, de 22, trabalha como carroceiro desde pequeno. No comando da mula Lorena, de 12, diz ganhar R$ 60 por dia, ganha-pão de seis pessoas. “Muita gente não reconhece o nosso trabalho, mas ele é digno como qualquer outro. Eu ia pra escola só por causa da merenda. Depois do recreio, eu pulava o muro para trabalhar como carroceiro”, diz. Na companhia do sobrinho de 10 anos, Denis Olegário, Madson conta que a parte ruim do trabalho são os motoristas de ônibus, que não respeitam as carroças. “São uns revoltados, porque o trabalho deles é muito mais estressante que o nosso. Aí, descontam na gente.” Ao longe, na avenida, enquanto corta capim para Lorena, avista um colega carroceiro: “É o Gordim. Tá feliz da vida com o animal dele. Antes, era ele quem puxava o carrinho de ferro-velho. Agora, é o cavalo”.

Curisco, Canário e companhia

Amauri Jesus Magalhães, de 51, herdou do pai, Águedo, o ofício. Em casa, mulher, filhos e os cavalos Curisco, Pilantra e Ventania – “como se fossem da família”. A vida seria só alegria não fossem os 10 cavalos roubados nos 27 anos de estrada. “São os noiados que roubam e vendem para os ciganos por quase nada. É triste”, indigna-se. Nas mãos, a carteira de habilitação. “É a mesma coisa, como se fosse de motorista. A gente tem que renovar de cinco em cino anos.” Aos pés, Pantera, a cadela companheira nos carretos do Bairro Tupi, na Região Norte. Na URPV da Avenida Saramenha, João Gilberto, de 48, o encarregado, conta cinco toneladas por dia de lixo e entulho – grande parte vinda das carroças. “Os carroceiros são muito importantes na limpeza da cidade. Não dá nem pra imaginar como é que seria sem eles”, diz.

Saem Curisco e Amauri, chegam Canário e Sandoval Nolasco, o “Sosó”, de 51. Marido de Marta e pai de quatro filhos, Sosó diz dever tudo o que tem ao trabalho com a carroça e é dono dos burros Canário e Mingau, e das mulas Daiana, Catarina, Morena e Joia. “Graças a Deus e com o trabalho com a carroça comprei um lote, construí minha casa e criei meus filhos. Ruim é que a mulher reclama do cheiro de cavalo que não sai de mim”, sorri. Sosó tem a companhia dos filhos Fábio, de 28, e Diego, de 22, no trabalho com as carroças. Elogia as URPVs, o serviço social da UFMG e critica aqueles que maltratam os animais. “Como é que alguém, que depende deles para viver, pode ser ruim com eles? Não tá certo.”

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