segunda-feira, 1 de Dezembro de 2014 11:17h

Detentos de Baependi produzem móveis com madeira descartada

Os estrados de madeira desmontados no Presídio de Baependi são doados por uma empresa de pedras decorativas

Reciclar é o lema de Rodrigo Diniz, 23 anos, detento do Presídio de Baependi, no Sul de Minas, que transforma palets em móveis e até o velho motor de um tanquinho em máquina de lixar madeira. As peças produzidas com estrados de madeira, usados para armazenagem de produtos em supermercados, galpões e transportadoras, estão virando estantes, sofás e mesa de centro na unidade prisional da cidade.

A produção começou há cerca de três meses, após o diretor de segurança, Rodrigo Martins, identificar o talento do preso para resolver problemas de hidráulica e elétrica no presídio e mostrar um vídeo sobre a utilização de madeira de palets na construção de móveis. A partir disto, o detento se dedicou a criar peças utilitárias para a administração do presídio.

Os visitantes da unidade, que aguardam algum atendimento na área administrativa, agora se sentam em um banco confeccionado por Rodrigo. Aquelas grandes pastas, usadas para arquivar documentos em escritórios, estão guardadas em uma estante, também feita por ele, fixada em uma parede.

A sala do diretor-geral, Luiz Waldeci Marcilio, tem três peças criadas pelas mãos do “detento artesão”: uma mesa de centro, um sofá chaise e um suporte de frigobar. “As peças são de excelente qualidade e acabamento. Temos planos de aprimorar os demais ambientes da unidade e montar uma oficina para que os demais detentos aprendam a reciclar com arte.”

Poucas palavras

As mãos de Rodrigo, que já cultivaram morangos em uma fazenda na cidade de Carvalhos, localizada também no sul do Estado, usam ferramentas simples para fabricar os móveis: serrote, martelo e torquez. “Primeiro desmonto as peças e tiro todos os pregos, depois lixo e faço as medidas.” Rodrigo usa uma ferramenta criada por ele para o trabalho. “Encontrei um tanquinho largado em um canto e usei o motor para fazer uma lixadeira, pois não é fácil deixar as peças lisas na mão.”

O detento é reservado e fala pouco, mas não faltam elogios sobre o seu comportamento e disciplina. “Ele estuda na escola da unidade (7ª série) e sempre está disposto a ajudar ou consertar alguma coisa. É muito educado, sabe respeitar a todos”, relata a agente de segurança penitenciária, Débora Dias Bacha.

Rodrigo está no presídio há dois anos e cinco meses, não tem filhos e é solteiro. Já recebeu vistas da família, mas parece ficar preocupado com um possível constrangimento de seus parentes por vê-lo preso.

Matéria prima

O conhecimento e talento de Rodrigo já tem discípulos. Ele ensina outros três presos a trabalhar com a madeira, que também o ajudam no passo a passo da fabricação das peças. A montagem e preparação dos móveis peças exige mais de uma pessoa, principalmente pela falta de equipamentos profissionais na oficina. A atividade despertou um sonho no artesão: “quando eu deixar o sistema prisional pretendo continuar a fabricar móveis e até construir peças diferentes”.

Os estrados de madeira desmontados no Presídio de Baependi são doados por uma empresa de pedras decorativas, e a direção da unidade busca o material na empresa. Os estrados servem para transportar as pedras com segurança e ainda apoiá-las no depósito e área de exposição.

Há uma tendência para a utilização de palets, sejam de madeira, metal ou plástico na criação de móveis, pois além de serem feitos com matéria-prima reaproveitada geram efeito descolado e descontraído a qualquer ambiente. Eles viraram astros na decoração sustentável e podem ser comprados de segunda mão em centros de abastecimento e mercados.

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