quinta-feira, 15 de Outubro de 2015 11:53h

Detentos fabricam jalecos para centro cirúrgico em presídio de Divinópolis

Nove presos do Presídio Floramar da Seds trabalham na produção e entregam 1,3 mil jalecos por mês para o Hospital São João de Deus

Pedaços de tecido que embalam o instrumental cirúrgico do Hospital Sâo João de Deus eram descartados, indo parar no aterro sanitário de Divinópolis. Em dificuldades financeiras, a instituição filantrópica, fundamental  na rede de saúde pública do município de 228.643 habitantes, gastava dinheiro na compra de jalecos descartáveis para os médicos e enfermeiros atuarem no bloco cirúrgico. Há quatro meses, o desperdício acabou. Os pedaços de pano são emendados nas máquinas de costura do Presídio Floramar, da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), e viram jalecos e embornais para instrumental cirúrgico.
“O material produzido é impermeável e proporciona segurança aos profissionais que atuam nos leitos de isolamento”, destaca Graziele Lemos, responsável técnica pela comissão do Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) do Hospital Sâo João de Deus.
Nove presos do Floramar entregam 1,3 mil jalecos por mês para o São João de Deus. Considerando as dificuldades financeiras da instituição, o juiz corregedor e de execução criminal da Comarca de Divinópolis, Francisco de Assis Corrêa, autorizou a instituição a remunerar apenas dois detentos, no valor de três quartos do salário mínimo, como prevê a Lei de Execução Penal. O restante trabalha em troca de remição de pena, com desconto de um dia a cada três trabalhados.
Segundo o juiz, há uma harmonia com a direção do sistema prisional da região para gerar novas oportunidades aos detentos e cumprimento humanizado das penas.  “Esse projeto atende as diretrizes da Lei de Execução Penal, que prevê o trabalho de presos, sobretudo no semiaberto. Além de remir a pena, o detento também recebe uma oportunidade de ressocialização” destaca Corrêa.
A diretora-geral do Presídio Floramar, Elisabete Pinheiro Fernandes,  observa que a parceria com o hospital tem um caráter pedagógico para os presos. “Além da remição de pena e da qualificação para o trabalho, eles contribuem para o meio ambiente e ajudam uma instituição que presta um serviço relevante para a população de Divinópolis”, diz, observando que presos já separam todos os materiais recicláveis do lixo do estabelecimento prisional.
 

Polo de confecções
A parceria com o Hospital São João de Deus é parte da inserção do Presídio Floramar no dinâmico e tradicional polo de confecção de Divinópolis. Das máquinas de costura do estabelecimento prisional saem, mensalmente, 9 mil lençóis para o sistema prisional de Minas Gerais, por exemplo. São 48 homens e 12 mulheres ocupados.
Conta muito para o sucesso dessa linha de produção a experiência de pessoas como José Adelmo, fornecedor de serviços para grandes confecções  antes de ser preso, 20 anos atrás. Já perdeu a conta dos detentos que treinou no Floramar. Ele não só costura. Dá manutenção nas máquinas, graças a cursos que teve a oportunidade de fazer no sistema prisional de Minas Gerais. “Aqui me sinto útil, produzindo e ajudando outros presos a produzir”, afirma.
 

Novos horizontes
A parceria entre a Seds e a indústria de confecções de Divinópolis tem um grande  potencial a ser explorado. Jenifer Silva Araújo, de 23 anos de idade, é um exemplo dessas possibilidades. Dentro da oficina onde outras presas cortam e embainham lençóis, ela trabalha num canto, sozinha, bordando biquínis e maiôs. Uma peça mais delicada chega a consumir toda a jornada diária de oito horas de trabalho.
Jenifer trabalha para a Verde Limão, uma indústria renomada de moda praia, com forte presença no exterior. “Uma das donas veio aqui e propôs o trabalho para as presas. Era no início uma aplicação de macramê. Eu me candidatei e estou há um ano e meio nessa história. Recebi treinamento  e, aos poucos, fui preparada para fazer aplicações de bijuterias e pedras”, conta.
Alcina Machado, gerente de Produção da Verde Limão Moda Praia, elogia a experiência e o trabalho da detenta. “É gratificante saber que temos a oportunidade de ajudar, e, em contrapartida, ainda receber um trabalho de qualidade. A Jenifer faz o acabamento final das peças. É um trabalho minucioso, que não pode apresentar defeitos.”

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