terça-feira, 27 de Novembro de 2012 04:05h Gazeta do Oeste

Flanelinhas loteiam estacionamentos na Região Centro-Sul de BH

O uso do talão de estacionamento rotativo tem caído em áreas da Região Centro-Sul de BH. Em dois dias acompanhando a movimentação em nove ruas da regional, o Estado de Minas constatou que, de 1.147 vagas ocupadas ao longo dos dias, apenas 758 (51,3%) carros usavam os tíquetes. E esse número poderia ser bem menor, porque os flanelinhas administram, na prática, as vagas que deveriam ser públicas, e passaram a preencher e trocar as folhas nos carros. A manobra revela duas formas de atuação desses informais que lotearam boa parte dos quarteirões mais disputados da cidade e sabotam o funcionamento dos estacionamentos rotativos. Há aqueles que ficam de posse das chaves dos veículos, incumbidos de preencher o talão que permite estacionar apenas quando algum fiscal aparece. Outros apenas terminam de adicionar dia e hora em folhas semipreenchidas, deixadas pelos seus “clientes” sobre os paineis dos automóveis.

A interferência dos flanelinhas vai além. Em nome da “clientela”, eles privatizaram quarteirões inteiros, subvertendo as regras de trânsito implantadas em cada local. No quarteirão da Rua dos Goitacazes, entre ruas da Bahia e Espírito Santo, os estacionamentos para motocicletas se tornaram filas duplas e até triplas desses veículos, para caberem mais motociclistas que pagam os flanelinhas. Ao lado, a área de 50 metros prevista para carga e descarga é sistematicamente ocupada por carros orientados e sob a “vigília” dos informais.

Sem lugar no espaço de carga e descarga para estacionar sua Kombi repleta de mercadorias, o autônomo Ismael Antônio de Souza, de 51 anos, conta que precisou dar três voltas no quarteirão até perder a paciência e estacionar em frente a uma garagem. “É difícil encontrar uma vaga aqui no Centro. Nem mesmo os lugares que foram criados para isso estão sendo respeitados. A gente chega com horário para entregar e encontra tudo tomado por carros de passeio dos clientes dos flanelinhas”, disse.

Os “donos da rua” da região agem de forma truculenta e impõem regras para manter o lucrativo revezamento de clientes, sonegando vagas aos demais veículos. Ao perceber que a equipe de reportagem entrevistava o motorista, um dos flanelinhas, um homem forte, com expressão intimidadora, começou a rondar a equipe e o entrevistado, se posicionando ao lado dele. Intimidado, o motorista da Kombi passou a dizer que a culpa não era dos informais. “A imprensa pega no nosso pé, mas somos trabalhadores. Imagine se esse pessoal que está na rua estivesse roubando para alimentar a família”, alegou o flanelinha, que passou a querer intimidar a reportagem.

Absurdo No quarteirão de cima da Goitacazes, entre a Espírito Santo e a Rio de Janeiro, a administradora Ana Cláudia Ferreira, de 36 anos, não conseguiu encontrar lugar para estacionar. Rodou algumas vezes, mas, quando encontrou um carro saindo de uma vaga, acabou bloqueada por um flanelinha, que permitiu a outro veículo, de um “cliente”, parar. “Isso é absurdo. Eles me fecharam. E isso ocorre na cidade toda. Fui levar minha mãe ao hospital e não consegui vaga. Precisei rodar por quase uma hora até que acabasse a consulta dela. Agora, viemos ao banco resolver alguns negócios e fazer compras e não me deixam estacionar”, reclamou.

O quarteirão onde ela tentou encontrar vagas aparece como um dos mais loteados do levantamento feito pelo EM. Ao longo de um dia, as 221 vagas possíveis foram ocupadas por apenas 83 veículos, ou seja, 62,5% em das vagas não houve revezamento. Nesse mesmo período, apenas 129 (58,3%) veículos usaram o talão de rotativo, confiando nas manobras e na vigilância dos “tomadores de conta”.

“Os estacionamentos estão se tornando mais valiosos à medida que se alargam as vias para privilegiar o fluxo e com isso se extinguem espaços de parar automóveis. Por isso a fiscalização dessas poucas vagas deveria ser melhor. Mas a melhoria e o uso mais abrangente do transporte público deveria vir primeiro, já que carros ocupam espaços e transportam pouca gente”, afirma o engenheiro civil e especialista em transporte e trânsito Silvestre de Andrade Puty Filho.

Vista grossa para abusos

Policiais militares do Batalhão de Trânsito (BPTran) e guardas municipais passaram esporadicamente em todos os nove locais em que o Estado de Minas acompanhou a frequência de revezamento de veículos nos estacionamentos rotativos. Contudo, seja no hipercentro, seja em outros pontos da Centro-Sul, nenhuma multa foi aplicada. Os veículos se safaram de autuações mesmo quando os responsáveis pela fiscalização passaram na frente de carros que simplesmente não exibiam o talão sobre o painel ou dependurado no retrovisor.

Num dos locais onde a ação dos flanelinhas é mais intensa e prejudica o revezamento nas vagas, o quarteirão da Rua Fernandes Tourinho entre a Avenida Cristóvão Colombo e a Rua Pernambuco, além de não fiscalizar, viaturas da Polícia Militar foram vistas duas vezes estacionadas na porta de garagem, sem as luzes de emergência ligadas. No trecho, os informais param carros dos clientes ocupando mais espaço para reservar vagas a outros fregueses, mudam veículos de lugar para lavar e inserem talões de rotativos quando fiscais se aproximam. As 231 vagas possíveis foram ocupadas, num dia, por apenas 132 veículos, deixando uma taxa de ociosidade de ofertas de espaços para estacionar de 43%. Somente 166 (71,8%) carros usavam folhas de rotativo.

Perto dali, na Getúlio Vargas, um furgão com adesivos da própria Prefeitura de Belo Horizonte foi visto estacionado e vazio no meio de uma baia reservada à parada de ônibus e no estacionamento proibido após um ponto de táxi.

Apesar de tudo isso acontecer sob os olhos dos pesquisadores da BHTrans, o gerente de estacionamento rotativo da empresa, Sérgio Rocha, afirma que o impacto dos flanelinhas sobre a dinâmica do estacionamento público rotativo é “desconhecido” pela empresa. “Não temos qualquer relacionamento com esses informais. Não vendemos talões para eles. Essa é uma questão de segurança pública e de consciência do cidadão em respeitar a rotatividade”, disse. A recomendação do gerente é de que não se entregue chaves a guardadores de carros. “Essa é uma questão séria e vai além do estacionamento. Se o flanelinha for inabilitado, atropelar e matar alguém, o motorista pode ser processado, já que é crime entregar a posse do veículo a inabilitados”, alerta.

Polícia militar e Guarda Municipal informaram que a fiscalização do rotativo está entre suas prioridades. As duas corporações juntas aplicaram 89.168 multas a pessoas que estacionaram irregularmente. Isso representa um acréscimo de 12,7% frente aos 79.088 autos emitidos no ano passado.

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