quarta-feira, 19 de Setembro de 2012 09:28h Gazeta do Oeste

Metade dos acidentes com mortes registrados em BH recentemente teve envolvimento de jovens

Os olhos grandes e verdes estão vermelhos e mergulhados na dor. As lágrimas chegam de repente, interrompem as palavras e trazem à tona todas as lembranças de uma vida. Desde a madrugada de sábado, quando soube do acidente que matou o seu filho Fábio Pimentel Fraiha, de 20 anos, no Trevo do Belvedere, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, a designer Ana Cristina Franco Pimentel tem a certeza absoluta de que o seu mundo se esfacelou. “Não consigo rezar, meu coração parece que não existe mais. Não sinto nada, a impressão é de que estou anestesiada”, conta Ana Cristina, que, na tarde de ontem, foi a uma gráfica cuidar do santinho a ser distribuído na missa de sétimo dia. “Tem horas que vem um aperto no coração, é a dor do sempre”, revela a mãe, enquanto vê, na tela do computador, uma das últimas imagens do jovem de sorriso feliz.

Nestes primeiros dias, Ana Cristina busca refúgio na casa da mãe, Matilde Franco, no Centro Histórico de Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH. “Não vou suportar voltar para o apartamento no Bairro Santa Efigênia, na capital, onde morava com o Fábio. Não é por ser meu filho, mas ele era uma pessoa carinhosa, bem-humorada, amigo de todos os momentos, muito querido. Já estava virando um homenzinho”, recorda-se Ana Cristina, mãe também de Marcela, de 17, que mora com o pai, o empresário Júlio César Fraiha. Exatamente no dia da missa de sétimo dia, a ser celebrada, na sexta-feira, às 18h45, na capela do Colégio Arnaldo, será lembrado um ano da morte do pai de Ana Cristina. “São situações diferentes. Sofri com a perda do meu pai, mas ficar sem um filho é elevar essa dor à milésima potência.”

Se os pais que perdem os filhos em acidentes de trânsito são o retrato sem retoques da dor, os jovens que partem engrossam, a cada dia, as trágicas estatísticas. Conforme dados da BHTrans, Detran-MG e secretarias estadual e municipal de Saúde, de julho a setembro de 2011, em BH, 49% dos mortos e feridos graves nas ruas e avenidas tinham entre 18 e 29 anos. Em segundo lugar, 20% na faixa etária de 30 a 39, e, em terceiro, 13% com idade de 40 a 49 anos. “A gente não pode prender os filhos em casa, eles têm que sair, trabalhar e se divertir, mas precisa acabar esta impunidade. Fábio foi assassinado no trânsito. O pior de tudo é que o responsável não apenas matou meu filho: destruiu nossa família A vida, de repente, se torna um lixo, pois até o carro dele foi saqueado depois do acidente.”

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