segunda-feira, 5 de Novembro de 2012 02:33h Gazeta do Oeste

Segredo para trânsito melhor é tolerância zero com o descumprimento da lei

A parada na porta da escola é só por um minuto. O tempo é o mesmo que o motorista espera ganhar ao avançar com o carro e fechar o cruzamento. A pressa também faz muitos ignorarem limites de velocidade ou avançarem o sinal vermelho. Os que agem assim, e não são poucos, fazem mal ao trânsito de Belo Horizonte. Além de aumentar o risco de acidentes e mortes, eles contribuem para congestionar ainda mais as vias. O preço é alto: com o aumento da frota, a falta de educação, admite a própria BHTrans, é um dos componentes que podem ampliar o totalde vias saturadas em horários de pico de 8,8% – dado de 2008, o último disponível – para 19% em 2020, caso medidas de impacto no transporte e circulação forem tomadas. Especialistas ouvidos pelo Estado de Minas afirmam ser possível tornar as ruas e avenidas lugares com mais paz e obediência. O segredo, eles dizem, é tolerância zero com o descumprimento da lei. É preciso reforçar a educação desde cedo, promovendo mais campanhas, garantir uma fiscalização mais eficiente e rigorosa e reduzir a sensação de impunidade.

Severidade é a palavra de ordem para que a tarefa de frear as infrações de trânsito seja posta em prática em Belo Horizonte. Somente com fiscalização mais intensa, avaliam especialistas, a capital pode se ver livre de abusos que deixam a cidade congestionada e motoristas cada vez mais irritados. Concretamente, as medidas incluem maior rigor na atuação, aumento do número de fiscais, equipamentos e viaturas e, para alguns especialistas, até mesmo por uma questão que tramita na Justiça e causa polêmica na capital: o retorno do poder de multa dos agentes da BHTrans, proibidos de usar bloco e caneta para punir desde 2009.

“A única forma de mudar essa cultura de falta de educação é ter uma fiscalização que não tolere as imprudências no trânsito, notadamente uso de bebida, excessos de velocidade e os ‘jeitinhos’ para levar vantagem”, defende o chefe do Departamento de Transportes da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ronaldo Guimarães Gouvêa. O caminho para esse novo cenário, no entanto, esbarra no contigente de equipamentos e fiscais. Segundo o especialista em tráfego urbano, os 97 radares espalhados pela cidade não dão conta de impor limites a tantos deslizes dos motoristas, bem como os atuais 836 fiscais de trânsito. Do efetivo, 413 são agentes da BHTrans, 261 guardas municipais e 162 policiais do Batalhão de Trânsito.

Para o consultor em transporte e trânsito Osias Batista, o aumento no quadro de pessoal é questão urgente, já que a presença do agente de trânsito inibe a ação dos infratores. Ele comenta que os cerca de 800 fiscais estão muito distantes dos aproximadamente 1,2 mil agentes fiscalizadores da década de 1990, quando a cidade tinha cerca de 400 mil veículos. Problema mais grave ainda, segundo ele, é que metade do efetivo não tem como multar e, por isso, não teria autoridade. Tanto Batista, quantdo Gouvêa aprovam o retorno do poder de multa aos mais de 400 agentes da empresa que gerencia o trânsito na capital.

“São eles que entendem de operação de trânsito. Formaram-se para isso, mas estão nas ruas com conhecimento e sem autoridade para cobrar o cumprimento das regras”, opina Batista. Ele não descarta, no entanto, que a presença do agente contribui para orientar o trânsito, especialmente para evitar fechamento de cruzamento e congestionamentos.

Os números indicam o tamanho da falta de educação no trânsito da cidade, onde as infrações de trânsito não param de crescer. Entre 2010 e 2011, o salto foi de 7,4%, quando as multas aplicadas passaram de 963.799 autuações para 1.035.661 multas. Este ano, até agosto, houve aumento de 52% em relação a 2011: as infrações pularam para 1.576.769. As estatísticas também mostram as consequências dos abusos nas vias da capital. Embora o número seja menor que em 2010, no ano passado, 217 pessoas perderam a vida e 16.294 ficaram feridas em 20.110 acidentes ocorridos na cidade. No ano anterior foram 262 mortos, 16.822 pessoas feridas e 20.875 acidentes.

Câmeras Receita para diminuir esses números seria, na avaliação de Batista, investir pesado em sistemas de monitoramento e fiscalização eletrônica, com mais radares e câmeras, sendo que estas inclusive pudessem auxiliar na aplicação de multas. “O órgão público não pode ter vergonha de ser severo e deve usar de todos os recursos disponíveis para coibir irregularidades”, cobra.

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