segunda-feira, 9 de Novembro de 2015 08:50h Atualizado em 9 de Novembro de 2015 às 08:56h. Lorena Silva

Violência escolar em Divinópolis será debatida em audiência pública

A onda de violência, envolvendo estudantes, professores e funcionários das escolas de todas as redes em Divinópolis não chega ao público

Abafada pelas próprias instituições, que temem exposição pública, a violência ocorre de diversas formas, especialmente nos conflitos entre estudantes, que já ocasionaram situações realmente graves. A Polícia Militar tem sido chamada com frequência em unidades escolares e aponta como um dos motivos para o desvio de conduta de muitos estudantes, a ação do tráfico de drogas.
A violência externa é um dos problemas que mais afligem aos pais de alunos. Um experiente policial revela que a venda de drogas na porta das escolas é um ato corriqueiro e isso acontece, inclusive, à luz do dia. Diz ainda que há muitos estudantes que trabalham para o tráfico e revela um fato ocorrido há dois anos, quando um estudante de 15 anos teve que ser retirado às pressas da sala de aula, depois de ser salvo pelo porteiro de morte certa. O porteiro, hoje aposentado, conta que os traficantes chegaram à escola, perguntaram pelo garoto e avisaram que iam matá-lo. Imediatamente ele chamou a Polícia, que retirou o jovem da escola. Para evitar que ele fosse assassinado posteriormente, ainda segundo revela o porteiro, a família enviou o garoto para Lagoa da Prata, onde continua residindo.
Embora seja do conhecimento das autoridades públicas, a discussão da violência nas escolas da cidade sempre foi um tabu. Entretanto, a Comissão de Educação da Câmara Municipal, formada pelos vereadores Oriosmar Pinheiro, o Careca da Água Mineral (PROS), Adilson Quadros (PSDB) e José Wilson Piriquito (SD), vai realizar audiência pública no próximo dia 25 para tratar exclusivamente desse tema. O encontro vai durar cinco horas – de 7h às 12h – e pretende convocar professores e estudantes que já passaram por alguma situação de violência. Polícias e autoridades municipais também serão convidadas. O presidente da Comissão, Careca da Água Mineral, diz que a Câmara tem a obrigação de debater esse tema. “Já passou da hora de discutirmos essa questão. A Câmara precisa ter conhecimento do que acontece nas escolas e tem a obrigação de buscar soluções e é esse o objetivo dessa audiência pública”, esclarece.

 

INTERVENÇÃO
Os casos de violência nas escolas de Divinópolis já exigiram algumas medidas mais drásticas da Secretaria Municipal de Educação. Em novembro do ano passado, a secretária Rosemary Lasmar, determinou intervenção na Escola Municipal João Gontijo da Fonseca, localizada no Bairro São Lucas, na divisa com o Bairro Del Rey, um dos pontos cruciais de atuação do tráfico. A região é conhecida pela violência e pela venda de drogas nas ruas em meio aos moradores, que assistem calados a atuação dos traficantes.
Na ocasião, a Secretaria justificou a intervenção diante dos muitos conflitos internos. “Percebemos agora no final do ano que não havíamos conseguido o objetivo pedagógico e isso nos levou a perceber os muitos conflitos entre os alunos, entre o corpo docente e especialmente a falta de interesse dos estudantes na escola. Isso nos levou à intervenção, que não é nenhum ato punitivo à escola, mas uma forma de buscarmos identificar o que está errado”, explicou a Secretaria na ocasião.
Além da violência externa, motivada pela rotina do tráfico, internamente professores da escola ainda se sentem intimidados, uma vez que muitos já foram ameaçados por estudantes. No início do ano passado, a empresa que faz o transporte de alunos para a Escola João Gontijo, quis rescindir o contrato de prestação de serviços, pois o ônibus foi apedrejado três vezes, com janelas quebradas e outros danos ao veículo. Foi necessária uma reunião com a comunidade escolar para pedir auxílio no sentido de que a própria população ajudasse a evitar essas ações.
Outro fato registrado na mesma escola foi a apreensão de um aluno que frequentava a 7ª série por assalto a mão armada. O caso reflete que os conflitos sociais e a desunião familiar, além das condições de pobreza, estão presentes naquela região da cidade. O crime aconteceu no dia da morte da mãe do estudante. Ele saiu do velório, cometeu o assalto e retornou para acompanhar o sepultamento da mãe, sendo preso pouco antes do enterro.
Já em maio desse ano, a professora Rosângela Morais Silva, teve que deixar a escola onde trabalhou mais de 20 anos. Ela revelou à repórter Lorena Silva, que se viu envolvida em uma onda de boatos de que teria um envolvimento emocional com um funcionário da escola, o que nunca aconteceu. A partir da boataria, Rosângela foi ameaçada e sofreu violência psicológica com intimidações rotineiras, até que teve que deixar a escola.
A secretária municipal de Educação admite que a onda de violência é preocupante e defende a participação de todos em busca das soluções. Para Rosemary Lasmar, somente a participação coletiva nesse processo, pode modificar o quadro atual. “A família, a escola e o Estado são todos agentes encarregados de melhorar o relacionamento entre professores e alunos, evitando dessa forma atitudes de violência de ambos os lados e o desgaste nas relações”, opinou.

 

Créditos: Lorena Silva

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