sexta-feira, 4 de Novembro de 2011 09:58h Atualizado em 4 de Novembro de 2011 às 10:04h. Flávia Brandão

Aristides comemora “Comissão da Verdade”

O ex-prefeito conta que após a instituição da Lei da Anistia aos crimes da Ditadura, e a Constituição de 1988 ele entrou com os papéis para requerer seus direitos. “A anistia entendeu que fui prejudicado no meu trabalho, física e psicologicamente

A Comissão da Verdade, que aguarda a sanção da Presidente Dilma Rouseff (PT) e tem o objetivo de apurar a violação dos direitos humanos no período de 1946 a 1988 sem punir os agentes do regime, mas reconstruindo o passado ainda obscuro da época da Ditadura Militar já é comemorada por algumas vítimas da época, como o ex-prefeito de Divinópolis, Aristides Salgado. Perseguido injustamente e preso três vezes, hoje, o ex-prefeito recebe inclusive indenização pelos atos de tortura física, psicológica que o prejudicaram e que cercearam sua liberdade no período. 


O ex-prefeito Aristides avalia que a Comissão da verdade é “excelente” ideia porque sem entrar no mérito daqueles, que estavam do lado da Ditadura e os que sofreram com ela - já que isso a Lei da Anistia já definiu - ou seja sem haver “caça a bruxas” ela irá reconstruir a história mostrando as atrocidades cometidas pelo Estado por meio de seus agentes militares. O ex-prefeito afirma que reconstruir essa verdade dos fatos é fundamental porque houve excessos, que trouxeram lágrimas e lágrimas as famílias brasileiras, sendo que ainda há fatos obscuros.   “Os excessos não justificaram porque foram contra pessoas honestas, trabalhadoras, pais de família, estudantes como eu que pregava a democracia e liberdade através do voto que nos temos hoje”, declarou.


Perseguição 


O ex-prefeito que recebe hoje indenização por ter sido vítima do regime conta que talvez tenha sido um dos primeiros presos políticos do país, na madrugada de 1º de abril de 1964. A primeira prisão foi quando ele, na época estudante de arquitetura, estava na UFMG fazendo trabalho prático do curso durante a madrugada. Nesse dia, agentes do DOPS, soldados do exército e alguns informantes universitários – “dedos duros” a favor do Golpe Militar - entraram na universidade e o prenderam junto a outros cinco estudantes. “Fomos encaminhados ao DOPS com eles dando tapa na gente, nos colocaram em uma cela e ficaram gritando conosco falando que éramos comunistas e subversivos. Qualquer coisa que a gente fala eles davam um safanão, um tapa. Nos prenderam e jogaram água suja e depois água com creolina”, declarou.
O ex-prefeito afirma que não fazia parte de nenhum grupo político o que os estudantes tinha feito e pregado nos vidros da faculdade apenas cartazes defendendo as reformas de base e contra qualquer golpe militar. “Na escola nos tínhamos feito alguns cartazes a favor das reformas de base do país, como a reforma urbana, agrária, política. Principalmente a reforma urbana, que fazia parte dos nossos estudos como arquitetos e urbanistas”, declarou.


O ex-prefeito diz que foi preso e só saiu do local pelo 4º ou 5º dia totalmente abalado psicologicamente, visto que eram feitos interrogatórios e os agentes não aceitavam o que dizíam  dando tapas e safanões. Aristides conta que conhecidos da família e algumas autoridades intercederam para liberação dele em Belo Horizonte.


Ele conta que retornou os estudos, após alguns dias em Divinópolis com a família, mas ficou abalado psicologicamente e inclusive passou a ser vigiado já que não podia nem viajar para cidades vizinhas sem pedir ordem e avisar ao delegado de policia da cidade. “Foi um regime vigiado eu me senti tolhido nas minhas liberdades, sofri coação física, psicológica, ficaram tentando que eu confessasse alguma coisa porque não tinha nada a ver com o que eles estavam falando”, declarou.


Ideais


O ex-prefeito disse o que defendia era dentro dos princípios cristãos, na época ele não participava de nenhum partido político, mas sim da Juventude Universitária Católica (JUC), uma agremiação estudantil, que tinha estudantes de vários cursos de escolas de Belo Horizonte e durante os interrogatórios falava que defendia a liberdade, democracia, que era contra as injustiças sociais, como a fome e dependência do capitalismo internacional.  “Isso para eles era o suficiente para eles estarem nos perseguindo”, declarou.


Aristides conta que a segunda prisão ocorreu após a Caminhada pela Liberdade e Democracia, movimento que reuniu estudantes, intelectuais, artistas, operários e foi visto como uma afronta ao regime, sendo, portanto repreendida e gerando a prisão de cerca de 200 pessoas. A terceira prisão que foi vítima aconteceu em Divinópolis, em 69, quando um cidadão parou na rua para pedir informação e o intimidando pediu para entrar no veículo. Aristides conta que foi empurrado para dentro do carro e percebeu que estava sendo encaminhado para o quartel da Polícia Militar. “Lá colocaram uma venda nos meus olhos e dirigiram meus passos. Ouvi uma voz parecida com o Dr. Simão e uma do Celso Aquino e do José Antônio Pinheiro, que era da Rádio Cultura Divinópolis”, declarou.


  Aristides relembra que foi levado para Neves logo após ficou incomunicável durante 17 dias sozinho em uma cela. “Davam tapas, chutes, nos empurravam. Nos dois interrogatórios, levei tapas, safanões, acordava de madrugada para ser interrogado, pressão psicológica”, declarou.


Anistia


O ex-prefeito conta que após a instituição da Lei da Anistia aos crimes da Ditadura, e a Constituição de 1988 ele entrou com os papéis para requerer seus direitos. “A anistia entendeu que fui prejudicado no meu trabalho e fui prejudicado física e psicologicamente e perseguido pela Ditadura Militar”, declarou.  Aristides conta que aconteceu muitas vezes anterior a isso de ter que comparecer a Juiz de Fora para prestar depoimentos para dizer que não tinha ligação com nenhum grupo político exterior. Em 2001, ele passou a receber a pensão justificada pelas prisões e perseguição política e coerção a seu direito de trabalho. “Isso foi um prejuízo enorme não só para mim, mas para vários companheiros e os que foram mais torturados e até assassinatos”, declarou. 

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