segunda-feira, 5 de Novembro de 2012 02:25h Gazeta do Oeste

Biografia faz a trilha de Marighella

A trajetória de Carlos Marighella daria um filme de ação. Com todos os ingredientes para torná-lo um sucesso de bilheteira digno de Hollywood. No Brasil, sua história já foi contada nas telonas. A meca do cinema estadunidense ainda não descobriu a vida fascinante desse baiano (1911-1969), fundador do maior grupo brasileiro armado de combate à ditadura, a Aliança Libertadora Nacional (ALN), deputado constituinte, poeta, apaixonado por samba e pelo sambista Cartola, bom de bola, valente, inimigo público número 1 da ditadura, tido pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos como o sucessor de Che Guevara. Muitos brasileiros também não. Quem se interessar pode começar pelo livro do jornalista Mário Magalhães, que abandonou as redações, mas não o trabalho de repórter, para escrever Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, lançado este mês pela Cia das Letras.

A biografia consumiu nove anos de investigação jornalística. E trouxe histórias saborosas que revelam o homem por trás do guerrilheiro e desvendam mitos criados em torno da sua figura. Uma das mais comoventes passagens relatadas por Magalhães tem a ver com a mãe do guerrilheiro. Ainda pequeno, na Baixa do Sapateiro, bairro de Salvador (BA) onde nasceu e passou a infância e começo da juventude, era amarrado no pé da mesa pela mãe, dona Maria Rita, uma negra alta e de olhos lindos, casada com o italiano Augusto Marighella. O temor materno era que “Carrinho”, apelido dado por uma das irmãs, fugisse para jogar futebol. Uma vizinha viu a cena e alertou dona Maria Rita. “Não faça isso. Criança que é presa assim acaba presa de verdade.” Dito e feito. Marighella foi preso várias vezes e torturado barbaramente, em 1935, durante o governo de Getúlio Vargas. Dona Maria se remoeu de culpa a vida inteira e rezou mais ainda para que Deus tirasse da cabeça do filho os “pensamentos” de justiça social e revolução. De nada adiantou.

O livro também revela passagens da história do partidão no Brasil, como era chamado o PCB, e de alguns de seus feitos, como o levante de 1935 que transformou Natal, capital do Rio Grande do Norte, em uma república comunista governada por uma junta denominada Comitê Popular Revolucionário. O sonho vermelho durou quatro dias. Tempo suficiente para que a junta baixasse pela metade o preço do pão e da passagem do bonde, colocasse em dia o salário dos servidores públicos, quitasse as dívidas do estado com pequenos credores, abolisse o imposto pago pelos feirantes e assegurasse a liberdade irrestrita a culto e opinião. Tudo ao som de “A internacional.”

Fusca A biografia de Marighella desmonta a versão oficial de que ele teria sido morto dentro de um fusca, depois de sacar um revólver e tentar resistir à prisão. A única verdade é a cor azul do fusca, ironicamente pago com recursos da CIA. Marighella estava desarmado quando foi fuzilado em São Paulo, em novembro de 1969. Faz também justiça aos dominicanos, acusados injustamente, até mesmo pela esquerda, de trair Marighella, ao indicar para os policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) onde teriam um encontro com o guerrilheiro. Os fatos que culminaram com sua morte são descritos com riqueza de detalhes. Aliás, os pormenores citados ao longo do livro podem levar o leitor a suspeitar se a obra não é romanceada. Dúvida logo afastada pelo próprio autor, que explica como ficou sabendo, por exemplo, do comentário de Marighella sobre o gosto “adocicado de sangue” que tomou conta de sua boca ao ser alvejado dentro de um cinema, em 1964. Toda a reconstituição de detalhes e diálogos, segundo ele, foi feita ao menos “por um interlocutor, testemunha ou confidente da conversa”. É que tudo é tão impressionante que poderia mesmo ser um romance ou um filme. Mas é real.

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