terça-feira, 4 de Outubro de 2016 15:10h Agência Brasil

Eleição de apenas oito deputados para prefeituras reflete desgaste, dizem analistas

A eleição, em primeiro turno, de apenas oito dos 71 deputados federais que se candidataram a prefeituras em todo o país reforça os sinais de desgaste do cenário político, segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil. O número é quase a metade do registrado nas eleições municipais de 2012, quando 15 deputados federais foram eleitos prefei­tos já no primeiro turno e 18 disputaram o segundo turno.

Este ano, apenas quatro deputados candidatos vão para a segunda etapa do plei­to: Cícero Almeida (PMDB -AL), que disputa a prefeitura de Maceió; Nelson Marchezan Junior (PSDB-RS), candidato em Porto Alegre); Edmilson Rodrigues (PSOL-PA), em Belém; e Valadares Filho (PSB-SE), que concorre à prefeitura de Aracaju. “A eleição, de fato, se deu num clima de desgaste generalizado da política, mas não tem porque isto se refletir apenas nos deputados. Tem reflexo sobre os partidos”, ponderou o cientista político Carlos Ranulfo, coordenador do Centro de Estudos Legisla­tivos da Universidade Federal de Minas Gerais. Entre os si­nais deste desgaste, segundo o analista, estão discursos de candidatos vitoriosos como o prefeito eleito de São Pauli, João Doria (PSDB), que desta­cou ao longo de sua campanha o fato de “não ser político, mas gestor” como estratégia para atrair votos.

O mesmo tom foi adotado por Alexandre Kalil (PHS), que está no segundo turno da disputa pela prefeitura de Belo Horizonte e enfrentará João Leite (PSDB). Além do discurso de alguns candidatos, Ranulfo também destacou que muitos nomes que dis­putavam o pleito evitaram associar suas imagens à de políticos mais conhecidos, mas que estão sob a mira de investigações policiais. “É um desgaste geral da política. Os candidatos pouco mostraram seus padrinhos. Aécio [Neves] aqui [em Minas Gerais] não apareceu”, citou.

Analista do cenário legisla­tivo do país, Ranulfo disse que as eleições deste domingo não mostraram uma tendência de renovação clara. Segundo ele, ao mesmo tempo que novos nomes emergiram, “octoge­nários foram eleitos”.

Diante dos resultados mu­nicipais, Ranulfo aposta em uma mudança na composição da Câmara dos Deputados a partir de 2018, com maior pul­verização partidária, reflexo do crescimento de diferentes legendas por todo o país. “Se não houver uma reforma po­lítica, pode ter um aumento do número de partidos, por­que os prefeitos são a base de deputados. Está aumentando a dispersão [de legendas assu­mindo os Executivos locais], isto tende a tornar a Câmara mais fragmentada”, calculou, projetando um aumento dos atuais 28 partidos representa­dos na Casa para 33.

Outra consequência, se­gundo Ranulfo, é o fim da polarização entre PT e PSDB, que, segundo ele, não deve se repetir nas eleições de 2018. “Resta saber quem vai enfren­tar o PSDB, que pode enfrentar Marina [na disputa presiden­cial], mas a Rede [partido de Marina] se saiu muito mal”, disse. Outra probabilidade é o surgimento de um nome de uma frente mobilizada pela esquerda para enfrentar os tucanos.

IMPACTO NAS VOTAÇÕES DA CÂMARA

Já o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer preferiu evitar projeções, mas admitiu que a queda do PT nas votações mu­nicipais terá reflexos dentro do Congresso e nas bases partidá­rias de legendas de esquerda que pretendem participar do pleito majoritário. “A derrota do PT foi muito forte. O parti­do elegeu 40% dos que havia eleito em 2012. E para todos os que não se elegeram, este resultado vai influenciar as possibilidades de suas bases partidárias nas eleições de 2018”, avaliou.

Para Fleischer, as eleições municipais vão produzir im­pacto direto nas votações da Câmara. Segundo ele, se o governo Michel Temer conse­guir convencer os partidos de centro direta e direita, conse­guirá aprovar a proposta de emenda à Constituição (PEC) do Teto de Gastos, prevista para a próxima semana em plenário. “Isto pode fortalecer a mudança constitucional da reforma da Previdência e da legislação trabalhista, que é mais polêmica”, completou.

SENADO

Entre os senadores, apenas Marta Suplicy (PMDB-SP) e Marcelo Crivella (PRB-RJ) concorreram a prefeituras nessa eleição.

Marta ficou em quarto lu­gar na corrida pela prefeitura de São Paulo, com 10,14% dos votos válidos, atrás de Celso Russsomano (PRB), Fernando Haddad (PT) e do prefeito elei­to, Joao Doria (PSDB).

No Rio, Crivella liderou a votação, com 27,78% dos votos válidos, e vai disputar o segundo turno com o candi­dato do PSOL, Marcelo Freixo, que recebeu 18,26% dos votos válidos.

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