quarta-feira, 29 de Agosto de 2012 10:32h Gazeta do Oeste

Ex-diretor do Dnit acusa ex-senador Hélio Costa

O ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot afirmou ontem, em depoimento à CPI do Cachoeira, que foi procurado em seu gabinete no Ministério dos Transportes pelo ex-ministro das Comunicações Hélio Costa (PMDB) para conseguir mais recursos para a campanha dele ao governo de Minas, na eleição de 2010. Pagot sustentou que o político mineiro, acompanhado de assessores, teria pedido indicações de empresas que poderiam fazer doações e ao não ser atendido teria feito ameaças. “Quando ele viu da minha negativa, ele levantou de rompante, me deu de dedo e disse: 'Vou me eleger governador do estado de Minas Gerais, e a primeira coisa que vou fazer é te tirar do Dnit'. São coisas que se sofrem sendo dirigente de uma autarquia”, alegou Pagot, que perdeu o cargo em julho do ano passado depois de denúncias de corrupção e tráfico de influência no Ministério dos Transportes. 

 

Antes de citar Hélio Costa, Pagot havia confirmado aos parlamentares que foi procurado pelo então tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff (PT) ao Palácio do Planalto, o deputado federal José de Filippi Júnior (PT-SP), e pela ministra Ideli Salvatti, que em 2010 concorreu a uma cadeira no Senado, sempre com objetivo de arrecadar mais recursos para campanhas eleitorais. “Eu posso até dar outro exemplo. Não devia, mas vou. Não foi só a senadora Ideli que me procurou. Teve outra procura que eu fiquei extremamente constrangido e ameaçado. Pede audiência o ex-ministro Hélio Costa. E vem me procurar no sentido de indicar empresas para que fizesse arrecadação. Me manifestei da mesma maneira, dizendo que eu não aceitaria e que procurasse partidos políticos”, afirmou.

 

 


Por telefone, Hélio Costa negou ter recebido qualquer tipo de ajuda do ex-diretor do Dnit ou ter mantido contato com ele durante o período em que esteve no ministério. O peemedebista confirmou ter se encontrado uma vez com Pagot durante a campanha de 2010, mas alegou que foi depois de ter deixado a pasta, quando eles teriam discutido possíveis ações para as estradas mineiras. “Estive lá para tratar de propostas para nossas rodovias e nada além disso. Inclusive fui acompanhado de assessores do PT e do PMDB e, mesmo que algum deles tivesse pedido algum tipo de ajuda, de forma alguma fomos atendidos porque nunca recebemos nada dele”, garantiu Hélio Costa.

 


Detalhes

 

 

Pagot repetiu no depoimento o que havia dito antes da aprovação de sua convocação para a CPI mas apresentou detalhes de como teria sido procurado por dezenas de empresas com contratos com o órgão para que elas fizessem doações para a campanha da presidente Dilma, em 2010. Ele garantiu, contudo, que as abordagens e as doações que se efetivaram por parte dessas empresas, foram legais e que as contribuições não tinham relação com eventuais atos administrativos do Dnit. Pagot relatou aos parlamentares ter sido procurado por José de Filippi Júnior, quando teria mostrado a ele uma lista de 369 empresas que tinham contrato em vigor com o Dnit. Segundo ele, o tesoureiro pediu para que ele procurasse "30 ou 40" empresas com contratos no Dnit para que contribuíssem com a campanha de Dilma. Segundo o ex-diretor, o pedido não envolvia uma conotação de achaque às empresas.

 

 


“Ele disse: não se preocupe com as maiores, que isso é assunto do comando da campanha, mas se você puder procurar umas 30, 40, peça para fazer doação na conta de campanha", relatou Pagot. Procurei as empresas e não estava praticando nenhuma irregularidade. Não associei a nenhum ato administrativo no Dnit e não estabeleci percentuais. Algumas empresas encaminharam para mim um boleto demonstrando que tinham feito a doação, legalmente, na conta de campanha. Não passaram de meia dúzia", afirmou.

 

 


A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, disse que "jamais recorreu" ao ex-diretor do Dnit para "solicitar recursos para campanhas ou mesmo indicações de empresas para esse fim". Por meio de nota, a assessoria da secretaria frisa que “na condição de senadora e de coordenadora do Fórum Parlamentar Catarinense, Ideli esteve no Dnit diversas vezes, sempre para reuniões a respeito do andamento de obras no Estado de Santa Catarina".

 


O líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP), confirmou que o então tesoureiro da campanha de Dilma, reuniu-se com o ex-diretor do Dnit para pedir contatos de empresários mas rejeitou que tenha sido solicitado que Pagot pedisse doações à campanha petista. “No caso do Filippi, realmente aconteceu [o encontro com Pagot]. Ele era tesoureiro da campanha e buscava contatos da sociedade brasileira. Imagino que fez visita ao Pagot e procurou ver se ele podia ajudá-lo de forma republicana e transparente", alegou Tatto.  

 

 

Demóstenes na mira

 

Luiz Antonio Pagot também envolveu o dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, em negociatas comandadas por Demóstenes Torres, senador cassado por colocar o mandato a serviço do bicheiro. Em resposta ao relator da comissão, deputado Odair Cunha (PT-MG), o ex-diretor do Dnit disse ter participado de dois jantares na casa de Demóstenes. O primeiro ocorreu no fim de 2010, entre novembro e dezembro. O segundo, em fevereiro do ano seguinte, contou com a presença dos diretores da Delta, entre eles o dono da empreiteira, Fernando Cavendish.

 

 


“Além de Demóstenes, vários diretores da Delta estavam no jantar: Cavendish, Cláudio Abreu e Xavier (representante da empresa em Brasília). Falha-me a memória se o outro era Pacheco ou Aloizio”, disse Pagot. O ex-diretor do Dnit contou que Demóstenes quis saber se o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), nas etapas 1 e 2, teria dinheiro suficiente para as obras.

 


Depois, o então senador pelo DEM teria feito um pedido mais reservado a Pagot. “Quando acabou o jantar, Demóstenes me convidou para uma sala reservada e disse: ’Eu tenho dívidas com a Delta, que apoiou a minha campanha, e preciso de alguma obra com o meu carimbo.’ Respondi que não podia atendê-lo, que não poderia ir ao mercado e dizer: ’Reserve uma obra à Delta”, continuou o ex-diretor do Dnit no depoimento à CPI.

 

 


Pagot disse ter sido "vítima de uma perseguição" por não ter dado “vida boa" à Delta Construções, que, de acordo com Pagot, era alvo de diversas ações do departamento por conta de obras fora do cronograma. Ele ressaltou que, após sua exoneração, se sentiu um "morto-vivo", um "fantasma". Segundo ele, os problemas com a Delta começaram em 2010, citando problemas na BR-116, no Ceará, na rodovia 104 em Pernambuco e na BR-101, no Rio de Janeiro. Pagot ressaltou que gostaria que os parlamentares realizassem uma CPI do Dnit para ele provar sua idoneidade.

 


Silêncio

 

 

O empresário Adir Assad, acusado pela Polícia Federal de ser dono de empresas laranjas que receberam recursos ilegais da empresa Delta Construções, usou hoje o direito constitucional de permanecer em silêncio e foi dispensado ontem. Hoje, a CPI vai ouvir o ex-dono da empreiteira Delta Fernando Cavendish, que conseguiu habeas corpus do Supremo Tribunal Federal para também ficar em silêncio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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