sábado, 22 de Novembro de 2014 05:08h Atualizado em 22 de Novembro de 2014 às 05:11h. Jotha Lee

Ex-superintendente do São João de Deus culpa ampliação da unidade pelo rombo financeiro

Ronan Pereira Lima diz à Comissão da Câmara ter assumido dívidas confiando em doações

O ex-superintendente do Hospital São João de Deus (HSJD), ex-frei Ronan Pereira Lima, pivô da maior crise já enfrentada na história do hospital, que caminha a passos largos para a falência total caso não sejam adotadas medidas eficazes e urgentes, foi ouvido na tarde da última quinta-feira pela Comissão Especial da Câmara Municipal.
Presidida pelo vereador Marcos Vinícius Alves da Silva (PSC), a comissão composta por mais quatro vereadores – Nilmar Eustáquio (PSC), Edimar Rodrigues (PSD), Edimar Máximo (PHS) e Eduardo Print Júnior (SDD), tem por objetivo levantar informações iniciais para a provável instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os motivos que causaram um rombo no Hospital São João de Deus, que vem crescendo desde 2012 e hoje já ultrapassa R$ 120 milhões.
A crise no Hospital teve como repercussão mais grave o fechamento da única maternidade da cidade conveniada ao SUS. Entretanto, já houve redução no atendimento de pacientes, no número de cirurgias, além de pagamentos atrasados, crise envolvendo funcionários, falta de medicamentos e de materiais básicos. A situação é tão grave que, pela segunda vez, motivado pelo caos instalado no maior hospital da região, o prefeito Vladimir Azevedo (PSDB) decretou estado de emergência no sistema de saúde público de Divinópolis.
A principal revelação sobre a origem da crise financeira do hospital, feita à Comissão Especial da Câmara pelo ex-superintendente, apontou que o endividamento da instituição foi motivado pela ampliação do prédio da unidade, um projeto que visava elevar a capacidade do São João de 280 para 600 leitos em cinco anos. Só em 2009, foram investidos R$ 20 milhões para a elaboração do projeto arquitetônico do que se chamou de “novo hospital.”
O projeto previa a construção de dois prédios, um com dez andares e um com cinco, que teriam mais 60 leitos destinados ao SUS, 20 leitos duplos privados, 40 leitos individuais privados, 20 leitos de UTI e duas hemodinâmicas. A previsão de gastos era de R$ 70 milhões e, na época, o hospital conseguia arrecadar, só em doações, cerca de R$ 800 mil.

R$ 42 MILHÕES
De acordo com Ronan, a obra foi iniciada em 2010 e, para colocar o projeto em prática, construindo o primeiro anexo, tornou-se necessário um empréstimo de R$ 42 milhões, já que não havia recursos federais, estaduais ou municipais. Segundo ele, foram R$ 37 milhões para construir e equipar o anexo e mais R$ 7 milhões para pagamento a fornecedores.  O novo prédio hoje atende à hemodinâmica e outra parte recebe internações, unidade de oncologia intensiva e serviços.
Ronan disse ainda à Comissão que o empréstimo contraído junto à Caixa Econômica Federal foi feito com juros pré-fixados, “portanto não justifica a afirmação do Ministério Público que o aumento da dívida seja provocado pelo pagamento de juros”. Ele garantiu que os R$ 42 milhões já foram quitados e disse que não pode falar sobre o que aconteceu a partir de 2012, já que em março daquele ano foi destituído da superintendência do Hospital. Ele foi taxativo ao garantir aos vereadores que o Ministério Público mente ao afirmar que a dívida cresce por causa dos juros da dívida de R$ 42 milhões e disse que não confia no trabalho do MP.
O ex-superintendente afirmou ainda que contraiu o empréstimo confiando nas doações que a população sempre fez ao hospital. Contava também com a ajuda dos políticos da cidade, o que, segundo ele não aconteceu. “Não teve dinheiro nem do Estado, nem do governo federal e muito menos do município e os políticos também não contribuíram. Tivemos que arcar sozinhos com a dívida de R$ 42 milhões”, assegurou.
Embora o depoimento de Ronan tenha sido aguardado com expectativa, ele não revelou nenhuma situação verdadeiramente nova. Não explicou o fato de, como superintendente, não ter controle sobre os gastos do hospital, como também não deu nenhuma informação que possibilite rastrear o destino do dinheiro causador do rombo que hoje coloca o HSJD sob risco de falência total.

AUDITORIA
A crise do Hospital São João de Deus veio a público em agosto de 2012, quando foi publicada auditoria realizada na instituição pelo Sistema Nacional de Auditoria do SUS, a pedido do Ministério Público Estadual. Ronan foi afastado do cargo de superintendente da Fundação Geraldo Corrêa, onde recebia um salário de R$ 16 mil, em março de 2012, pouco antes da divulgação do resultado da auditoria constatando o rombo de R$ 84 milhões.
O relatório da auditoria de 31 páginas, concluiu que a crise financeira do hospital era muito grave e exigia medidas imediatas e eficazes, o que na verdade não aconteceu. A empresa Dictum, especializada neste tipo de intervenção, nomeada pelo Ministério Público para administrar o hospital, não conseguiu conter a sangria. A dívida do hospital hoje passa de R$ 120 milhões.
Ainda segundo a auditoria, a crise no São João tem caráter falimentar e deficitário de forma crônica. Confirmou a má gestão e recomendou melhor controle interno, além da substituição da direção, o que aconteceu com a intervenção administrativa.
O presidente da Comissão Especial, vereador Marcos Vinicius, disse ontem à Gazeta do Oeste que agora será feita uma avaliação do primeiro depoimento oficial dado por Ronan. Disse que ele levou alguns fatos importantes e que precisam ser analisados.
A possibilidade de se abrir uma brecha para a instalação da CPI solicitada por Nilmar Eustáquio com o depoimento do ex-superintende foi por terra, já que Ronan não apresentou nenhum relato nesse sentido e está se utilizando do momento crítico e fragilizado da saúde na cidade, especialmente com a intensificação da crise no São João de Deus, para buscar sua inocência.

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