terça-feira, 29 de Dezembro de 2015 08:40h Atualizado em 29 de Dezembro de 2015 às 08:41h. Jotha Lee

Jaime Martins: “Divinópolis está ficando difícil de ser gerida”

No seu sexto mandato como deputado federal, Jaime Martins (PSD) faz uma análise dos cenários federal, estadual e municipal

Experiente no Congresso Nacional, o deputado por Divinópolis vê os erros do governo, diz que a mudança é saudável, mas alerta para os riscos de colocar Michel Temer (PMDB), aliado de Eduardo Cunha (PMDFB) e Renan Calheiros (PMDB), na presidência da República. O deputado concedeu a seguinte entrevista ao Jornal Gazeta do Oeste e revelou sua angústia com a polícia nacional.
Como o senhor avalia 2015?
Foi um ano particularmente difícil. Tivemos um ano muito tumultuado, principalmente em relação ao nosso presidente da Câmara, que sofreu uma série de acusações, muita confusão em torno do próprio Conselho de Ética. O próprio Poder Executivo viveu momentos de muita turbulência. Foi um ano de muito desgaste para os políticos de modo geral. Nós conseguimos manter o nosso padrão, focar nos interesses da região, sobretudo de Divinópolis. E conseguimos também focar nosso trabalho na Comissão de Orçamento, que teve um dos melhores desempenhos desde que foi criada. É uma Comissão mista, composta por deputados e senadores e eu fui o seu primeiro vice-presidente. Presidi grande parte das reuniões, com discussões importantes a respeito de nosso orçamento, da meta fiscal, de alguns programas importantes do governo. Conseguimos votar mais de 400 processos legislativos completos, alguns engavetados há décadas. Contas presidenciais, avisos presidenciais, avisos do Tribunal de Contas [TCU]. Conseguimos limpar a gaveta, votar todos os créditos que interessavam ao governo para dar governabilidade e mesmo com todas as dificuldades políticas que envolvem nesse momento governo e oposição, conseguimos criar um ambiente adequado, motivar a Comissão para trabalharmos focados no interesse nacional e deixar de lado as questões meramente políticas. Conseguimos votar o orçamento, não demos aquilo que o governo queria, mas demos o que era o melhor para o Brasil, 0,5% de meta fiscal para esse ano, sem permitir que o governo faça qualquer gasto sem autorização do Congresso Nacional.
A que o senhor atribui a crise política, que praticamente paralisa outras setores da nação?
O que a gente vê com muita tristeza, é que esses embates políticos são muito mais de interesses pessoais e partidários, daqueles que estão no poder e que não querem abrir mão a qualquer custo, querem se encastelar e dali não querem sair jamais, aqueles que estão levando vantagem com contas na Suíça, assaltando os cofres e as empresas públicas, como é o caso do presidente da Câmara [Eduardo Cunha], e daqueles que estão de fora que também querem conquistar o poder a qualquer custo. Não para consertar o Brasil, mas para fazer o que estão fazendo os que estão lá agora, porque o modo político, o procedimento político, os financiamentos de campanha são exatamente o mesmo modelo. A oposição não tem para o Brasil um modelo diferente do que a situação tem. É um quadro difícil, que não nos dá perspectiva de termos alternativas viáveis para o exercício do poder. Se você pegar as empresas envolvidas na Operação Lava Jato, verá que elas doaram mais para as campanhas da oposição do que propriamente para a campanha da presidente Dilma. E essas doações, a gente sabe, não são gratuitas, por mera simpatia. São doações a custo de negociações que certamente permitam a essas empresas acessar o dinheiro público. Doação para eles [doadores] significa investimento e eles investem na política para ter retorno e querem sempre ter retornos elevados. É uma situação difícil. Estamos buscando as alternativas, buscando novos partidos, buscando novas pessoas.
Onde é preciso mudar?
Uma coisa é certa, é preciso mudar profundamente, é preciso mudar os conceitos, é preciso mudar a forma de financiar política, é preciso mudar a forma de gerenciar o Estado. Não se admite mais termos aqui e acolá bolsões de privilégios, seja no Judiciário, com algum tipo de funcionalismo que possuem diárias que complementam os salários já enormes, pessoas que acumulam cargos, que não deveriam estar acumulando. É preciso fazer uma reforma previdenciária, que seja uma reforma justa, que respeite a população que trabalha, mas que elimine aposentadorias privilegiadas e altíssimas de alguns setores do país, enquanto a grande maioria pena com um salário mínimo, já que a minoria dos privilegiados consome grande parte dos recursos da Previdência. É preciso uma mudança profunda e, tenho orgulho de dizer, que apesar de estar na política há tantos anos, ainda não perdi minha capacidade de indignar.
A Câmara conseguirá conviver com Eduardo Cunha na presidência?
A nossa matéria é, sobretudo, a indignação. Indignação com tudo que ocorre, com a situação do Brasil, indignação com o que o Executivo fez,  com o que o Judiciário às vezes tem feito e mesmo com o Poder Legislativo, que deveria estar em outro patamar, um outro foco, não meramente no embate Dilma/Eduardo Cunha, pra ver quem tem mais força, numa queda de braço. Eduardo Cunha absolutamente sem condição de presidir a Casa, fazendo do processo de impeachment meramente uma vingança pessoal porque não conseguiu ter os votos do PT no Conselho de Ética. Precisamos melhorar a gestão pública, aplicar melhor os recursos, gastar melhor, com coisas importantes, ao invés de ficar buscando mais impostos para continuar mantendo os erros. As pessoas preferem legalizar seus erros, a corrigi-los. É hora de rever essa posição e corrigir, do Congresso, do Executivo, de todos nós para construir uma sociedade mais estável e mais justa.
O senhor já tem uma posição definitiva sobre o processo de impeachment da presidente Dilma?
Acho que o PT errou muito, continua errando muito e são erros muito fortes, que justificam essa elevada rejeição que a presidente tem nesse momento. Eu acho que o processo de mudança seria altamente saudável. Acho que a presidente está sem perspectiva de retomar a confiança da população, por isso eu vejo a perspectiva de mudança de forma bastante saudável. O que nós não podemos é embarcar numa briga pessoal entre Eduardo Cunha e Dilma. Eu não posso entrar do lado do Eduardo Cunha, que está com tanto problema, certamente mais do que os dela [Dilma]. O Cunha tem problemas pessoais, contas na Suíça, dele. Casos de corrupção, dele. Portanto, ele tem na pessoa física essas denúncias e essas comprovações de corrupção feitas pelo Ministério Público da Suíça. A presidente Dilma tem erros administrativos. Escolheu pessoas erradas, gerenciou de forma errada, cometeu erros na economia, o seu partido esteve envolvido em muitas denúncias de corrupção comprovadas, os seus tesoureiros de campanha estão presos, tudo isso está no entorno dela, provocando esse estado de coisas. Mas a verdade é que ainda não há sobre ela uma denúncia de responsabilidade pessoal, que ela tenha cometido algum dolo, alguma conta fora, algum recebimento ilícito. Ela vai ter muita dificuldade em retomar o seu governo. O bom seria que batesse em Brasília os bons ventos, que todos renunciassem a seus mandatos, para a gente recomeçar mais rápido. O presidente da Câmara, o presidente do Senado, os parlamentares que estão envolvidos diretamente na [Operação] Lava jato, a presidente da República, inclusive o seu vice, que todos pudessem renunciar, porque também é preciso ver os efeitos colaterais dessa possível cassação [da presidente]. Nós vamos tirar a presidente Dilma e colocar Michel Temer? Vamos colocar Michel Temer, que é aliado de Eduardo Cunha, que é aliado do presidente do Senado [Renan Calheiros], correndo o risco de que Temer, na condição de presidente, faça acordo com Eduardo Cunha para dar a ele influência na Polícia Federal, na indicação de novo procurador da República, para dar a ele influência, quem sabe, na própria gestão da Petrobras? Nós precisamos ter muita cautela nesse momento e acompanhar de perto que acordos que Michel Temer tem feito na busca também de derrubar a presidente Dilma. Sabemos que hoje é uma queda de braço Eduardo Cunha, mais Michel Temer e outros setores do PMDB e setores de outros partidos, a oposição interessada naturalmente em assumir o poder. O que se vê, é uma guerra pelo poder, a gente não ouve ninguém falando pela moralização
Como o senhor vê a situação de Minas e Divinópolis no atual contexto político e econômico?
Vejo com preocupação a situação de Minas e de Divinópolis. Minas teve um decréscimo na sua produção industrial, um decréscimo recorde no seu PIB (Produto Interno Bruto). Isso é reflexo da própria situação nacional, com a desaceleração da economia, mas reflexo também da queda do setor de mineração. O preço do minério de ferro caiu abruptamente e produzindo a mesma quantidade, os preços vieram praticamente a um terço do que eram há três, quatro anos. Isso provoca uma queda na arrecadação das empresas, na receita do  Estado, vindo a ocasionar a queda do PIB. E também eu vejo aquele visão equivocada, de sempre aumentar impostos. Em vez de corrigir os erros de gastos, é mais fácil e menos desgastante aumentar impostos, indo ao bolso do contribuinte.  Com relação à Divinópolis, vejo que está ficando uma cidade difícil de ser gerida. Divinópolis não cabe dentro do seu orçamento e alguma coisa precisa ser feita, algumas medidas precisam ser tomadas, no sentido de que o orçamento da cidade e as demandas, os enfrentamentos e as coisas que precisam ser feitas sejam compatíveis e estejam do mesmo tamanho do orçamento.

 

Créditos: Jotha Lee

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